Sócrates e o PS juntaram-se no passado 15 de Março no pavilhão do Atlético do Porto em espaço bem orientado, dando a impressão de casa bem cheia. A ideia era comemorar os três anos de governação dita "socialista". Para isso foram alguns milhares ao Porto comemorar…

 Na Justiça, justiça para os poderosos e a falta de justiça para os pobres. As dificuldades na concessão do apoio judiciário e o novo mapa judiciário conduzem ao esvaziamento e encerramento de tribunais; conduzirão a uma justiça ainda mais distante e inacessível ao povo e aos trabalhadores. A ausência de diálogo com os profissionais do foro leva a verdadeiros fracassos legislativos como o C. Processo Penal e o C. Penal. Estamos perante tentativas de redução do serviço público de justiça, afastando os cidadãos dos tribunais, abrindo caminho à justiça privada.

 A morosidade dos processos continua e até aumenta, demonstrando-se como uma medida claramente hipócrita e eleitoralista o encurtamento das chamadas férias judiciais. Na educação, foram celebrar o ataque à escola pública, a velha figura cinzenta do director, a transferência da gestão das escolas do ensino básico para os municípios e o processo de avaliação dos professores. Está tudo subvertido, os alunos não são avaliados mas os formadores são. A pressão é intensa. É obrigatório passar os alunos sempre, dando-lhes títulos e canudos que de nada servem, com malévolas consequências no futuro para os próprios e para o país. Na saúde, foram festejar o encerramento dos serviços de saúde, das maternidades e das urgências, foram lembrar os 750 000 portugueses que continuam sem médico de família, os 200 000 portugueses que permanecem em lista de espera aguardando uma cirurgia. No trabalho, foram recordar a taxa de desemprego de 8%, a mais alta depois do 25 de Abril, atingindo em termos reais os 600 000 trabalhadores; foram comemorar a diminuição do número de trabalhadores a quem é atribuído o subsídio de desemprego, fruto da alteração da lei pelo PS. Foram celebrar o trabalho precário, que atinge um em cada quatro portugueses. E foram estes ditos "socialistas" comemorar, antecipando o futuro por eles desejado, ou seja, a flexibilidade das relações de trabalho que Sócrates pretende com a elasticidade dos horários de trabalhos e os despedimentos arbitrários.

No social, económico e financeiro, foram comemorar a baixa real dos salários e das pensões; foram festejar o aumento do custo de vida, com aumentos enormes nos bens alimentares, transportes, energia, habitação; foram recordar os novos cálculos das pensões de reforma, o aumento da idade da reforma, o numero cada vez mais elevado de pobres; mas também foram celebrar os estrondosos lucros dos grandes grupos económicos. As cem maiores fortunas cresceram 13% em 2006 e 36% em 2007, valendo 34 milhões de euros. Foram louvar os 3 000 milhões de lucros que obtiveram em 2007 os 5 maiores bancos, 8 milhões de euros ganhos por dia, sem pagarem IRC na mesma proporção, ou melhor, pagaram menos 1% em 2007 que em 2006, apesar do aumento do lucro. Foram aplaudir o fraco crescimento económico, abaixo do crescimento europeu e, sobretudo crescimento que só se reflecte no património dos ricos. Foram enaltecer o abrandamento do investimento público, a redução do consumo interno, o desmantelamento do aparelho produtivo, a falência e a insolvência de milhares de pequenas e médias empresas; foram elogiar o aumento dos impostos e a criação de novas taxas. Foi isto e por isto, entre muitas outras coisas negativas, que levou alguns milhares a comemorar no pavilhão do Académico 3 anos de governo PS. Mas podemos afirmá-lo sem qualquer margem de erro, que ficaram muito aquém dos milhares de trabalhadores da administração pública que se manifestaram na passada semana. É minúsculo o comício do PS comparado com a caudalosa marcha vermelha de 50 000 comunistas em desfile pelas ruas de Lisboa, entre o Príncipe Real e o Rossio. E completamente insignificante e mísero quando comparado com essa estrondosa marcha da indignação dos professores de 8 de Março, com mais de 100 000, entre o Marquês e o Terreiro do Paço.

O leque social de apoio deste governo caiu, diminuiu. Resta-lhe o apoio dos poderosos. A alternativa está à esquerda. De direita e bem de direita é esta politica praticada por um partido dito socialista. E se é claro resultar o PCP como verdadeira oposição à política deste governo nas palavras e na acção, é mais claro não existir alternativa sem o PCP. O PS bem o sabe. Daí a desorientação das declarações habituais de Sócrates e aquelas de Santos Silva em Chaves, estouvadas e desmioladas, mas desesperadas, raivosas e iradas. Por onde andaria Santos Silva e o seu PS durante a longa noite fascista? Quando apenas os 23 membros efectivos e os 13 suplentes do Comité Central do PCP que chegou ao 25 de Abril somavam 308 anos de prisão e 755 de clandestinidade. Deite pois o Sr. Ministro muita pimenta na língua, que é para não voltar a dizer despautérios. No mesmo rumo se encarreirou este acanhado comício do PS, ao qual, com imenso humor, Vasco Pulido Valente apelidou de " típica manifestação de desagravo, essa velha missa de fiéis defuntos para gozo e glorificação do chefe, de que Salazar tanto gostava".

 

Atanagildo Lobo