A empresa "Boa Regulagora", em Famalicão, foi adquirida por dois dos seus antigos trabalhadores, que decidiram voltar a fabricar e a dar assistência técnica aos milhares de relógios espalhados por colecções particulares, um pouco por todo o mundo, disse à Lusa um dos novos proprietários.

 

José Cunha e José Varela acordaram com o antigos proprietários a "cedência definitiva das marcas" numa altura em que da antiga fábrica de relógios restam apenas dois dos milhares de trabalhadores que a empresa já teve e escassos metros quadrados das imponentes instalações que serviam para albergar máquinas e ferramentas.

Ao longo dos últimos anos, o património da "Reguladora" foi sendo vendido a grupos internacionais e nas instalações da antiga fábrica são agora produzidos contadores eléctricos e de água.

Com as ferramentas necessárias para voltar a fazer os "relógios de Coluna, de Mesa e de Parede", que  sempre caracterizaram a marca e conhecedores dos segredos da arte de relojoaria, José Cunha e José Varela negociaram com Miguel Dias Costa, o representante da família detentora da "Reguladora", a aquisição das patentes.

Foi assim criada a "Regularfama", a nova empresa onde a média de idades dos funcionários ronda os sessenta anos.

Com Cunha e Varela estão já mais seis antigos funcionários que, no inicio de Junho, se vão mudar para os antigos escritórios da empresa, transformados em oficinas.

"Vamos voltar a fabricar relógios únicos, todos manuais e com a qualidade que sempre os caracterizou", referiu José Cunha.

Com o preço médio de cada relógio a rondar os seiscentos euros, estes "artesãos" estão já a ser contactos por proprietários e coleccionadores que pretendem fazer a manutenção do equipamento.

As especificidades dos relógios são tantas que os novos proprietários da empresa, estão a pedir a colaboração de antigos funcionários – muitos deles já reformados – que continuam a ser os únicos a saber desempenhar tarefas tão peculiares como "afinar as máquinas" e "sintonizar as Aves-Maria" com que são assinaladas todas as horas.

As caixas de madeira e todos os acabamentos continuarão a ser feitos em Famalicão e apenas o "interior" dos relógios passará a ser importado da Alemanha, dado que "não temos capacidade para fabricar as máquinas", salientou Cunha.

Fundada em 1895, "A Boa Reguladora" foi a primeira fábrica de relógios da Península Ibérica, dela tendo saído todos os relógios para as estações e apeadeiros dos caminhos-de-ferro portugueses, muitos deles ainda a funcionar.

A importância e a raridade dos primeiros relógios a ser fabricados é de tal ordem que, em leilões, as peças manufacturadas atingem preços quase proibitivos, recordou José Cunha.

Na lista de encomendas para o fabrico de novas peças estão, sobretudo, clientes do Brasil e dos Estados Unidos.

"As encomendas que chegam dos Estados Unidos são quase todas de açorianos que querem ter em casa o que de melhor se faz em Portugal", disse José Cunha.