O espanto demonstrado por alguns dos meus conterrâneos, a propósito da batota despesista levada a cabo pelo executivo camarário, que, sabemos hoje, viciou o resultado da votação das 7 Maravilhas da Cultura Popular, causa-me alguma estranheza. Porque a batota e o despesismo, patrocinados pela sufocante factura fiscal que Sérgio Humberto impõe aos trofenses, sem a qual o seu número de ilusionismo financeiro cairia por terra, são uma constante do regime vigente. E são muitos, os exemplos de batota e do despesismo que marcam estes sete anos de governação da CM da Trofa. A eles voltarei em breve.

A história deste estranho caso de viciação de resultados e de má despesa pública é fácil de contar. Com a credibilidade deste executivo a rastejar pelas ruas da amargura, desde a tentativa de imposição de um aterro sanitário aos trofenses, negociado na penumbra e que só não se consumou porque o povo descobriu e protestou a tempo, para não falar nos julgamentos que envolvem Sérgio Humberto e Renato Pinto Ribeiro, ambos arguidos em casos gravíssimos, o primeiro no âmbito da Operação Éter, que investiga crimes de peculato, corrupção e abuso de poder, entre outros, o segundo no âmbito da utilização indevida de fundos camarários no caso do CD Trofense, que remete para o desvio de verbas destinadas às camadas jovens do clube da nossa Terra, que continuam a estudar num contentor sem condições, urgia encontrar uma manobra de diversão que retirasse o foco das alhadas em que presidente e restante entourage se iam envolvendo. E o concurso das 7 Maravilhas da Cultura Popular permitiu a manobra perfeita, caída do céu, que garantiu, ainda que por um curto espaço de tempo, um balão de oxigénio que permitiu ao executivo respirar.

Este executivo – e qualquer pessoa que acompanhe o seu percurso o sabe – é exímio a pôr em prática as melhores tácticas de propaganda, que, habitualmente, vemos ser empregues por regimes autoritários. O recurso recorrente ao discurso populista, o culto do chefe, as encenações para a fotografia, ora com o presidente da mangueira na mão a simular que está a limpar o chão da escola, ora do vereador a simular que está a limpar o rio, as fotos de campanha emocionalmente manipuladoras, com idosos e crianças, ao melhor estilo estalinista, a criação artificial de um inimigo comum (não dele mas da Trofa, porque, como qualquer líder que se julga absoluto, tende a confundir-se com o território que governa), ou, por outras palavras, quem se opõe ao presidente, a quem a narrativa se refere como “aqueles que não gostam da Trofa”, e quem o apoia, que são, claro está, “aqueles que gostam da Trofa”, são alguns dos muitos exemplos que poderiam ser enunciados. A demagogia e o populismo já chegaram ao ponto de, em plena Assembleia Municipal, Sérgio Humberto referir que “daria jeito” se Marcelo Rebelo de Sousa fosse à China “visitar o coronavirus”. Trump não diria melhor.

Estamos, portanto, perante um profissional do populismo, capaz de ombrear com André Ventura. Um populista que precisava, desesperadamente, de mobilizar a população e retirar da ordem do dia o aterro de Covelas e os processos judiciais que o envolvem a si e a outros sob sua alçada. E a eleição dos Santeiros, que trazia consigo a vantagem extra de poder cavalgar a onda da fé e da devoção, num concelho de raízes profundamente católicas, caiu-lhe, literalmente, do céu. Pelo que era preciso apostar todas as fichas. Era preciso inundar as redes do município e dos oficiais do regime com o tema, era preciso promovê-lo até à exaustão , era preciso tirar o incómodo autarca do Coronado do caminho e era imperativo que a vitória não escapasse. E como Sérgio Humberto e restante corte não acreditavam nessa possibilidade, decidiram usar quase 75 mil euros para viciar os resultados, arrastando os Santeiros, gente digna e de enorme talento, para o lamaçal político, manchando o seu bom nome e o bom nome da Trofa, que, uma vez mais, é alvo de chacota e notícia pelos piores motivos em grande parte da imprensa nacional.

Reparem que este é o mesmo Sérgio Humberto, coadjuvado pelo mesmo grupo de pessoas, que, numa recente Assembleia Municipal, consideraram a proposta do Partido Socialista, para apoiar as famílias trofenses durante a pandemia, de despesista, populista e demagógica. Uma proposta em linha com aquelas que, aplicadas noutros concelhos, foram alvo de elogio das Nações Unidas, como é o caso do concelho vizinho de Famalicão, governando pelos exactos mesmos partidos que governam a Trofa. Ou seja, na lógica deste executivo, apoiar famílias trofenses em dificuldades com reduções temporárias de impostos é populismo e demagogia. Gastar 75 mil euros do erário público para viciar o concurso das 7 Maravilhas da Cultura Popular, num momento em que tantos trofenses passam por sérias dificuldades, sem saber como pagar as contas do mês seguinte, é um bom investimento. Nada que surpreenda, para quem já demonstrou não ter qualquer problema em usar recursos públicos para promover a sua imagem ou a sua rede de amigos e companheiros de partido. Apenas a batota e o despesismo do costume.