Que impere o bom senso

Quem, como eu, não tenha formação sobre a matéria, arrisca a cometer umas quantas imprecisões. Contudo, apesar dessa falta de formação, há uma questão importante, que é o senso comum e o bom senso que são aplicáveis em qualquer assunto que nos diga respeito.

   Nas últimas décadas, têm imperado um conjunto de conceitos de urbanismo que nos levaram, na minha muito modesta opinião, a uma situação, que é a de hoje, muito prejudicial a todos os níveis.

Há, em Portugal, segundo dados fornecidos através da comunicação social, meio milhão de casas desabitadas. O suficiente para albergar cerca de dois milhões de pessoas.

Se tivermos em conta que a nossa população não tem aumentado, ou tem aumentado pouquíssimo, e se tivermos também em conta que as cidades têm crescido em área, depressa concluiremos que o que tem acontecido é a destruição de terrenos nas periferias das cidades.

Hoje, temos o interior deserto de pessoas, que migraram para o litoral, e temos os centros das maiores cidades sem moradores.

Lisboa e Porto, por exemplo, têm perdido centenas de milhar de habitantes, enquanto os municípios vizinhos estão cada vez mais saturados, havendo um trânsito infernal todos os dias entre as grandes cidades e as periferias.

Existem, nestes dois exemplos, cidades fantasma, no interior das cidades, com prédios em ruínas e que servem de albergue a marginais e pessoas sem abrigo.

Enquanto isso, todos os municípios procuram alargar os seus perímetros urbanos porque todos querem ser grandes. Se não forem grandes na realidade, procuram sê-lo na aparência.

Alguém, ligado ao urbanismo, afirmou que os Planos Directores Municipais, a nível nacional permitiriam que a população triplicasse.

Como a população não cresce, a nível nacional, isto significa que continuaremos a destruir terrenos e a desertificar os centros das cidades.

Hoje fala-se, gratuitamente, na minha opinião, a propósito de tudo e de nada, em amplos espaços, defendendo o alargamento das periferias, significando isso que os centros das cidades ficarão cada vez mais desertos e degradados. Só que os amplos espaços deixam de ser amplos à medida que vão sendo ocupados.

Isto é qualidade de vida? È agradável percorrer certas ruas do Porto ou de Lisboa? São ruas que, em tempos não muito distantes, tinham vida e pessoas a viver e trabalhar.

Alguns países europeus têm já empresas do ramo da construção civil especializadas na recuperação de edifícios enquanto em Portugal pouco se vê. Vê-se mais a construir nos terrenos livres, deixando, na maioria dos casos, os edifícios velhos que vão ficando assim mesmo: velhos e a cair.

Não está aqui implícita qualquer crítica a quem quer que seja, em particular, porque se trata dum problema que tem várias facetas e as questões económicas de cada um não podem ser vistas isoladamente, nomeadamente dos pequenos proprietários, que não têm dinheiro para recuperar os edifícios. É um problema mais vasto para o qual não existem soluções simples, creio.

Mas os poderes públicos, no âmbito das suas atribuições, devem fazer um esforço acrescido para evitar a degradação e desertificação dos centros urbanos e a destruição evitável de terrenos.

Estas situações também são aplicáveis à Trofa.

Sem termos ainda um problema sério de desertificação, devemos evitar as teorias de fuga permanente para as periferias deixando o centro abandonado e sem moradores nem equipamentos.

O Catulo, por exemplo, não tem um problema de saturação. Tem um problema de trânsito que não se resolve com o abandono. Resolve-se com a construção das variantes que, esperemos, esteja para breve.

Solucionado que esteja a questão de excesso de trânsito de passagem, o Catulo pode ser uma zona perfeitamente desafogada e agradável, se não for abandonado.

E deve lá ter próximo os Paços do Concelho que evitarão que as ruas envolventes se transformem em ruas degradadas e sem gente. Deve ser escolhida uma boa implantação e essa é uma questão que está em aberto.

Estamos a tempo de evitar os problemas das grandes cidades portuguesas.

 

Afonso Paixão