A votação do passado fim de semana tem um significado político que ultrapassa largamente os números que resultaram da contagem dos votos dos lisboetas.

  Na análise quantitativa são possíveis muitas leituras.

É possível afirmar-se que António Costa teve menos votos do que Manuel Maria Carrilho, em 2005, apesar de este ter sido derrotado por Carmona.

 É possível afirmar-se que apenas uma minoria de lisboetas votou, tendo a maioria doe eleitores ficado alheada desta votação e a abstenção a atingir números impensáveis em votações autárquicas.

São possíveis muitas leituras, mas esta eleição encerra em si um significado político de maior alcance.

Começa pelo simbolismo de se tratar da maior autarquia. Governar a capital tem um impacto e valoração política que ninguém pode ignorar.

Em todas as eleições autárquicas, os partidos políticos dão o seu máximo nalgumas autarquias, sendo Lisboa e Porto as principais apostas partidárias.

Estas eleições tornaram-se num pesadelo para o PSD: de partido vencedor nesta autarquia em 2005, a meio do mandato perdeu-a e com o pior resultado de que há memória, com a agravante de ver o anterior Presidente da Câmara, concorrendo como independente, ter uma votação superior ao PSD.

Esta vitória de António Costa, na eleição intercalar, significará a vitória em 2009 porque, como já sabemos por experiência, a oposição não vence eleições: é o poder que as perde e esta situação de Lisboa veio confirmar esta regra bem portuguesa.

Apesar de a Assembleia Municipal ser maioritariamente da oposição, António Costa é suficientemente traquejado para lidar com a situação, para além de, os partidos da oposição, na Assembleia Municipal, não terem condições políticas para criar dificuldades à Câmara Municipal.

Dentro de pouco tempo, poucos se lembrarão dos números. As pessoas saberão apenas quem é o Presidente da Câmara pouco importando por quantos votos é que ganhou.

Estes resultados provocaram crises gravíssimas no PSD e no CDS.

Paulo Portas nem teve tempo de aquecer o lugar. Entrou vitorioso no CDS e arrumou com Ribeiro e Castro, um político com mais formação, mais qualidade mas com menos capacidades de demagogia e de galvanizar as pessoas.

Empenhou-se pessoalmente na campanha eleitoral de Telmo Correia, onde parecia que nada tinha a perder e onde só teria a ganhar. Pois bem, não teve eleitos, desaparecendo do mapa. Vamos ver como é que reagirá a este primeiro e grande desaire.

É no PSD que esta derrota criará mais mossa.

Os adversários de Marques Mendes já vieram a terreiro defender, directa a indirectamente, a substituição do líder que, sentindo-se acossado por todos os lados decidiu avançar para as directas.

Neste momento vive-se, no PSD, uma verdadeira crise de liderança provocada por este resultado na autarquia da capital.

O principal vencedor desta votação é José Sócrates. Reconquistou a Câmara Municipal da maior autarquia do país e recebeu um novo alento na melhor altura.

A meio do mandato, quando as sondagens dão os primeiros sinais de que o estado de graça já terminou, o PS obteve uma vitória moralizada que lhe trará um novo alento num momento crítico do mandato.

Bem pode José Sócrates aspirar a um novo mandato: o biorritmo é-lhe claramente favorável.

Uma nota final para os independentes: tiveram resultados que dão que pensar. Sobretudo Carmona Rodrigues que tinha saído pela porta traseira, foi o segundo mais votado.

Helena Roseta teve também um resultado surpreendente, ficando à frente de muitos, o que não seria de esperar antes do início da campanha.

 

Afonso Paixão