Resulta a presente opinião da circunstância do assunto ainda estar quente, ainda bulir, como diz o nosso povo. Antes de tudo, salientamos não termos ponta de animosidade em relação a qualquer elemento do actual poder autárquico de Guidões. Apenas malhamos na postura política, na actuação política e, essencialmente, nas opções politicas.

  Guidões não é só o centro. O centro é o coração da terra. Em tempos foi verde, muito verde. No centro erguia-se o enorme e altivo sobreiro, centenário, abraçado por amplos campos verdes, empanturrados de milho, batata e parreiras. Na sua frente o Cerro, casas em cascata subiam morro acima, entre um pitoresco multicolor, onde o verde persistia. Da outra banda, o fértil vale atravessado pelo ribeiro da aldeia, ladeado de terras fecundas e produtivas. Guidões era também a margem esquerda frondosa do rio ave com as suas bucólicas paisagens, praias aprazíveis e azenhas características. As encostas sinuosas e viçosas do Outeiro e das Oliveiras, as águas cristalinas e o ar puro. Hoje perdeu-se quase tudo. Mas Guidões é terra de gente valorosa, amiga e solidária. Gente progressista, lutadora. Guidões é terra onde o "Sim" ganhou no referendo à interrupção voluntária da gravidez. É terra onde Humberto Delgado fica à frente de Tomás nas eleições presidenciais de 1958. Guidões é terra de teatro, e teatro de resistência. Na década de 50, em plena noite fascista, foi representada a peça "maldita" de Gil Vicente, o "Auto da Barca do Inferno", onde os poderosos iam para o Inferno. Apesar da intervenção repressiva da GNR, os Guidoenses não abdicaram e continuaram a apresentar a peça em Guidões e nas freguesias vizinhas. Guidões é terra de amigos que se juntam e ajudam outro amigo na edificação da casa, no carregamento da placa… de gente solidária na realização de obras colectivas. Foi assim na construção da igreja, foi assim no pós 25 de Abril, com as comissões de moradores, a funcionarem, a reunirem, a realizarem obra, calcorreando, ainda a medo, mas com grande vontade, os primeiros tempos da vivência democrática.

Vai daqui considerarmos existir outra solução para o terreno de Vilar de cerca de seis mil metros quadrados, avaliado em cerca de 350 mil euros, propriedade do povo de Guidões, que a Junta de Freguesia do PS apoiada pela maioria pretensamente socialista da Assembleia de Freguesia doou a uma instituição designada ART – Associação dos Reformados da Trofa, para aí construir um Centro cujos serviços serão pagos pelo utente e pelo sócio, com diversas valências, onde alegadamente funcionará um lar com algumas camas, centro de dia, creche, aulas de música, de "arte", de informática. Esta doação levanta três questões relevantes. Primeiro, saber se a primeira doação do terreno, aquando da constituição da urbanização, permite ou não a edificação de um projecto da essência e com os fins do pretendido. Segundo, se a Junta de Freguesia e o PS/Assembleia tinham legitimidade politica para a concretização da doação uma vez que os Guidoenses não sufragaram esta pretensão, pois não constava do programa eleitoral do PS apresentado nas ultimas eleições locais, nem foi submetida a referendo, como propôs a CDU, agindo assim o Poder autárquico nas costas do verdadeiro proprietário do terreno, o povo. Por ultimo, se preenche os requisitos da legalidade a Junta de Freguesia propor a doação do referido terreno e concretizá-la através de escritura pública, sabendo que o presidente da Junta, detentor de poder público e presidente de um órgão público, é simultaneamente vice-presidente da mencionada ART, instituição de natureza privada. Seja como for, esta solução encontrada pela Junta, dar o terreno, é uma solução cómoda. Mas não responderá às necessidades do povo de Guidões, porque o Centro não se destina aos Guidoenses, mas a todo o concelho. E dadas as limitações físicas do Centro e a diversidade das suas valências, nem resolverá o problema dos Trofenses em geral, nem os problemas dos Guidoenses, em particular. Seria preferível resolver pelo menos o problema dos Guidoenses nesta matéria. Para isso tinham o terreno. Contariam também de, em franca camaradagem e companheirismo, voluntariamente, contribuírem com um ou mais dias de trabalho, ao fim de semana, na edificação de uma obra que seria de todos e para todos os Guidoenses – o verdadeiro Centro Social de Guidões. Restaria o financiamento, que não seria complicado, desde que houvesse bom senso e pragmatismo. Obviamente que para isso, é fundamental vontade política, timoneiro, força e organização. Eis pois uma oportunidade perdida e o desenvolvimento adiado. Sim. Desenvolvimento. Pois nem sempre crescimento é sinónimo de desenvolvimento. Se a edificação de monolíticos volumosos de cimento armado ou o asfaltar de algumas ruas fosse sinónimo de desenvolvimento, seria Guidões freguesia desenvolvida. Mas não é por aí que se mede a pulsação. Mas antes pelo colmatar das necessidades básicas da população. Na saúde, na educação, na cultura, Guidões vai mal. Quase nada se fez… Este poder autárquico está enfadado, agastado…segura-se no supérfluo…sente-se absolutamente incapaz. A falta da casa mortuária, necessidade imprescindível, absolutamente premente para a freguesia, que passa de programa em programa eleitoral, de plano a plano plurianual, e nunca é concretizada e a privação de edifício de junta, com valências sociais e culturais, nomeadamente anfiteatro e biblioteca, que igualmente passa de programa em programa eleitoral, de plano a plano plurianual, e nunca é realizado, são dois exemplos claros desta política balofa e sem substância.

Guidões e os Guidoenses não mereciam ser tratados desta forma. Com este poder autárquico, Guidões continua a ser terra de oportunidade perdida e de desenvolvimento adiado…

 

Atanagildo Lobo.