O ciclista trofense Daniel Silva foi 4º classificado na Volta à Guatemala. Numa das etapas da prova feita para “trepadores”, o atleta que representa o Onda-Boavista chegou a conquistar a 2ª posição. 

Diz quem vive do ciclismo há 30 anos que o ambiente vivido na Guatemala “só se compara a uma Volta a França”. São quilómetros de pessoas na estrada, que se vão aglomerando nas vias e que formam uma pequena brecha para os ciclistas passarem. Confettis, serpentinas e foguetes protagonizam um espetáculo de cor e som difícil de presenciar noutros locais no mundo. Com um rádio numa mão e confettis na outra, os espectadores vibram até à chegada à meta. Aí, “engolem” os atletas, pedindolhes “autógrafos, fotografias, as luvas e até o bidão da água”. Mas também oferecem artigos simbólicos como “peças em madeira típicas do país, feitas à mão, pulseiras e carteiras” como se tratassem de uma espécie de “bênção”.

Daniel Silva, ciclista trofense, completou a Volta à Guatemala com “uma pequena máscara de um touro, feita em madeira, oferecida por uma criança de sete anos”. Como a sentiu “especial”, viajou com o pequeno “amuleto da sorte” no bolso da camisola. A pequena dádiva fez efeito, já que o ciclista da Onda Boavista conquistou o 4º lugar da classificação geral desta prova, que se realizou de 13 a 20 de maio.

Durante oito dias, os participantes percorreram 980 quilómetros, distribuídos por etapas onde abundava o percurso na montanha, sempre acima dos 2000 metros, chegando mesmo a atingir os 3000 metros. “Nessas altitudes o ar é pobre em oxigénio e que torna a respiração muito ofegante”, explicou Daniel Silva, que elencou esta como uma das dificuldades, a par do fuso horário (na Guatemala são mais sete horas que em Portugal).

 

Perante adversários colombianos de peso, a Onda Boavista foi a única representante europeia na prova, onde também participaram equipas do país anfitrião, Estados Unidos da América, Brasil, Equador, Costa Rica e Colômbia. Com a participação nesta volta, a equipa lusa pretendia “dar dias de competição aos ciclistas, para aumentar a forma e, assim, colher frutos no futuro”. No entanto, a prestação de Daniel Silva quase a colocou no pódio. Na 7ª etapa, o ciclista trofense teve o seu “momento alto”, ao chegar em 2º lugar. Recém-chegado a Portugal, explicou ao NT que a prova desse dia apresentava-se com “duas montanhas seguidas até aos 3000 metros”. “Os colombianos impuseram um ritmo forte que o pelotão se partiu todo. Ficamos na frente quatro colombianos, um costa-riquenho e eu. Chegamos à meta com quase seis minutos de avanço para o grupo de trás e foi o melhor que consegui fazer face à desvantagem numérica e às condições desfavoráveis em relação à altitude”, contou.

O 4º lugar final “foi muito bom”, no entanto, Daniel Silva ficou com a sensação que podia ter chegado ao pódio “se tivesse feito o contrarrelógio de 30 quilómetros na cabra (bicicleta mais aerodinâmica)”. “Perdi cerca de quatro minutos para o 1º classificado, porque fui numa bicicleta normal. Na cabra, teria tirado, no mínimo, dois minutos ao meu tempo”, explicou.

A classificação “foi moralizadora” para o que resta da época e pelo trabalho realizado na alta montanha. Para a história ficam os três 8º lugares, um 4º e um 2º. A camisola das metas volantes foi conquistada pelo colega José Gonçalves. Daniel Silva ficou em 2º lugar nessa classificação e a equipa Onda-Boavista tirou a 3ª posição.

Prova recheada de momentos caricatos

Daniel Silva espera “voltar” à Guatemala. “Nunca imaginei tal ambiente e tanta aficion na Volta à Guatemala, em todas as etapas. O início da prova é logo marcado pela bênção do padre da localidade e todos os dias há bandas de música e marimba (instrumento típico do país)”, contou.

Outro dos momentos que o ciclista “nunca tinha visto” foi “a grandiosidade da cobertura jornalística feita pelas rádios guatemaltecas”. “Eram dezenas de motos com jornalistas a acompanhar as etapas do princípio ao fim, a entrevistar os diretores desportivos sobre as táticas em pleno decurso da prova. À noite estavam no hotel das equipas a entrevistar os ciclistas sobre a etapa, o que jantaram e qual a tática para o dia seguinte. 

E relatam com tal entusiasmo que a maior parte das pessoas que estão a assistir na estrada, também estão com o ouvido na rádio”, acrescentou. O ciclista relembrou ainda um episódio caricato que viveu com a comunicação social: “Nas chegadas a confusão é total. Os fotojornalistas são tantos que fazem uma espécie de muro a seguir à meta, procurando o melhor lugar. Numa etapa, que ataquei na parte final para ganhar um pouco de tempo ao camisola amarela, fiquei em 4º lugar e fui contra os jornalistas, pois não consegui travar a tempo de parar, completamente”, relembrou.

Daniel Silva também não esquece “as meninas do pódio”, que fazem as delícias do público (e atletas) e são às dezenas. Enquanto “distribuem brindes, há uma fila de homens para tirarem fotos com elas”.

{fcomment}