“Um dos gestos mais belos e generosos do homem, andando vagarosamente pelo campo lavrado, é o de lançar na terra as sementes.” Esta citação, de Clarice Lispector, retrata perfeitamente a história da Trofa que, ao longo de várias gerações, rodeou-se de Homens e Mulheres que lançaram sementes nestas terras férteis. Uma dessas sementes que germinou com sucesso foi o Projeto de Requalificação das Margens Ribeirinhas do Rio Ave, mais conhecido como Parque das Azenhas.

Idealizado em 2007 pelo executivo camarário de então, mas foi em 2013 que este projeto avançou sob a liderança da Dr.ª Joana Lima e que se deu por totalmente concluído em 2017, esta semente lançada à terra resultou numa transformação singular: cerca de 4 quilómetros de um percurso ciclável e pedonal, englobando 26 mil m2 de áreas verdes e quase 4 mil árvores, num espaço que contrasta entre o meio urbano e rural das freguesias de Bougado e onde coabitam inúmeras espécies de fauna e flora ao longo de todo o percurso ribeirinho. Indiscutivelmente, o Parque das Azenhas voltou a cidade para o rio, dignificando-o e tornando-o mais presente no quotidiano dos Trofenses.

Asseguro-vos que recuperamos um autêntico diamante em bruto! Tales de Mileto afirmava que “a água é o princípio de todas as coisas” e, de facto, o desenvolvimento desta terra não teria sido o mesmo se não tivéssemos esta dádiva natural.

Todavia, este diamante à beira rio plantado ainda está por lapidar!
O rio Ave banha o concelho numa extensão de cerca de 10 quilómetros e nessa dimensão existem nove azenhas que se encontram num estado de ruína avançado ou descaracterizadas, à exceção da Azenha de Bairros (a única em laboração no concelho), bem como os açudes que subsistem há centenas de anos numa luta constante contra a permanente erosão das águas do Ave. É revoltante assistir ao desaparecimento do nosso património pré-industrial, sem que sequer exista uma linha, uma ação ou um plano municipal que preserve isso mesmo. É urgente que o município adquira as azenhas, requalifique-as e lhes dê um destino digno!

Embora concluído recentemente, o parque apresenta-nos um cenário de algum desmazelo. É certo que este último inverno foi rigoroso no que a cheias diz respeito, mas o desleixo não é de agora, e verifica-se, por exemplo, nas vedações destruídas ou com lixo acumulado, no piso danificado em certos pontos, no leito dos ribeiros afluentes com presença de espécies invasoras e acumulação de resíduos ou nos fracos acessos ao parque, principalmente na freguesia de Santiago de Bougado.

Evidentemente que esta revela-se como uma das faces do diamante por polir! Estou certo de que nenhum de nós, quando convida alguém a ir lá a casa, gosta de ter a sua habitação suja ou com um jardim descuidado. Portanto, na casa que é de todos esperava-se o mesmo!

A expansão do parque é, sem dúvida, o cerne deste diamante por lapidar! A sua essência só se concretizará plenamente quando o toda a “costa” ribeirinha do concelho for requalificada, a começar no limite com Santo Tirso e a terminar em Guidões, na fronteira com Vila do Conde. A meu ver, seria um projeto deveras arrojado e ousado se envolvesse também todo o Baixo Ave – Santo Tirso, V. N. de Famalicão e Vila do Conde – servindo-se das infraestruturas já existentes em Santo Tirso e na Trofa, potenciando-as ainda mais e ampliando-as em toda a corrente do rio neste território.

Estaríamos a falar de um projeto regional, ímpar, enorme e de uma riqueza incalculável a vários níveis. Este traçado é complexo, mas não é impossível! Exige rasgo, exige visão, exige cooperação e, acima de tudo, vontade política!

Pedro Castro – São Martinho de Bougado
03-08-2020