Os andores da festa de Nossa Senhora das Dores, apesar de não serem os únicos no país, são, em quantidade os mais representativos. Este ano serão dez os enfeitados para manter a tradição, que é quase secular, mas que continua a atrair milhares de forasteiros à Trofa.

  Têm cerca de 13 metros de altura, dividem-se em base, oratório e coroa e todos atraem milhares de forasteiros à Trofa todos os anos. Os andores de Nossa Senhora das Dores são o ex-libris da festa que se realiza todos os anos e transportam a memória de outros tempos para o presente.

Numa tradição quase secular, muitos gostam de ver, apreciar e comentar os enfeites de cada andor, mas nem todos estão dispostos a dispender várias horas, dias a fio, para fazer com que estejam prontos no terceiro domingo de Agosto. Aliás, são cada vez menos, aqueles que se "atrevem" a manejar com quilos de alfinetes e metros de cetim. Mário Silva, responsável pelo andor de Nossa Senhora das Dores há 30 anos, da comissão da Aldeia de Paradela, é  um dos "sobreviventes", que não pretende ver esta tradição desaparecer com "os novos tempos", apesar de estar "cansado" da "falta de compreensão" das pessoas. "Gosto muito disto, mas este é o último ano para mim. Dá muito trabalho e também fico descontente com a atitude das pessoas que, ao invés de apoiar ou apenas dizerem que não estão dispostas a colaborar, apenas se limitam a espreitar pelo visor da porta e nem sequer aparecem", afirmou entristecido.

Difícil também se torna a tarefa para solicitar a pessoas que estejam disponíveis para transportar os andores no dia da procissão. "São cada vez menos os que querem transportá-los. Este ano tivemos que falar com indivíduos de nacionalidade ucraniana para serem eles a pegarem nos andores", referiu.

Ao todo são gastos cerca de 3000 mil euros, que comportam os gastos da feitura dos andores, que estão compreendidos entre os 1150 e os 2000 euros, e uma contribuição para os homens que pegam nos andores na procissão.

Este ano a procissão contará com dez andores. Para facilitar o seu transporte e evitar constrangimentos, os andores vão ser transportados por carrinhos com rodas, pois carregar aos ombros mais de 400 kilos de fita de cetim e alfinetes não é tarefa fácil. E como a tradição já não é o que era, a coroa do andor da Senhora das Dores é, pela primeira vez construída em fibra e metal, substituindo assim a madeira, tornando o andor "mais leve e mais seguro", assegurou Mário Silva.

Responsável pela decoração dos andores há 3 décadas, José Silva, afirmou que o trabalho desenvolvido pela Funerária Trofense, é todo o manual e conta com materiais novos e outros que já existem há anos. "Em cada ano gastamos cerca de 6 quilos que alfinetes só para o andor de Nossa Senhora das Dores. Temos tecido de várias cores, fitas e outras coisas antigas que já foram feitas há várias décadas, umas que têm à volta de quarenta anos".

Os padrões utilizados são sempre os mesmos, a cada ano que passa, pode-se mudar o local de um ou outro tecido, mas o importante é que tudo "fique a combinar". O andor de Finzes utiliza o amarelo, azul e branco e o da Esprela é ornamentado com tecidos de cor azul, branco e cor de rosa.

No dia da procissão José Silva "levanta-se cedo para organizar o material. Tiramos tudo para fora, em peças e depois deitados encaixamos tudo em cada andor para depois levantá-los". Finda a procissão "o cetim de cor é lavado e passado a ferro para guardar, enquanto que o cetim branco tem de se deitar fora, porque já está picado e não serve para o ano seguinte".

No passado a competição era um estímulo. "Cada um queria que o seu andor fosse o maior e o mais bonito", face ao bairrismo e amor, que as pessoas demonstravam pela sua aldeia. "Até os armadores acabavam por entrar na disputa", referiu. Actualmente a competição já não existe, mas os armadores que se responsabilizam por manter esta tradição viva executam o seu trabalho com a mesma postura com que o faziam há 30 anos atrás, "com a mesma devoção, porque o amor à terra e à festa prevalece".

José Silva, apesar de defender a continuidade desta tradição, também prevê um desfecho para a procissão com os andores "enquanto houver gente antiga não acaba porque isto é uma tradição preciosa da festa da Senhora das Dores. Mas temo que mais ano menos ano isto acabe por desaparecer, e se isso acontecer, as Festas de Nossa Senhora das Dores nunca mais terá o mesmo brilho"conclui.