Chegado em 17.9.17 das vindimas em Arcos de Valdevez, onde já há diversos anos ofereço a minha parca ajuda a amigos de longa data confesso-me surpreendido, ao atualizar-me pela leitura dos periódicos locais, por um artigo da autoria do Sr. Padre Ramos, no CT de 8 de setembro último. Não por tecer as considerações que faz à pessoa em causa, o presidente da junta da união de freguesias de Alvarelhos e Guidões e atual candidato de uma força politica ao mesmo órgão autárquico, mas por utilizar a sua roupagem de clérigo para o fazer. Poderia expor esse seu juízo após o ato eleitoral. E jamais o concretizaria utilizando as suas vestes de cura, assinando como padre, utilizando a sua própria história de sacerdote. Um padre, supostamente, representa Deus e a Igreja. Deve tratar as suas “ovelhas” da mesma forma e não tomar partido por uma contra outras. Jesus, quando perguntado se se deveria ou não pagar o tributo de cabeça a César, imposto que os judeus suportavam mal e os zelotas proclamavam o seu não pagamento, enuncia que se deve restituir a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, ou seja, a cada um o que lhe pertence. Se a moeda utilizada – o denário – exibe a imagem de César e o povo aceitou essa moeda, aprovou a obrigação de lhe pagar o tributo. Mas mantém-se o dever de prestar a Deus o que lhe é devido. Não há colisão nem conflito entre os direitos e a esfera de César e os direitos e a esfera de Deus, desde que apartados. Uma clara referência à separação do que é público, civil, mundano, do que é religioso e sagrado. Por isso os párocos não deveriam tomar partido no exercício das suas indumentárias eclesiásticas, podendo-o fazer enquanto homens. Expõe o Sr. Padre Ramos: «alguns dos nossos leitores, me acusarão de vir para aqui intrometer-me em assuntos políticos. Mas não…. Quis apenas…enaltecer um homem…». Sabe bem o Sr. Padre, conscientemente, porque é inteligente, que o que escreveu e o momento e circunstâncias em que escreveu, foi claramente professar uma opção política, apoiar uma facção. Não sejamos hipócritas. Só os homens e as mulheres, seres terrenos, deveriam debater essas coisas do mundo, da terra e, claro está, da política. Pelo respeito que granjeou entre os seus paroquianos e não paroquianos, onde me incluo, entre crentes e não crentes, onde também me insiro, com as suas vestes de padre não deveria tomar partido publicamente. É, além de tudo mais, uma questão de bom senso, de equilíbrio.

Mas passemos ao conteúdo, pois não quero desertar do confronto político. Sucintamente, o Sr. Padre Ramos elogia o atual presidente da união e candidato partidário a presidente por mais 4 anos, reproduzindo um texto de Daniel Silva e atribuiu-lhe uma «simplicidade ímpar» e uma «humildade inigualável». Para enaltecer ou demonstrar estas prerrogativas refere o facto de o ver constantemente ao volante da carrinha ou do trator, a regar ou a podar junto com os funcionários e estar presente em todos os funerais. Ora, com todo o respeito pela posição do Sr. Padre Ramos, e este apreço e estima são augustos, sabe-o bem o Sr. Padre, quem me conhece e quem comigo lida, estamos no domínio do terreno, da política. O Sr. Lino Maia, pessoa sobre a qual também me inclino educadamente e que me merece toda a consideração, representa politicamente uma força partidária que concorre às eleições autárquicas. O seu trabalho nos últimos 4 anos foi político. Laborar nos jardins e nos canteiros, é mostrar política, porque os jardins e os canteiros são coisa pública e ele é presidente. Se não fosse, o Sr. Padre vê-lo-ia nessas funções? Se pavimentou uma rua e não a outra, foi uma opção política. Entre parêntesis, se o Sr. Padre aqui estivesse após o 25 de Abril, repararia nos meus amigos Arnaldo Ferreira, já falecido, e Aires Maia (da comissão administrativa), de galochas, todos os dias, no fim das suas profissões, a trabalhar nas ruas, nas valetas…na coisa pública, sem qualquer ordenado ou remuneração. O que agora não sucede. Admiraria o povo de Guidões a transformar o campo da bola, a eletrificar o lugar de Vilar, a repor os vidros na escola, etc.

A força política a que Lino Maia pertence e que apoia – PSD/CDS – foi responsável, durante 4 anos por uma política feroz de empobrecimento, onde os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres. A “Geringonça” restituiu a dignidade ao povo português, devolvendo salários e pensões (aumentadas extraordinariamente em agosto), feriados, inclusive dois religiosos, aumentando o salário mínimo, devolvendo outros direitos sociais. Também na nossa autarquia foram feitas opções. No imediato, até podem ser julgadas positivamente, mas no futuro, serão…? Gastaram-se milhões em obras centralizadas na sede do concelho, quase sempre de ostentação. E o interior e as freguesias, receberam igual fatia? E na freguesia? Porque razão se centralizam todos os serviços no centro de Alvarelhos, havendo iguais condições para alguns deles funcionarem em Guidões? Não estamos a prejudicar os que vivem mais afastados? Estes não ficam mais pobres? Dos orçamentos não vão 75% para Alvarelhos e apenas 25% para Guidões? Isto não é aprofundar diferenças, criar clivagens? Será justo realizar obras de pavimentação em certas ruas dotando-as de bom asfalto e noutras, levantar e voltar a colocar-se o mesmo paralelo, ficando mais liso o pavimento de momento, mas sem dar garantias de grande futuro? E a espinha dorsal que liga o Bicho à Carriça não continua por alargar e pavimentar? E quando se passa a dar condições de segurança aos peões? E não se continuou a gastar na freguesia desnecessariamente no momento em que PSD/CDS/Passos/Portas no poder, retiravam direitos, salários, reformas e pensões? Por exemplo, no “embelezamento” das rotundas da Santa Eufémia, onde se estouraram alguns milhares de euros? Todas esta politicas, nacionais e locais, criaram mais assimetrias, mais desigualdades, que é o mesmo que dizer, mais pobres e mais ricos. Intrometendo-se a religião nisto, são um pouco contra o cristianismo. É só lembrar as posições de Jesus sobre o perigo das riquezas quando disse que «é mais fácil a um camelo passar pelo orifício duma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus!».

Guidões, 19/09/2017

Atanagildo Lobo