O Castro de Alvarelhos, único monumento nacional do concelho da Trofa, desempenhou uma relevante função estratégica desde a Idade do Ferro, controlando um importante corredor terrestre, mas hoje não consegue reunir verbas que permitam a sua reabilitação.

Os vestígios mais antigos de ocupação humana deste local datam da Idade do Ferro, altura em que o povoado, situado na Serra de Santa Eufémia, era habitado por pastores e agricultores, mas o período de maior importância decorreu durante a ocupação romana.

Apesar de não se encontrar a uma altitude muito elevada, apenas 218 metros acima do nível do mar, o povoado, que se estende por uma área com cerca de oito hectares, ocupa uma importante posição estratégica na confluência dos limites dos concelhos da Trofa e Vila do Conde.

Por essa razão, Alvarelhos controlava um corredor de circulação terrestre que ligava a foz do rio Douro às bacias hidrográficas do Ave e do Cavado, uma área onde existiam vários povoados de grandes dimensões.

Na época romana passava por ali a via entre Cale (Porto) e Bracara Augusta (Braga), de que ainda existem castro_alvarelhos.jpgalguns marcos miliários, mas a importância mantém-se actualmente, sendo aquela zona atravessada pela EN 14 (Porto/Braga) e A3 (Porto/Valença), mas também pela Linha do Minho, da CP.

"O povoado estava junto à estrada e tinha algum poder económico porque as peças de importação que já foram encontradas são boas", salientou Gilda Correia Pinto, chefe da Divisão de Cultura e Turismo da Câmara da Trofa, acrescentando que foram também encontrados ponderais, "uma espécie de medida padrão que servia para determinar a quantidade de moedas de prata que correspondiam a um pagamento".

Segundo a arqueóloga, "isto indicia que aqui podia ter existido uma zona de trocas, um mercado importante ou uma zona de pagamento de soldados", o que também é apontado pela elevada quantidade de moedas de prata dos séculos I e II encontrada nas escavações.

O Castro de Alvarelhos começou a ser estudado em 1899 e, desde essa altura, sofreu várias intervenções, tendo as últimas escavações decorrido em 1994, numa altura em que ainda se encontrava no território do concelho de Santo Tirso.

Apesar da estrutura do povoado ainda não estar completamente definida, sabe-se que tinha três muralhas defensivas, mas os investigadores admitem que possa ter ainda mais duas.

Na plataforma intermédia, são visíveis as estruturas circulares típicas da ocupação castreja, mas também indícios arquitectónicos da romanização, entre os quais casas e um provável edifício termal.

"Este círculo é uma típica casa castreja, redonda, e este muro foi alargado para fazer a casa romana", mostrou a arqueóloga durante uma visita ao local, salientando as evidências da sobreposição de ocupação humana.

Esta sobreposição surge um pouco por todo o castro, sendo evidente numa "estrutura medieval que está encostada a um muro redondo, nitidamente castrejo, que foi também aproveitado para a construção de uma casa romana".

"Nas casas castrejas e romanas, cada zona corresponde a um compartimento, onde se dormia, comia, guardava os animais ou os cereais, e estava tudo virado para dentro, para um pátio central, em lajeado, onde decorriam as actividades diárias da casa", explicou Gilda Correia Pinto.

A localização do povoado junto de uma importante via romana e o valor dos objectos ali encontrados indiciam a relevância do local, que teve ocupação humana até à Idade Média, como provam as ruínas de uma capela medieval.

"Esta foi a primeira igreja de Alvarelhos", afirmou a arqueóloga, apontando os locais onde seriam a entrada principal, o acesso lateral e a zona do altar.

A poucos metros, é visível uma sepultura da época medieval, altura em que os corpos eram colocados "em local sagrado".

Pelo contrário, no tempo dos romanos, "os mortos ficavam fora do espaço da cidade, pelo que as necrópoles estão sempre fora das muralhas".

Nas ruínas já postas descoberto é também visível o que deveria ter sido o espaço público nobre da localidade na época romana, delimitado por restos de colunas.

"A existência das colunas e de pedras com uma espécie de almofada para o exterior indica que se tratava de um espaço público, uma espécie de fórum", salientou Gilda Correia Pinto.

Um pouco mais afastado desta zona central, encontra-se o que os investigadores admitem que pode ter sido um balneário romano, sendo visíveis as zonas de escoamento das águas.

Para preservar os vestígios do passado, a Câmara da Trofa pretende criar uma zona de visita ao castro com um percurso predefinido, para que os visitantes não estraguem as ruínas e percebam o que estão a ver.

"O castro deve estar em condições de ser visitado dentro de um ano", admitiu Gilda Correia Pinto, lamentando a falta de financiamento para o projecto de consolidação de estruturas e definição de percursos.

"O projecto de investigação foi aprovado sem financiamento. Povoados destes não são prioritários actualmente em termos nacionais", salientou a arqueóloga.

António Pontes, vereador da Câmara da Trofa, resumiu a questão, salientando que a autarquia "tem o acordo do IPPAR para fazer a intervenção, mas não tem o financiamento".

"O castro nunca recebeu dinheiro de fundos comunitários para requalificação. Desta vez, apresentamos um projecto de apenas 350 mil euros, mas nem assim conseguimos aprovação", lamentou o autarca, em declarações à Lusa.

António Pontes frisou, no entanto, que esta falta de apoio não fará recuar a Câmara da Trofa na intenção de tornar o Castro de Alvarelhos "uma referência obrigatória no turismo cultural".

"Queremos criar um parque natural, com uma vertente arqueológica", salientou o vereador, frisando que a reabilitação do castro "é uma aposta estratégica do concelho".