A última entrevista do escritor José Saramago a um órgão de comunicação social português (no vertente caso, o Diário de Notícias) colocou a nu uma questão que tem sido já, bastas vezes, objecto de conversas entre todos os portugueses, se bem que de modo mais ou menos discreto. Referimo-nos, naturalmente, à possível integração de Portugal em Espanha, enquanto província, ou, como argumentam outros, tal como Saramago, a União dos Estados da nossa Península em algo que se apelidaria de Ibéria.

 Esta é uma realidade tanto mais presente desde há cerca de uma década: desejando maior poder de compra e empregos melhor  remunerados, os portugueses, em largo número, confessam a disponibilidade em trocar independência e autonomia por melhores condições de vida.

Não obstante, será esta a "derradeira solução"? Bem sabemos que a nossa economia foi transversalmente "devorada" pela espanhola; que as nossas empresas, mercê da generalizada falta de competitividade, têm fechado em catadupa, do mesmo passo que os grupos económicos espanhóis vão assentando os seus interesses entre nós; que a nível internacional, a política e diplomacia portuguesas não têm representatividade e o nome "Portugal" é frequentemente confundido com uma província espanhola… Será então o momento de baixarmos os braços e, porque os factos são indesmentíveis, rendermo-nos às evidências?

Pela nossa parte, não nos parece. Muita da vontade dos portugueses em serem "espanhóis" deriva de um descontentamento que se vem acentuando com o tempo, face à classe governativa em particular e a classe política em geral. Em Portugal é sentimento disseminado que os governantes mentem, desfazem promessas com toda a ligeireza e desfaçatez e não defendem os interesses dos governados (no mais das vezes com grandes doses de razão), mas apenas os seus próprios, e que os partidos políticos são autênticas confederações de "lobbies", mais ou menos instalados. Gozam, pois, de um descrédito geral, e isso mesmo poderá ser atestado nas percentagens atingidas pelos níveis de abstenção a cada eleição: a tendência, de há bastante tempo, é de crescimento.

Urge, pois, abrir espaço a esta discussão, elucidar os portugueses do que significa uma integração ibérica, para que estes estejam habilitados a darem a devida resposta. E, mais que tudo, responsabilizarmo-nos todos, enquanto cidadãos, pela forma como somos governados. O actual modelo revela-se vicioso, ineficaz e, nas questões fulcrais, incipiente. Como tal, abra-se o devido espaço à reforma administrativa, começando pela Regionalização. Os portugueses necessitam de uma administração dos seus interesses mais célere e imediata, e não de passarem a visitar a capital, não em Lisboa, mas em Madrid.

Helder Reis