João Silva, de 32 anos, está nestas andanças há 20 e o tio José Silva, de 51, há mais de 30. Ambos começaram por influência de João Silva (pai), armador de profissão há quase quatro décadas, gerente da Funerária Trofense. João Silva, o filho e o irmão são responsáveis pela armação e decoração do andor de Nossa Senhora das Dores, que vai participar na procissão em honra da padroeira, no próximo dia 21 de agosto, pelas 17 horas.
“Antigamente, não eram tão recheados, não havia brilhantes, eram outras matérias”, recordou José Silva. Depois, “foram evoluindo e crescendo”, acrescentou. Agora, quem olha para eles vê mais do que um simples andor, vê a arte que sai das mãos de quem prescinde de máquinas e usa apenas um martelo como auxiliar. “O ano passado fizemos três andores: Paranho, Valdeirigo e Esprela. Este ano, reunimos na empresa e decidimos que só íamos fazer o da Senhora das Dores. Enquanto pudermos fazer, nós fazemos”, explicou João Silva.
Foram precisas muitas horas de trabalho no salão paroquial de S. Martinho de Bougado, ao longo de 15 dias, para que o andor estivesse pronto. Em tons de azul e branco, com materiais que resistem ao tempo, alguns deles desde 1972, mas também franjas, pérolas, fitas e flores, o andor de Nossa Senhora das Dores sai à rua a 21 de agosto, um dia que começa cedo para pai, filho e tio. “Nós chegamos às 7 horas, pomos o andor lá fora deitado, montamos as peças e com a ajuda dos nossos colaboradores e também dos outros colegas levantamos o andor já com as peças principais. Depois só temos que colocar as peças laterais”, descreveu João Silva. Nesse dia, são milhares os que se espalham pelas ruas da Trofa para apreciar os andores que dão vida à procissão em honra de Nossa Senhora das Dores, que arranca da Igreja Matriz, passa pela Rua Conde S. Bento, segue em direção ao Parque de Nossa Senhora das Dores e Dr. Lima Carneiro, dá a tradicional volta à Capela de Nossa Senhora das Dores e regressa ao ponto de partida.

Tradição com passado e futuro

Dito assim, parece fácil. No entanto há histórias que não saem da memória. José Silva relembra o momento em que a chuva veio dificultar a missão de quem carrega os andores, que por si só já são pesados. “Há muitas histórias caricatas, só um livro para se fazer história”, comentou José Silva. “Já ardeu um, outro caiu à linha (de comboio), outro vinha pesado demais e os homens ao descê-lo ele tombou, porque estava muito encharcado”, relembrou. Conta quem anda nisto há muitos anos que, antigamente, o andor “era transportado por homens que vinham do Ultramar, que tinham promessas”. “Este andor era carregado só por pessoas com promessas, nem só do Ultramar” e, atualmente, “continua a haver pessoas que querem carregar por promessa”. No entanto, já estão definidos os homens que devem carregar o andor. Assim, explicou José Silva, “o que a gente faz é dizer: se você tem promessa ponha a mão no andor e a promessa fica cumprida, a não ser que haja um homem que lhe queira dar o lugar”. “É a fé e o orgulho de ser da Trofa” que os move ano após ano na arte de armar e decorar os andores. “Sentimos orgulho, porque este é um trabalho que já vem de muitos anos”, afirmou João Silva, que assume sentir-se satisfeito quando “as pessoas elogiam”. Uma arte que querem “passar de geração em geração”, adiantou João Silva, que já recebeu do pai e do tio os conhecimentos suficientes para dar continuidade à arte de fazer andores. José Silva, que quando era pequeno já acompanhava o irmão (João Silva), explicou que foi com ele que aprendeu “a trabalhar, passando de geração em geração”, acabando por ensinar o sobrinho, “que vai ensinar mais alguém”.