De uma maneira ou de outra, os quatro trofenses a quem demos espaço nesta edição, vivem, desde março, na linha da frente da luta contra a Covid-19. Uns bem perto, outro noutro país, são, a nosso ver, as vozes mais capazes de transmitir aos leitores aquilo que se está a passar dentro de um hospital, no interior das instituições ou nas habitações de muitos seniores, há muitos meses privados de verem ou abraçarem os entes queridos. Mas também são aqueles que melhor podem desconstruir a pandemia de desinformação que se propaga mais rápido que o próprio novo coronavírus e que, em muitos casos, pode ter implicações graves no esforço de quebrar as cadeias de transmissão da Covid-19, levando a que o trabalho destes verdadeiros “soldados” numa guerra pandémica seja prolongado, já para lá do que é, humanamente, possível.

Este espaço é um alerta para que todos nos mantenhamos comprometidos na luta contra a propagação do novo coronavírus e esse imperativo está vincado nos quatro testemunhos que recolhemos. E isso não é coincidência, é a confirmação de que é premente seguirmos as recomendações das autoridades de saúde.

Este espaço que lhes demos e que lhes dedicamos é também uma homenagem d’O Notícias da Trofa a todos os profissionais de saúde que, desde março, roubam horas ao descanso, às famílias, a eles próprios para salvar vidas. Os heróis têm rosto: estes quatro são disso exemplo.

Marco Silva
Enfermeiro-chefe no Hospital Universitário Luton e Dunstable (Reino Unido)

“Fomos confrontados com a morte de colegas de profissão”

“Este tem sido um ano, anormalmente, difícil. É verdade que tem sido para toda a gente, mais para uns que para outros, e para os profissionais de saúde tem sido não apenas difícil a nível pessoal, mas também muito desafiante a nível profissional.

Para mim, vivendo no estrangeiro, a nível familiar o ano tem sido bastante duro, porque passei de visitas a Portugal a cada dois meses para um ano. Este ano, apenas viajei a Portugal uma vez. Foram oito meses sem ver a família e, neste momento, já vão 4 meses e estou a contar que mais alguns se irão passar.
A nível profissional, o ano tem sido, igualmente, desafiante, infelizmente e por motivos de saúde, durante os três meses em que os casos de Covid eram mais elevados, eu estive a trabalhar a partir de casa, no entanto, isso não me afastou da realidade, muito pelo contrário.

Enquanto enfermeiro-chefe no serviço de urgência, tenho uma noção muito clara da gravidade da doença e do seu impacto na sociedade. Enquanto profissionais de saúde, todos somos preparados para o confronto com a morte, mas ninguém estava preparado para lidar com a morte e com a debilidade em números tão elevados.

No meu hospital, fomos confrontados com a morte de alguns colegas de profissão, assim como outros que estiveram gravemente doentes, tudo isto causa-nos um grande medo, no entanto, e apesar do medo, quase todos mantiveram o foco e deram o seu melhor e, apesar de tudo isto, muitas vezes fomos confrontados com a escolha entre doentes ou com escolhas que poderiam pôr a vida dos doentes em risco.

Como é óbvio, nenhum hospital no mundo estava preparado para esta afluência de doentes e a nossa não era diferente. Por este motivo, a opção feita passou por dividir em áreas, ou seja “Suspeitos de Covid” e “Não suspeitos”, mas isto causa decisões extremamente difíceis, por exemplo, não é de consciência leve que decides colocar um doente imunossuprimido com cancro do pulmão numa área com Covid pelo facto de ele se apresentar na urgência com febre e dificuldade respiratória. Caso o doente, efetivamente, tenha Covid esta foi uma decisão acertada, caso ele não tenha Covid, podes estar a expor o doente a Covid e chegar mesmo a causar a sua morte.

Neste momento, estamos a passar por uma segunda onda de Covid e a ideia que está a dar é que as pessoas estão a desvalorizar a doença e a dar menos importância às regras de isolamento e de uso de máscara, um erro enorme e do qual muita gente se vai arrepender. Temos que ter a perfeita noção que o uso de máscara não só nos protege a nós, mas principalmente protege os outros, incluindo os nossos familiares.

Todas as semanas sou confrontado com casos de pessoas idosas que, apesar de estarem em isolamento domiciliário, contraíram o vírus que lhes terá sido transmitido pelos familiares diretos que os apoiam com as compras, por exemplo. Ninguém está a salvo e mesmo aquelas pessoas que acham que são mais fortes que o vírus, devem respeitar as regras por respeito para com os outros em especial pelos seus familiares.

Na minha opinião, este vírus está para ficar e mesmo com o aparecimento da vacina não vamos erradicar o vírus nos próximos tempos e o importante é aprendermos a viver com o “novo normal” de forma a reduzir os riscos e permitir uma vida em comunidade o melhor possível.”