Permitam-me que escreva estas linhas com um sentido um pouco diferente do habitual, não será somente uma simples narrativa histórica, mas o balanço de uma vida de alguém que tanto deu à sua comunidade e soube servir os seus elementos, valorizando o humanismo da sua profissão que é esquecido por muitos, em que o vil metal se sobrepõe ao espírito de missão.

Filha do valoroso médico Avelino da Costa Moreira Padrão, humildemente tratado pelas suas gentes como o “médico dos pobres”, alcunha conseguida pelo seu espírito de missão que iria transmitir e educar as suas gerações futuras, sendo igualmente um apaixonado pela sua terra, tendo enorme responsabilidade além da prática médica e a sua envolvência com a sociedade, o seu apoio à introdução do teatro na freguesia, como também na obra de S. Gens, entre outras causas públicas e bairristas.

Todavia, o palco desta crónica tem de ser dado a esta sua filha que, recentemente acabou por partir, não devendo nunca esquecer a sua ousadia de desafiar os padrões de uma época e que até hoje seriam tratados como pioneiros.

A perspicácia de perceber que poderia ter um complemento à sua formação, que lhe poderia ser útil na sua vivência profissional diária, iria realizar e concluir com sucesso um importante patamar académico na área da enfermagem, conseguindo uma maior polivalência profissional futura.

A ousadia de ser mulher e ter uma formação académica ao nível superior, algo que era estranho e também negado para a maioria das mulheres naquele tempo, sinais de tempos e mentalidades que ainda bem que se perderam na passagem dos tempos.

A ousadia de, na fundação da sua farmácia em 1951, pegar numa bicicleta com o apoio da sua irmã, realizando inúmeras viagens a todos os horários do dia para entregar medicamentos e também prestar cuidados básicos de enfermagem, não esquecendo que mesmo de noite, o trabalho era intenso para a produção dos “manipulados”, uma ia revezando a outra nestas missões e permitia que a população trofense tivesse acesso a cuidados de enfermagem.

A ousadia de, em 1975, ser mulher e ser candidata à Assembleia Constituinte pelas listas do PPM no círculo do Porto, numa fase conturbada da nossa história em que a paixão pela política era superior à racionalidade, como também uma mulher na política ainda era algo estranho para a comunidade.

O respeito que granjeou em vários setores da sociedade portuguesa, notabilizando-se no amor à sua terra com o apoio à introdução da Caixa de Crédito Agrícola na Trofa, a várias causas da Igreja Católica, lar de idosos e por último sempre próxima da corporação dos Bombeiros Voluntários da Trofa.

O texto desta semana não é um simples elogio, é um reconhecimento a uma vida que tanto deu à sua comunidade, que a serviu com o nobre espírito de missão com a esperança que a sua vida, sirva de exemplo a atual e a futuras gerações, comprovando que o sexo com que o ser humano nasce em nada invalida a sua capacidade de ser um exemplo e conquistar o respeito da sua comunidade.

Descanse em paz….