A ARJ Muro completa 32 anos no meio de recordações e esperança para o futuro. A associação, que começou por ser uma referência no atletismo, conta já com uma Medalha de Prata de Mérito Desportivo e uma Medalha de Ouro de Mérito Cultural. Antigos e actuais elementos da direcção relembraram 32 anos de histórias.

O começo da história parece ter sempre o mesmo autor. O rotineiro “Era uma vez” não podia combinar melhor para dar o mote ao grupo de amigos que, em típica conversa de café, decidiu criar uma associação para jogar futebol. Mas a trama só se torna inesquecível com os protagonistas. E a Associação Recreativa Juventude do Muro tem uma história assim. Um começo habitual, mas um desenlace que mereceu ser recordado em tempos de comemoração do 32º aniversário da colectividade.

O baú das recordações foi aberto numa tertúlia que juntou antigos e actuais dirigentes da associação, numa iniciativa integrada no programa de comemorações da data. O dia oficial é 8 de Maio de 1978, mas antes muitas histórias há para contar.

Foram muitas as conversas de café, nas quais alguns rapazes da freguesia do Muro lamentavam a carência de colectividades do concelho que dessem dignidade à prática de desporto. A coragem e a determinação foram preponderantes para que em 1976 a equipa, ainda chamada Associação Recreativa do Muro, participasse no Torneio do CD Trofense.

Na altura o equipamento dividia-se entre o preto dos calções e o amarelo das camisolas. Maximino Campos era considerado “o presidente”, mas desdobra-se em cargos: “era o delegado ao jogo, o massagista e o que fosse preciso”. Max lembra que a equipa “só não ganhou porque num jogo importante faltou-nos o José Almeida que casava no mesmo dia”. Américo Silva complementa: “Até aí tínhamos ganho quatro jogos seguidos. Se o José Almeida não faltasse, não sei, não”.

A 15 de Março de 1978, os seis sócios fundadores da associação conseguiram fazer história na freguesia, ao assinar a escritura da colectividade no concelho de Santo Tirso. E não foi no futebol que os mentores do projecto quiseram fazer as honras de estreia. O sócio Eduardo Magalhães, homem do atletismo, conseguiu fazer na Trofa o 1º Grande Prémio. Na tertúlia, o murense lembrou que “numa manhã de domingo chegaram a correr mais de mil atletas em provas federadas”.

A associação já estava no papel, mas precisava de suporte físico. A sede foi conseguida com esforço, mas tornou-se realidade depois de os sócios conseguirem o apoio da Câmara Municipal. O bar, que começou por dar um prejuízo “de 120 contos”, rapidamente começou a ser um local de convívio. No entanto, os murenses preferiam “ir jogar à sueca” e não consumir, como o caso de Carlos Martins, actual presidente da Assembleia da colectividade: “Na altura era jovem e não tinha muito dinheiro, então não consumia nada no bar, só consumia as pessoas”.

Para “tramar” os forretas, Eduardo Magalhães enchia uma garrafa com água da torneira e vendia o produto. Só o fez uma vez, confessa.

Depois de ficar celebrizado pelo atletismo, a associação ganhou expressão na cultura, com a entrada de Fátima Silva, actual presidente da colectividade, em 1983. Faziam-se peças de teatro, organizavam-se noites de fado e acolhiam-se sessões de cinemateca. “Aqui passou o filme ‘O Grande Ditador’, de Charles Chaplin”, recorda José Maria Moreira da Silva.

Daqui até 1990, pouco mais há a contar. A sede sofreu obras de reestruturação e as actividades foram suspensas. Na última década do século vinte, a associação renasceu e, mais uma vez, chegou com uma grande prova de atletismo.

Manuel Pinto recorda desse tempo “o mini-pavilhão ao lado do cemitério e a exposição de pássaros”. Mas a actividade que envaideceu a colectividade foi “o torneio de futsal com 24 equipas”, que trouxe a estrela do Futebol Clube do Porto da altura, Bandeirinha.

O ano de 1999 ficou marcado pela exposição em honra de Amália Rodrigues e pela estreia dos jogos concelhios da Trofa, que foram apadrinhados pela freguesia através da ARJ Muro.

Mas aí, já Fátima Silva tomava conta dos destinos da associação. A presidente, há 13 anos no cargo, mereceu os elogios de antigos e actuais elementos da direcção.

Agora, a colectividade conta com “malta nova” que “a vai segurando”. Na lista constam os nomes de Artur, João “Roque” e Romeu Correia. Ao último há quem chame “penetra”, por ter assistido às reuniões da associação ainda sem completar os 18 anos, e o “Mourinho da Carriça”, por fazer da equipa de futsal amador de iniciados campeã do escalão, que conseguiu o melhor ataque, a melhor defesa, a Taça disciplina, a Taça concelhia e a Supertaça.

Em 2006 e 2007 a ARJ Muro foi homenageada pela autarquia da Trofa com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural e a Medalha de Prata de Mérito Desportivo. Actualmente, a associação conta com duas equipas de futsal federado, a de seniores milita na 1ª Divisão da Associação de Futebol do Porto. Este é um dos motivos de orgulho para Fátima Silva que, porém, não esconde as dificuldades que se avizinham. A altura “é de viragem” e a presidente não descarta a tomada de medidas drásticas, devido à falta de recursos. Para poder continuar a levar longe o nome do Muro e da Trofa, a presidente espera que a autarquia assegure apenas “o apoio logístico”.

Habituada a enfrentar as dificuldades de manter viva a associação, Fátima Silva lamenta o facto de “as pessoas não aderirem às iniciativas” e sublinha que, pelo menos a ARJ Muro, “é uma sobrevivente há 32 anos”.