Não sou muito de festas, confesso. Há muitos anos, quando ainda era rapaz, gostava de dar umas voltas a pé pelo S. João de Guidões acompanhando o meu pai que parava amiúde conversando com amigos e conhecidos. Os "santos" da cascata assustavam-me. Pareciam-me enormes e mal encarados, ameaçadores mesmo. Só me ria com o burro e o moleiro e considerava uma verdadeira obra de engenharia a sofisticada azenha miniatura. Na semana que passou realizaram-se mais uma vez as festas de S. João Baptista, em Guidões.

  Não sei se por nostalgia, se são os anos que vão pesando, acabei por correr diversas vezes o recinto das festas e participar em algumas das suas iniciativas. Na generalidade acho que correram bem. Claro que surgem sempre coisas desagradáveis e supérfluas. Normalmente são os políticos que as estragam. Ou melhor, os políticos da má política. Em Guidões, na procissão, em lugar de destaque, lá iam. Claro que concordo que os Srs. Presidentes da Câmara e da Junta, como dignos representantes dos poderes institucionais, uma vez convidados, estejam presentes. Agora já tenho sérias dúvidas em relação a outros membros do dito bloco central. Das duas, uma. Ou a comissão de festas os convidou e aí não terá sido transparente, democrática, cristã, pois deveria ter convidado representantes de todos os partidos. Ou fizeram-se convidar sem serem convidados e "usurparam" os lugares. Seja como for era notório o velho dandismo, aquele exibicionismo antiquado. A política balofa, oca, sem conteúdo. Política de fotografia. Mas, poderiam dizer, não tão má como a politica socrática que concretiza o contrário do que promete. É certo, a primeira é quase inofensiva e a segunda perniciosa. O mal está em que uma outra são as duas faces da mesma moeda. São o oposto das duas jovens mordomas de Guidões, elegantemente vestidas por costureira da terra, que passando por anónima, será com certeza uma das melhores do mundo. São o contrário daqueles deliciosos espectáculos promovidos pela Banda de Música de Moreira da Maia nas festas são-joaninas, que nos presenteou com música lisa, sem borbulhas, como refere António Cartaxo. Foi um regalo ouvir a abertura 1812 de Tchaikovsky, evocativa da derrota da aventura imperial napoleónica, com aquelas simbioses entre acordes da marselhesa e os cânticos patrióticos russos. Um deleite escutar a música metamorfoseada dos Xutos & Pontapés. Uma profunda alegria constatar que mais de 50% da constituição da banda é composta por gente nova. Não fosse Moreira da Maia terra de especial relevância para mim. Para além da banda com mais de 50 anos de existência, é a terra da cooperativa dos pedreiros, cooperativa de consumo que promoveu o associativismo e sobreviveu durante anos, criada antes do 25 de Abril, da qual o meu pai foi um dos dirigentes e da qual recebi um prémio de 100$00, que ainda conservo, por ter passado no exame da 4.ª classe. As duas lindas mordomas e a costureira que as vestiu de forma tão delicada, as bandas de música e as cooperativas são o oposto daquela política fútil, instantânea, artificial. Nas primeiras há naturalidade, espontaneidade, carácter. Nas segundas assentam pilares de formação humana, autênticas pedagogias do civismo, universidades da educação.

Pela primeira vez nas festas de S. João houve marchas populares. Lá desfilaram Vilar, Outeiro, Póvoa e Bicho. Muita gente admirava as vestimentas, os laços, as lantejoulas, o colorido, as coreografias, a música. No entanto, não foram esses detalhes que me enterneceram, mas antes o empenho, o calor, a obra realizada e amostrada, fruto de um trabalho onde todos participaram, sobretudo os jovens. Foi este o meu regozijo. Admirar o resultado de um trabalho colectivo e participativo em que o herói é o todo, a inter-ajuda, a vontade indomável da unidade. É assim que gosto de ver o nosso povo. Unido. E quando assim é, o resultado é sempre positivo, muitas vezes transcendente.

Por fim, paralela à festa, decorreu a exposição de fotografia sobre as memórias de Guidões. Naqueles 4 dias não sei quantas vezes apreciei a exposição. Mas foram muitas, por largo tempo e com muitos comentários. A primeira coisa que ressalta é a antiga beleza rural e natural de Guidões. A terra transformada pela acção suada e sacrificada do povo, bem representada no grupo de fotografias do inicio do século XX da casa Lopes. A foto da inauguração da escola do Cerro em 1926, doada aos guidoenses por verdadeiros beneméritos que foram Joaquim F.F. Lopes e sua mulher D.Rita, que mereciam bem uma homenagem de reconhecimento. As fotografias de 1959, evocativas da missa nova de António F. Santos, homem nascido e feito na nossa terra ordenado padre, também me tocaram sobremaneira. Primeiro, é notório a organização dessa festa reflectir, tal como hoje nas marchas, um espírito colectivo, empreendedor; em segundo, porque na comissão organizadora, entre diversas pessoas por quem nutri estima, amizade e consideração encontrei o Sr. Agostinho Ferreira Lopes, felizmente ainda entre nós, e encontrei o meu pai; por fim, reparei na fotografia com o grande pano a atravessar a rua junto à antiga "venda do Silveira". Dizia : « Eu fiz o Céu e a Terra; mas a ti ó Padre / Dou-te o poder de mudar a Terra num Céu Resplandecente.» Frase de Evangelização, de Cristianismo puro. Façamos o Céu na Terra. Tenho muito orgulho no facto de meu pai fazer parte dessa comissão e de não ser alheio a esta frase que, datada de 1959, é bastante arrojada, simbólica e revolucionária. Também me agitaram as fotografias do teatro, sensivelmente da mesma altura, finais dos anos 50, grande trabalho colectivo de cultura e recreio com a representação do "auto da barca do inferno" de mestre Gil Vicente, onde igualmente o trabalho e empenho de meu pai se mostraram relevantes. As fotos de uma outra peça onde aparecem o meu saudoso Domingos Costa, o amigo António Mindela e o meu grande amigo e camarada Arnaldo Manelo. As fotos do reforço da linha eléctrica realizado pela comissão de moradores de Vilar são testemunho de que, mesmo sem dinheiro, nada é impossível perante a força inquebrantável, organizada e unida do povo. A fotografia da sessão de esclarecimento após o 25 de Abril. Tão doce. Sala cheia, a abarrotar. Povo interessado. A ânsia da mudança. A liberdade. A igualdade. A esperança… e o querer…e o sonho…que prossegue hoje pois, como consta do legado de Sidónio Muralha, «…não há mordaças, nem ameaças, nem algemas / que possam perturbar a nossa caminhada / onde cada poema é uma bandeira desfraldada / e os poetas são os próprios versos dos poemas.» Venha a Guidões ver quem duvidar destas linhas, que a exposição está aberta todos os domingos, até 27 de Julho, junto à Igreja. Assim foram este ano as festas são-joaninas em Guidões.

 

Atanagildo Lobo