Dizem que “filho de peixe sabe nadar” e a verdade é que esta máxima dá à herança genética uma grande responsabilidade a quem é atleta. Numa fugaz procura vem-nos logo à memória a campeã Vanessa Fernandes, filha do credenciado atleta Venceslau Fernandes, ou então de Miguel Veloso, filho de um dos ícones benfiquistas Veloso. O mesmo se aplica a Daniel Silva, natural da Trofa, mas residente em Fornelo, que se tornou ciclista por influência do progenitor.

A paixão pela modalidade, diz, nasceu dentro de si e aos poucos foi-se manifestando com maior nitidez. No entanto, não conseguia praticar a modalidade na terra natal e só depois de se mudar de malas e bagagens para Fornelo é que entrou para uma equipa, onde iniciou a actividade ciclista, por influência de um amigo. Tinha 14 anos.

Correu pela antiga ASC Guilhabreu – agora União Ciclista de Vila do Conde – e durante nove anos não conheceu outra equipa, tendo inclusive um treinador da Trofa, José Ribeiro, que o acompanhou e o formou como ciclista.

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“Foi aquela equipa que me formou e é onde estão pessoas a quem eu devo muito e a quem nutro um carinho muito especial”, disse em entrevista exclusiva ao NT/TrofaTv.

Chegou a profissional pelas mãos do Vitória de Guimarães, seguindo para o Sport Lisboa e Benfica, onde esteve um ano antes deste ter cessado a actividade na modalidade.

Hoje é uma das mais agradáveis revelações da modalidade a nível nacional, depois de agarrar, apenas com o amor pelo ciclismo, o desafio do Centro de Ciclismo de Loulé.

 

Um “calhau” que virou ciclista

Mesmo sem qualquer remuneração, Daniel Silva não pensou duas vezes em participar na Volta a Portugal, oportunidade para se afirmar e poder abrir muitas portas na carreira.

Para encarar essas “circunstâncias especiais” no CC Loulé, Daniel Silva contou com a “grande ajuda” de João Cabreira. Tanto que, em forma de “agradecimento”, o ciclista trofense deu-lhe um enorme “empurrão” para a vitória na etapa que terminou na Senhora da Graça.

“Quando ele acabou a corrida chegou à minha beira em lágrimas e deu-me um abraço, porque ele sente a ajuda”.

Daniel Silva, a quem João Cabreira se gaba de dizer que “fez de um calhau um ciclista” mereceu largos elogios de todos os que acompanhavam a corrida. Os comentários nos sites dedicados ao ciclismo multiplicavam-se e o trabalho do trofense estava a dar nas vistas.

Passar por casa e pela Trofa em plena corrida “teve um sabor especial”, apesar de não ter conseguido ver todos os amigos que o apoiavam na rua. “Foi uma passagem muito rápida, ouvi a gritar pelo meu nome, mas não os pude cumprimentar”, revela.

A Volta a Portugal acabou por ser o salto na carreira, muito pela exposição mediática que mais nenhuma prova no país tem merecido até agora.

E a força dos media é tanta que foi com alguma admiração que Daniel Silva recebeu alguns apoiantes que se dirigiram à Serra da Estrela exclusivamente, porque “tinham tomado conhecimento através d’O Notícias da Trofa” que Daniel Silva estava a correr na Volta.

Paixão pela modalidade arrasa com a monotonia

E muito do sofrimento a que estes atletas estão sujeitos nas provas é sustido através “do reconhecimento das pessoas, do apoio que dão nas estradas”. É também para isso que durante quase um ano, os ciclistas fazem treinos diários, muitas vezes de segunda a domingo, aguentando temperaturas difíceis. Uma vida “algo monótona”, reconhece o ciclista, na qual não é possível conciliar outra coisa com o ciclismo. “Eu andava na Faculdade de Desporto e não conseguia conciliar as duas coisas, se tentasse fazer as duas coisas nem era bom numa nem noutra. Acabei por congelar a matrícula e dedicar-me só ao ciclismo”, afirma.

Aspecto tão ou mais importante que um treino é o descanso, pelo que “depois do treino a vida faz-se a descansar e a dormir”.

Para além disso há o extremo cuidado com a alimentação que tem que conseguir fazer de um corpo magro, um corpo muito resistente. Na Volta a Portugal, Daniel Silva, com 1,82 metros, contava com 58 quilos. “Qualquer desvio acaba por ter um grande impacto no desempenho do ciclista. Os ciclistas não podem comer batatas fritas, por exemplo”.

Vencer a Volta é “sonho”

Mas não são as inúmeras limitações que desnorteiam o pensamento de Daniel. O sonho comanda a vida e o do ciclista é um dia estar no lugar mais alto do pódio da Volta a Portugal. “É um sonho de qualquer ciclista. Treino todos os dias e espero um dia claro se correr bem vencer a Volta, mas é muito difícil”, afirma.

No mundo do ciclismo admira Lance Armstrong, “referência de todos” pela vida de sofrimento que teve com um cancro e pela força de vontade que demonstrou depois disso, com a conquista de sete edições da Volta a França, prova que também gostaria de participar.

Depois do “brilharete” na Volta a Portugal, Daniel Silva carimbou mais um passo importante na carreira, ao vencer o Prémio Liberty.

Este ano, Daniel Silva contou com o apoio incondicional dos pais, aos quais agradeceu pelo sustento: “Foi graças a eles que consegui fazer esta época, foram eles que me apoiaram sempre e para todos os colegas da minha equipa, que também me ajudaram e estiveram sempre do meu lado, um forte abraço”, agradeceu.

O futuro ainda é uma incógnita, mas pode tornar-se numa agradável surpresa para este ciclista que sonha poder continuar a profissional na modalidade.