Em inglês ou francês, os candidatos da Aliança Portugal, do PSD/CDS-PP, saudaram a presença de Jean-Claude Juncker, candidato à presidência da Comissão Europeia, no jantar-comício que teve lugar na Trofa, no sábado, 17 de maio. Mas os recados ao PS foram todos dados em português.

À entrada para o armazém na Rua do Poente, em Santiago de Bougado, no dia que marcou a saída da troika de Portugal, Jean-Claude Juncker recebeu das mãos de António Nogueira Leite o manifesto “Nunca Mais”, que recusa as políticas que levaram ao resgate financeiro. Um pedido algo perturbado pelo som das buzinas de uma manifestação contra os cortes do Subsídio de Educação Especial e que tanto Juncker como os candidatos da coligação Paulo Rangel e Nuno Melo contornaram para chegar ao armazém. Lígia Costa, uma das manifestantes, afirmou que o protesto serviu para reivindicar “a revogação do protocolo que foi assinado entre a Segurança Social e o Ministério da Ciência e da Educação”, que considera “ilegal”.

Já dentro do armazém, o barulho foi de saudação e de cânticos de apoio aos candidatos. Sérgio Humberto abriu as hostes e, depois de saudar Juncker, em inglês, direcionou o discurso num declarado apoio à candidatura da coligação. O presidente da Câmara da Trofa – e conselheiro nacional do PSD – considera que o desafio de Rangel e Melo “não é fácil”, mas mostrou-se “convicto” que “uma vez mais, contra ventos e marés”, a vitória eleitoral não fugirá à direita. Mas “mais importante” que o triunfo, sublinhou, “é o trabalho de continuar a credibilizar Portugal e cumprir o nosso destino e desígnio europeu”.

Numa presença exclusiva na Trofa, Sérgio Humberto não aproveitou para pedir ao possível vencedor das eleições apoio nas obras potencialmente comparticipáveis por fundos europeus, como a variante à Estrada Nacional 14 ou a linha do metro. O famalicense Nuno Melo também não evocou a variante no rol de pedidos endereçados a Juncker. Melo apelou ao candidato luxemburguês que “nunca confunda os portugueses com quem governou e trouxe a troika em 2011”. O candidato do CDS-PP pediu ainda a Juncker “que ajude a construir uma Europa diferente”, um “verdadeiro bloco” que “não faça a diferença entre o norte e o sul, entre os ricos e os pobres”. “Uma Europa que seja a 28 e onde os portugueses estejam lado a lado com alemães e franceses, mas nunca sob a batuta de um outro povo europeu”, sublinhou.

Grande parte dos discursos dos candidatos da Aliança Portugal focalizou-se no ataque ao PS, e com José Sócrates na mira. Ora, Nuno Melo referiu-se ao “facto político” de o ex-primeiro-ministro socialista ter sido escolhido para estar no encerramento da campanha. “Isto mostra que o PS não aprendeu nada do que aconteceu em Portugal até 2011”, sublinhou, sem também deixar de considerar que “ao chamarem o responsável pela bancarrota”, os socialistas “desrespeitam todos os portugueses que se sacrificaram”.

Já Paulo Rangel mostrou-se “chocado” e considerou “uma vergonha” o facto de o PS “em vez de fazer propostas para a Europa, vir hoje (sábado), dia da saída a troika, apresentar um pseudo-programa do Governo”. “Ainda dizem que nós temos o relógio trocado. Quem tem o calendário avariado são os socialistas”, ripostou.

O cabeça-de-lista pediu ao auditório para “passar a mensagem” de que a coligação “trabalhou três anos para repor as contas públicas e trazer de novo crédito, credibilidade e reputação a Portugal” e que, “enquanto isso, tínhamos José Sócrates a dizer que as dívidas não são para se pagar, são para se gerir”. “É esse o espírito socialista”, frisou.

Numa intervenção que foi sendo traduzida para português, Jean-Claude Juncker comparou Cristóvão Colombo, que identificou erradamente como português, aos socialistas. “Quando ele partia, nunca sabia para onde ia. Quando chegava, nunca sabia onde estava e eram os contribuintes que pagavam a viagem”, disse.

Como propostas para a Europa, Juncker garantiu que “nunca mais” aceita que “não se respeite a dignidade da Europa do Sul” e prometeu “acabar com a divisão idiota entre países do Norte e do Sul”. “Eu sou a favor de políticas orientadas para o crescimento e para o emprego. Sou contra a austeridade cega e sem limites, mas não podemos gastar o dinheiro que não temos”, argumentou.

Jean-Claude Juncker defende ainda “a livre circulação dos trabalhadores”, a “redução da dependência em relação à Rússia” e “a criação de acordo de livre comércio com os Estados Unidos”, no qual “Portugal teria um importante papel para lançar as pontes no Atlântico”.