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Entrar numa Igreja vestida de branco e casar por amor sempre foi o seu sonho, mas a certa altura da vida o dinheiro falou mais alto. Maria, nome fictício, é uma jovem da Trofa que, à semelhança de muitas mulheres do país, decidiu contrair matrimónio por conveniência. Desesperada com o peso de carregar uma dívida contraída pelo ex-namorado, não pensou duas vezes quando surgiu a proposta aliciante de receber dois mil euros no dia do casamento e 800 euros mensais durante três anos.

A história é contada na primeira pessoa, numa entrevista exclusiva ao NT. Maria, nome fictício, de uma jovem que preferiu manter o anonimato, revela como foi a experiência de casar ilegalmente, fugir para o estrangeiro e regressar sem ter um sítio onde ficar.

Tudo começou em Agosto de 2007, quando o namorado com quem mantinha uma relação de um ano simplesmente decidiu abandoná-la e deixar nas suas mãos uma dívida no valor de 750 euros. “Entrei em parafuso, fiquei muito magoada e desesperada”, contou. Maria tinha conhecido Pedro, nome fictício, um homem natural do Nepal, um mês antes, no casamento do seu primo, onde ficou a saber de muitos casos de pessoas que tinham contraído matrimónio por uma questão de conveniência para ambas as partes. Revoltada com o que lhe sucedera, Maria aceitou a proposta de Pedro que, querendo legalizar-se em Portugal, aliciou a jovem a consumar o matrimónio despido de qualquer sentimento. “Ia receber dois mil euros no dia do casamento e 800 euros todos os meses. Ele pagava-me a renda, a roupa, o tabaco e aquele dinheiro era todo para mim, durante três anos tinha que fazer isso”, explicou. “Era um bom negócio, muitas raparigas casam-se por causa disso e que eu conheça foram pelo menos cinco pessoas que fizeram o mesmo”, acrescentou.

As condições pareciam demasiado fáceis e Maria não olhou para trás. Tratou dos papéis e casou-se no dia 13 de Setembro de 2007. Tinha apenas 18 anos. “Como eu queria pagar a dívida aceitei logo o casamento, casei sem os meus pais saberem”. O “contrato” com Pedro implicava ir viver e trabalhar na Alemanha, algo que só estava previsto acontecer em Janeiro. Mas Maria não suportava mais mentir aos pais e um dia contou tudo à mãe que “quase ia morrer” quando teve conhecimento do acto que a filha tinha cometido.

Mas Maria não quis esperar por Janeiro. “Peguei nas minhas malas e fui para a Alemanha, desisti do meu curso de cabeleireira que faltava um mês e meio par acabar”, recordou. Dos dois mil euros prometidos, Maria apenas recebeu 1500 e, dois dias depois de chegarem à Alemanha, Pedro foi surpreendido pela polícia. “Ele foi preso à porta de casa, pediram-nos o passaporte, a mim não me fizeram nada porque eu era portuguesa e a ele meteram-lhe umas algemas e levaram-no para dentro do carro”, adiantou. Maria soube, por intermédio de um polícia brasileiro, que Pedro tinha sido detido “por documentos falsos”. “Só que depois disseram-me que ele não tinha vistos no passaporte, ainda cheguei a ir visitá-lo à esquadra e ele só me dizia ‘Por favor não vás para Portugal'”, contou. A jovem da Trofa nunca mais teve notícias do homem com quem casou e garante que se soubesse do seu paradeiro “a única coisa pela qual iria ter com ele era para ir buscar o dinheiro”.

Da relação efémera, Maria apenas recorda um homem normal por quem nunca nutriu qualquer sentimento afectivo, mas de quem não tem razão de queixa. “Ele era super querido comigo, via uma roupa numa loja e ele dizia para eu comprar, foi com ele que eu vi pela primeira vez vi notas de 500 euros ao vivo”. Maria sabe o que é jantar em restaurantes “chiques” todos os dias e conviver diariamente com um aglomerado de notas, mas hoje quando olha para trás apenas sente revolta e arrependimento. “Estou muito arrependida, o meu sonho era casar vestida de branco numa Igreja, mas o dinheiro falou mais alto naquela altura”, admite.

Não tinha sítio onde ficar”

Depois de virar costas ao casamento e de regressar a Portugal, Maria enfrentou a pior fase da sua vida. Ciente da rejeição dos pais que já não lhe falavam, a jovem com apenas 18 anos entrou num verdadeiro beco sem saída. “Não tinha sítio onde ficar, tinha 250 euros na conta e foi com esse dinheiro que andei a pagar pensões”, revelou. Maria ainda chegou a encontrar trabalho no Porto como empregada de balcão numa casa de diversão nocturna. “Ganhei muito dinheiro, trabalhei lá desde Outubro até Fevereiro, mas depois fartei-me, ia para a discoteca todos os dias, dormia durante o dia, só queria estar acordada à noite e cheguei a um ponto em que disse ‘isto chega'”, lembrou.

A jovem abandonou o emprego no Porto e regressou à Trofa, onde pediu ajuda à Segurança Social. “Expliquei a minha situação, meteram-me num quarto na Trofa e a minha vida começou do zero, arranjei outro trabalho num restaurante onde conheci o João, nome fictício, e por quem me apaixonei”, confessou.

Para Maria o novo homem que conheceu numa fase particularmente difícil da sua vida foi “um anjo que caiu do céu” e que veio dar uma lufada de ar fresco ao seu futuro. Hoje Maria é feliz ao lado daquele que ama e o único problema com que ainda se debate é a anulação do casamento. “Agora estou a tratar da anulação do casamento com o meu advogado, quero ver-me livre disto o mais rápido possível, estou muito arrependida, não sabia o que estava a fazer e bati com a cabeça na parede”, reconhece. Maria sabe que a anulação do casamento é difícil e que não está livre de enfrentar uma pena de prisão de quatro anos e uma multa avultada. “O meu primo vai ser testemunha, não vou poder dizer que me casei por causa do dinheiro, tenho que dizer que fui enganada”, explicou.

Com agora 20 anos, Maria quer apagar este episódio da vida e apostar na formação para um futuro mais promissor. Anular o casamento, pagar a dívida, terminar o curso e eventualmente concluir o 12º ano são os projectos da jovem da Trofa, que aproveitou esta reportagem para alertar todas as pessoas que se encontram prestes a seguir o mesmo passo. “Pensem duas vezes, o dinheiro não é tudo, podem entrar num buraco sem saída, podem ser presas ou passar necessidades”.