Na antecâmara das eleições que devolverão Pedro Passos Coelho (PPC) à Tecnoforma ou a qualquer outra “empresa” que precise de um político versado nas artes da opacidade diplomática e da abertura de portas, as duas últimas semanas desta pré-campanha têm sido marcadas por disparos violentos e desnecessários nos pés dos principais candidatos, curiosamente desferidos pelos próprios. Primeiro foi a reacção intempestiva de António Costa (AC) face um artigo de opinião de João Vieira Pereira, um artigo normalíssimo, principalmente vindo da parte de alguém que não esconde as suas afiliações ideológicas. Já a reacção de AC parece revelar uma surpreendente incapacidade para lidar com a crítica que decorre da liberdade de expressão deste cronista. Mas verdadeiramente surpreendente é perceber o grau de impreparação do candidato socialista que não é propriamente um estreante nestas andanças e cuja reacção é ilustrativa dos resultados medíocres que lhe vão sendo atribuídos por sucessivas sondagens. Volta Seguro, estás perdoado!
Em linha com o episódio que envolveu AC, também o vice-primeiro-ministro voltou a ser alvo de uma espécie de bullying por parte do parceiro de coligação. Apresentada a biografia encomendada de/por PPC, ficou o país a saber que Paulo Portas terá informado o primeiro-ministro da sua “demissão” por SMS, algo que, imediatamente após ter criado um tremendo mal-estar no seio da coligação, deu origem a um incêndio que alguns bombeiros da direita tentaram apagar mas que ainda se encontra por circunscrever. Várias foram as figuras do CDS que saíram em defesa do líder para contrariar a versão autorizada de PPC: Portas teria enviado primeiro uma carta registada e só depois a famosa SMS. Perante a incompatibilidade de versões e a ausência de comentários da cúpula do PSD ao desmentido dos centristas, ganha força a teoria de que Portas estará nas mãos de PPC e não o contrário como tantas vezes se argumentou. Se seguisse para eleições sozinho, o destino do CDS poderia muito bem vir a ser o mesmo dos Liberais Democratas no Reino Unido: tornar-se irrelevante. Daí a predisposição do irrevogável para engolir o sapo.
Apesar de evitáveis e desnecessários, ambos os casos prejudicam significativamente as aspirações eleitorais de PS e PSD. Mas Passos Coelho, fiel a uma já longa tradição de tiro no próprio pé, conseguiu ir ainda mais longe e uniu, como poucos conseguem, o disparate à falta de bom senso e ao desrespeito grosseiro pela população portuguesa quando decidiu fazer uma série de elogios a Dias Loureiro, seu antigo conselheiro e um dos arquitectos dessa desastrosa fraude laranja que foi o caso BPN. E a menos que o “bem-sucedido” Dias Loureiro tenha um job para o primeiro-ministro quando findar a aventura em São Bento, torna-se muito difícil de perceber este disparo suicida de PPC na mesma cidade onde afirmou, há 5 meses atrás, que os “políticos não são todos iguais”. Não são. Mas PPC não é diferente daqueles que mentem, tal como o amigo e político Dias Loureiro fez no Parlamento, e que bajulam pares seus envoltos em neblina. Se Dias Loureiro fosse Sócrates, PPC não hesitaria em embarcar no autocarro solidário que há uns meses se deslocou a Évora. P.S. Com tantos e tão bem pagos assessores formados na “universidade” de Castelo de Vide, não terá havido um que tivesse conseguido antecipar a figura ridícula que o primeiro-ministro fez e repetiu? Inúteis.