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Crónica Verde APVC: Zurra visto por Ernestino Maravalhas

Crónica Verde APVC: Zurra visto por Ernestino Maravalhas

Desta feita, esta coluna abraça um especialista em assuntos relativos ao conhecimento e à conservação da biodiversidade em Portugal, o grande Ernestino Maravalhas. A APVC assinala e agradece a sua cativante participação na secção literatura da ZURRA 2018, com exposição literária e palestra. Ele que, dias antes (18 e 19 de Setembro), foi um dos oradores no Encontro “Bring Bugs Back to LIFE”, em Edimburgo, Escócia. Acreditamos que a crónica do Ernestino vai ajudar a mudar mentalidades.

«A “Zurra – festa do burro” é um evento deveras interessante, uma vez que se realiza num espaço rural ativo e combina diversas ações em áreas tão distintas como música, atividades performativas, literatura, fotografia, divulgação do património natural e, claro, mostrar o que são os burros, como se relacionam com o ser humano e como será o seu futuro. A quinta edição pareceu-me madura e mostrou um universo diversificado, que é o mundo em que vivemos, sempre com a Natureza como mote (a espécie humana é um elemento integrante dessa Natureza).

Após 20 anos de participação em eventos ligados ao património natural, vejo aqui uma oportunidade das gentes do Coronado chamarem a atenção para uma região onde a biodiversidade ainda povoa campos e trilhos rurais, bem como aos agentes culturais, como a banda D’ Alba, que deu um espetáculo emocionante, do qual destaco a música “Nuvem”, que, sendo ligeira, tem complexidade harmónica e rítmica e a melodia nos faz sentir um calafrio, dada a beleza e emoção que encerra. Uma mostra de fotografia de Fernando Ferreira transportou-nos para o microcosmos da bicharada miúda, onde os insetos, os anfíbios e os répteis se destacam. Embora a maioria das fotos provenha de outros lugares, os animais ali mostrados encontram-se no Vale do Coronado e a exposição acabou por se transformar num cartão de visita, uma montra da biodiversidade da região. Os burros e os famosos caretos, “máscaras rituais” de Vila Boa de Ousilhão, Vinhais, diversificaram os participantes e mostraram que as tradições, em Portugal, ricas em cor e texturas, estão para durar!

A presença de organizações ligadas ao ambiente e à sua proteção, com relevo para as alterações climáticas, provaram que a festa não é só alegria, é preciso informar as pessoas para os perigos que o plante corre. A minha participação visou mostrar os três guias que produzi: “As Borboletas de Portugal, As Libélulas de Portugal” e os “Anfíbios e Répteis de Portugal”. Estes guias de campo são uma referência no nosso país, pelo conteúdo gráfico, o rigor científico, a facilidade de leitura e assimilação de conteúdos. Uma conversa sobre anfíbios e répteis deu a conhecer o livro mais recente – editado em 2018 – que trata animais tão belos e frágeis como ameaçados: cerca de 70% dos anfíbios do Mundo encontram-se em risco de extinção e as espécies portuguesas seguem o mesmo padrão. Também foi possível mostrar os três romances que a escritora Adnilo Lotus de Carmim produziu; um deles, “Os Lírios da Vida”,foi prémio Papiro, em 2008.

Numa parte do espaço rural, foi possível degustar algumas iguarias da nossa gastronomia, tais como as saborosas bifanas e também foi possível mitigar o calor abrasador, com bebidas frescas. A APVC, com esta festa, consegue, ano após ano, trazer cor, alegria, cultura e gente ao lindo Vale do Coronado, uma região que tem muito para descobrir. A proteção e divulgação do burro acabaram por servir de mote a um evento diversificado que permitiu a adultos e a numerosas crianças, desfrutar de um espaço magnífico e de um domingo inesquecível. A diversidade e a qualidade dos participantes nesta festa auguram um futuro promissor, que os locais – e não só – deverão explorar para divulgarem o património na sua multidisciplinaridade. Pela minha parte, espero poder vir a contribuir para a consolidação da festa e da divulgação da região. Palavra de burro!»

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