Alvarelhos foi uma das oito freguesias que passaram a constituir o concelho da Trofa a partir de 19.11.1998. A partir de 2013, juntamente com a freguesia de Guidões, forma a União de Freguesias de Alvarelhos e Guidões. Apesar de ser uma das freguesias mais pequenas do concelho da Trofa (tem 6,46 Km2 de área e aproximadamente 3151 habitantes segundos os Censos de 2011), Alvarelhos é uma terra antiga, de grande interesse histórico e paisagístico que deve ser devidamente valorizado e sobretudo admirado, pois tem no seu “seio” um dos grandes ex-libris do concelho trofense que é o Castro de Alvarelhos (ou de São Marçal), classificado como Monumento Nacional, desde 16 de Julho de 1910.

Alvarelhos terá nascido nos “píncaros de um dos mais elevados contrafortes da serra de Santa Eufémia.” Desconhece-se o ano da criação da freguesia de Alvarelhos; no entanto, esta paróquia terá “dependido” outrora, do convento beneditino de São Salvador de Vairão (Vila do Conde). Há notícias de que D. Afonso Henriques instituiu o Couto de Vairão em 1141 e nessa altura a população desta freguesia já pagava os dízimos à Abadessa daquele Mosteiro. Há, por outro lado, um documento de 907 que atesta a existência desta freguesia. Aí é referida a “ciuitas albarelius” A seguir, há outras referências documentadas sobre a existência da mesma, como por exemplo nas inquirições de 1258: “… Alvarelhos… Sancte Marie” e “Sancte Marie de Alvarelhos-ano 1258”.
Na memória paroquial de 1758, pode ler-se: “…O pároco desta igreja de Santa Maria de Alvarelhos é vigário colado da apresentação in solidum da Abadessa do Convento de Vairão da Ordem de São Bento.

Igreja Matriz de Alvarelhos – É o principal local de culto da paróquia de Sta Maria de Alvarelhos. Construída no século XVII, este templo tem uma fachada simples e é ladeada por dois torreões. As duas portas laterais são de estilo românico. Da primitiva igreja, ficaram apenas as paredes, nas quais foram “abertas” janelas “ao gosto da época”.No interior, as paredes estão revestidas de azulejos seiscentistas. O altar-mor é de talha dourada, tendo ao centro a imagem de Nossa Senhora da Assunção.

Santuário de Santa Eufémia – No alto do Monte de Santa Eufémia foi erigida uma capela em honra da virgem e mártir Santa Eufémia. A data da construção da primeira capela (ou ermida) não é conhecida; no entanto, existe no interior do referido templo uma imagem da santa do século XVI, o que daqui se poderá depreender que o início da construção daquela ermida seja dos inícios desse século. O ano de 1728 contempla a construção de uma capela maior. O templo foi reformado em 1899 e um século depois (1996) foi totalmente reformado e restaurado. Possui 3 altares; mas é no altar-mor que se encontra a imagem da “padroeira” do Santuário, a virgem e mártir Santa Eufémia, por cuja devoção nutrem milhares de romeiros , vindos dos concelhos do norte de Portugal e freguesias limítrofes, principalmente durante os dias da romaria que se realiza no terceiro fim-de-semana de Setembro.

Castro de Alvarelhos – Este monumento está situado a cerca de 6 km do centro da cidade da Trofa. O Castro de Alvarelhos é considerado um dos maiores sítios arqueológicos do Noroeste Peninsular. Segundo refere Jorge Manuel Ramos de Pinho no trabalho do Inventário de Sítios, o Castro de Alvarelhos foi um “…Sítio de importância extrema na conquista romana do Noroeste “da Península, “tendo funcionado como ‘vicus’ viário implantando-se estrategicamente numa rota de confluências de vias, a via XVI (Cale-Braga) e a via ‘per loca marítima’ que rumaria para litoral”.

O Castro encontra-se protegido por uma Zona Especial de Protecção com cerca de 130 hectares que ultrapassa os limites do concelho da Trofa e se estende pela freguesia de Guilhabreu (Vila do Conde) e ainda uma pequena parcela pela freguesia de S. Pedro de Avioso (Maia).
O sítio arqueológico de Alvarelhos teve várias épocas de ocupação, dos finais da Idade do Bronze à Idade Média e delas guarda vestígios materiais e arquitectónicos.

Embora actualmente não seja fácil definir a área exacta da ocupação da Idade do Ferro, pelo facto do desenvolvimento do povoado durante a época romana ter alterado profundamente essa realidade pré-existente, pensa-se que, grosso-modo, ele ocuparia uma vasta extensão de cerca de oitocentos mil metros quadrados. Supõe-se , de igual modo, que tenham existido 3 linhas de muralhas defensivas com a probabilidade da presença de mais outras duas, -na opinião de alguns investigadores-na planta predominantemente circular e quadrangular, para além de ter sido encontrada uma construção com eventuais finalidades termais.

A ocupação deste local durante a Idade do Bronze está documentada por cerâmicas polidas e carenadas, machados em pedra polida e lâminas em silex, sendo por ora, desconhecidos vestígios de construções desses períodos. A zona mais expressiva corresponde a uma plataforma intermédia onde se identificaram diversos indícios arquitectónicos de romanização, nomeadamente casas tipo domus, sobrepostas às construções da Idade do Ferro. Do período medieval são ainda visíveis, neste espaço, as ruínas da segunda igreja de Alvarelhos e sepulturas do mesmo período.

Trabalhos de intervenção no terreno e investigação arqueológica:
A estação arqueológica, com excepção do projecto de investigação de que foi alvo na década de 90 do século vinte, nunca tinha sido objecto de uma intervenção sistemática, contando apenas com uma intervenção pontual efectuada por José Fortes, em 1899 e uma outra realizada por Serpa Pinto, em Setembro de 1926. A intervenção arqueológica, ao nível da escavação , decorreu entre 1991 e 1998, tendo sido realizadas 11 campanhas, das quais resultou uma área intervencionada de 1980 m2. O resultado destas investigações permitiu definir a periodização das diferentes fases de ocupação da estação.

Resumo das fases da ocupação:
Fase I 900/700 aC./500 aC. (Início da fase I da Cultura Castreja) – Etapa do Bronze Final do Norte de Portugal
Fase II 138/136 aC. (Campanha de Decimus Junis Brutus) 14/54 aC.-reinado de Tibério/Cláudio
Fase II b 14/54(reinado de Tibério Cláudio) e 69/Vespasiano/atribuição do ius Latii à Península
Fase III 69/74 (Vespasiano)/atribuição do Ius à Península e 284/288 (Criação da província da Galécia por Diocleciano)
Fase IV 284/288 (Diocleciano)-Criação da Península da Galécia e 409/411 (Fixação de Vândalos e Suevos na Galécia)
Fase V 409/411 (Séc.V-Fixação de Vândalos e Suevos na Galécia) 455/459 (Guerra civil entre Suevos e Visigodos. Queda do reino Suevo)
Fase VI-Séc IX/ X (Início reconquista/Incastelhamento/Séc.XII/XIII (Construção Igreja e cemitério
Fase VII-Séc.XII/ XIII(Construção da Igreja e cemitério) Séc.XVI /Início séc.XVII(Abandono Igreja e cemitério).

Principais achados arqueológicos:
Ara Votiva, encontrada num terreno agrícola do Castro de Alvarelhos, em data anterior a 1893
Tesouro monetário em 1893 pelo Abade Joaquim Pedrosa
Estatueta em bronze, de Nereida, em 1952
Tesouro monetário (conjunto de 523 denários), em Abril de 1964, examinados por Joaquim Torres. Este conjunto de moedas de prata são do reinado de Octavianus/Augustus de ca. 32-27 aC.
Tesouro monetário: 5000 denários, em 1971
9 Bolas de prata, duas gravadas com a palavra “Caesar”, pesando 3.220 gr e 1 pedra rectangular, tendo numa face o nome de “Caesar” e na outra o numeral XII
Arreio de cavalo, Lucenas,
Mamoa de Monte Grande em 1986

Parque e Quinta do Paiço – Esta quinta é uma grande propriedade agrícola e florestal, implantada no século XVIII, e situa-se muito próximo do Castro de Alvarelhos. Este grande solar pertenceu à família “Oliveira Maia”, sendo actualmente propriedade do Seminário Maior do Porto.. Nesta quinta, numa parede lateral do edifício principal, encontra-se esculpida uma “pedra de armas” da família dos “Oliveira Maia”, antigos senhores desta casa. O brasão desta mesma família pode ver-se, também, na frontaria da Capela dos Magriços, situada no lugar de Cidoi.
Segundo Mário Capella, foi encontrado no jardim (contíguo à casa), um miliário com 1,12m de altura e 1,94 de circunferência, onde foi possível ler-se as seguintes inscrições:”IMP CAESARI/ TRAIANO HADRIANO/ AUG. PONTIF. MAX TRIB. POTEST. XVIII COS III P.P. A BRACARA AUG “. Também, segundo Carlos Faya Santarém, foi encontrada, nesta quinta, no ano de 1861, 1 Pátera de Prata, com 7 cm de diámetro. Fora da Quinta do Paiço, Martins Sarmento de Guimarães terá identificado um caminho lageado que poderá corresponder à antiga estrada romana.

Capela de Nossa Senhora do Carmo-Situada paredes-meias com a Quinta do Paiço, este pequeno templo terá sido edificada no primeiro quartel do século XVIII. Apesar do reduzido tamanho desta pequena capela, tem no seu interior três imagens muito antigas, possivelmente seiscentistas. São elas: Nossa Senhora do Carmo, São José e São Martinho. Esta ermida foi restaurada sucessivamente em 1930, 1954 e 1986. A festa litúrgica do orago desta capela Nossa Senhora do Carmo é celebrada a 16 de Julho, mas os alvarelhenses realizam a festividade em honra da Padroeira da capela no 3º domingo de Julho.

Capela de S. Roque – Esta capela terá sido construída no século XVI, de acordo com uma inscrição gravada na padieira da porta da sacristia da mesma capela. O dia litúrgico da sua festa é 16 de Agosto; em Alvarelhos, realiza-se no último domingo de Agosto.

Texto de António Costa