Para gáudio de alguns responsáveis políticos da direita trofense, que apesar de manterem o seu habitual e cobarde silêncio relativamente aos vários processos em curso envolvendo antigos dirigentes do PSD Trofa por crimes semelhantes aos que agora colocam Joana Lima no banco dos réus, com a diferença de serem mais graves, envolverem mais verbas e serem em maior número, a antiga presidente da Câmara Municipal da Trofa (CMT) começou este mês a ser julgada por dois crimes de abuso de poder e um de participação económica em negócio no tribunal de Matosinhos.
Facciosos à parte, que isto de políticos que colocam o partido e as suas estruturas acima do interesse nacional e local é do mais banal e corriqueiro que por aí anda e a Trofa está a anos-luz de ser uma excepção a esta regra de ouro do bloco central, foi com algum espanto que li a peça do jornal online Notícias ao Minuto, no passado dia 15 de Junho, cujo título é em si uma revelação surpreendente: “Ex-autarca não sabia de serviços cedidos a familiares”. Genial: Joana Lima tem uma irmã, que recebe sucessivas encomendas de flores para a Câmara Municipal da Trofa, mas ninguém a avisou. Ninguém lhe disse nada. A própria irmã de Joana Lima, contemplada com inúmeros serviços requeridos por uma entidade presidida pela irmã, nunca, em momento algum, trocou duas palavras que fossem sobre este fornecimento com a irmã Joana. Notável.
Chega a ser anedótico que se alegue uma desculpa tão esfarrapada. E mesmo que este argumento fosse verdadeiro, que não parece ser, tenho a sensação que não seria válido na medida em que o desconhecimento da lei não iliba ninguém de um hipotético crime cometido. Tal como pouca validade tem, neste contexto, alegar que se reduziu custos com esta e outras decisões que favoreceram familiares da arguida. Não é o valor do serviço que está a ser analisado e julgado pela justiça mas o acto de favorecer familiares com recursos públicos e sem um concurso que promova a igualdade de oportunidades. E um favorecimento não deixa de o ser porque se pouparam alguns euros. Até porque o executivo Bernardino Vasconcelos foi exímio no acto de triturar dinheiros públicos e mal de nós se esta irresponsabilidade sem precedentes se prolongava no tempo. Alguém tinha que por fim à festa social-democrata que atirou o nosso concelho para a insolvência. Na Trofa, despesismo rima com PSD, o PS ainda tem muito que aprender.
A amnésia política é já um clássico aqui pelo Rectângulo. Basta olhar para aquilo que têm sido as grandes comissões de inquérito na Assembleia da República, nomeadamente as que envolvem terroristas bancários como os casos BES ou BPN, para perceber que as elites dirigentes nunca se lembram de nada quando o caldo entorna. Não estavam na reunião, delegaram em alguém, ausentaram-se por motivos pessoais e não foram devidamente informados ou, tal como aconteceu com Joana Lima, não sabiam. Incrivelmente, nunca é nada com eles. A culpa será com toda a certeza minha, dos caros leitores e da “plebe” portuguesa em geral. A nossa passividade combinada é quase tão criminosa como a conduta daqueles que diariamente destroem Portugal.
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)