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Devido a um conjunto de fatores socioeconómicos desencadeados no início do século XX as Azenhas do rio Ave foram progressivamente desativadas e em alguns casos abandonadas. Atualmente o estado de conservação das Azenhas do Ave é preocupante. No concelho da Trofa existem na margem esquerda do rio Ave um total de 9 Azenhas. Nenhum exemplar exerce a sua atividade original! Neste grupo de 9 Azenhas constatamos que: a Azenha da Esprela desapareceu; a Azenha da Barca, a Azenha de Sam, a Azenha do Cerro e a Azenha do Arnado encontram-se em ruínas; a Azenha de Real e a Azenha do Bicho encontram-se descaracterizadas por intervenções construtivas que não preservaram os valores patrimoniais do edifício; a Azenha dos Frades ou da Maganha encontra-se desativada; e por último, a Azenha de Bairros ou da Portela subsiste apta a funcionar, de acordo com as técnicas tradicionais de moagem, graças ao esforço do seu proprietário. Até ao momento não se vislumbra nenhuma ação prática de salvaguarda, preservação e valorização deste património que se degrada com o passar do tempo correndo o risco de desaparecer definitivamente.

Perante este preocupante cenário e no intuito de encontrar caminhos para a preservação das Azenhas do Ave encontra-se em curso uma investigação no âmbito de um doutoramento que envolve uma pesquisa de ações práticas de salvaguarda, preservação e valorização do património concretizadas dentro e fora do País. A título de exemplo destacámos apenas três casos de intervenções de reabilitação que se revelaram referências culturais e sociais para a comunidade local e representam um ponto de atração turística para a região onde se inserem. Em Portugal, no Município de Leiria na margem esquerda do rio Lis, foi reabilitado o Moinho do Papel, para criar um novo espaço museológico que permite demonstrar na prática às crianças os processos artesanais de produção de farinha e pão, bem como, o fabrico ancestral de papel.

Em Espanha, no Município de Zamora, na margem direita do rio Douro foram reabilitadas as Azenhas de Olivares, para criar um Centro de Interpretação das Indústrias Tradicionais da Água. Atualmente a Fundação do Património Histórico de Castilla e León disponibiliza ao público uma exposição que explica “(…) a importância da água como força motriz da antiguidade e o papel cultural, social e económico do rio antes da industrialização, bem como, os distintos detalhes sobre o funcionamento destes engenhos hidráulicos.” Hoje as Azenhas de Olivares são conhecidas como um dos pontos de atração turística mais importantes da cidade de Zamora, cujo mérito foi premiado com o prestigiado galardão Europanostra. Por último, no centro da Holanda, no Município de Bronkhorst, mais propriamente em Vorden, na margem direita do canal Baakse, foi restaurada a Azenha de Hackfort em 1998. Esta encontra-se classificada como Monumento do Estado Holandês desde 1961. Atualmente a Azenha de Hackfort representa uma fonte de atração cultural, educacional e turística fundamental para o meio rural onde se insere. Disponibiliza visitas à população, às escolas e ao turismo. A associação de Moinhos Holandeses (De Hollandsche Molen) transmitiu-nos que a Azenha de Hackfort desempenha um papel educacional fundamental pois é “(…) um museu vivo que conta uma história interativa aos grupos de crianças que as visitam.” Além deste fator de reforço cultural, histórico e identitário a Azenha de Hackfort promoveu a criação de um restaurante e uma cafetaria que recebem os turistas e promovem a gastronomia com produtos da região. Após transmitir o reconhecimento patrimonial manifestado pela comunidade local, pelas instituições e pelo meio científico aliado à demonstração prática de ações exemplares de preservação, salvaguarda e valorização devemos concluir que o Património constituído pelas Azenhas do Ave é um recurso cultural, social e económico herdado de geração em geração que temos o dever de respeitar o seu secular percurso, aproveitar as suas potencialidades em prol da comunidade hoje e transmitir os seus valores às gerações futuras. Reuniremos esforços para preservar uma marca preciosa da nossa história – as Azenhas do Ave.

R. Bruno Matos,
Arquiteto Mestre em Metodologias de Intervenção no Património Arquitetónico – FAUP, Investigador integrado no CEAU da FAUP
Doutorando no Perfil Património Arquitectónico na FAUP