Na Casa da Cândida e do Manel da Leopoldina, em Cidai, na freguesia de Santiago de Bougado as vindimas são uma tarefa e uma tradição que se repete todos os anos.

O dia começou bem cedo, como acontecia noutros tempos. Às 7 da manhã chegaram ao campo. Vestidos a rigor e mal se segurando em cima dos socos, os homens e mulheres levavam nas mãos as cestas em verga e as “gigas” (cestas maiores em verga) onde iriam transportar os bagos colhidos.

No campo, o carro de bois a sustentar a baça, esperava que atirassem os primeiros cachos de uvas. “Antigamente era tudo vindimado à escada, não era com carro de bois, ou tractor como é hoje, era acartado (transportar à cabeça, ou ombro) com a giga para as baças. Depois vinha-se para casa e com umas gamelas deitava-se tudo para o esmagador”, contava Luzia Cruz, de 86 anos, vizinha dos patrões da casa, que também veio ajudar à vindima.

Já desde os 11 anos que se dedica à vida no campo e Cândida Pinheiro, dona da casa, garante: “Ainda tem força nas pernas para correr para a missa”. Luzia assentiu e saudosa recordou as vindimas do seu tempo. “Antigamente vindimava-se desde o nascer do sol e às vezes até chegar o luar e cantava-se e tocava-se os socos. Era divertido, era mais bonito que agora. Tenho saudades do tempo que passei”, confirmou.

Apesar de agora o processo ser diferente, mais mecanizado, em casa da Cândida e do Manel da Leopoldina algumas das tradições mantêm-se. Cacho a cacho, as uvas vão sendo colhidas para que durante o ano todos se possam regalar com o sabor do vinho colhido com o suor do próprio trabalho.

Manuel Pereira, de 72 anos, dono da casa, comanda a colheita e impõe ritmo nos homens e mulheres para que o trabalho se faça depressa. Desde cedo se dedicou à agricultura, foi empregado fabril e depois de se reformar voltou às origens. “Ainda mantenho algumas videiras, porque gosto de uma boa pinga, e por isso, tenho que zelar por elas, se não tenho de beber água e isso é coisa que eu não gosto muito”, confessou.

A esposa Cândida Pinheiro, de 66 anos, também habituada ao trabalho no campo, a meio da conversa reforça a importância de manter todas estas tradições: “As tradições deviam continuar. Cada passo devia de se fazer assim umas coisas… os catraios (crianças), coitados, muitos nem sabem o que é uma vindima, o que é desfolhar o milho, não sabem nada”.

Completou “mal” a “terceira classe” e como não havia outro emprego ia para o campo trabalhar. Hoje é o seu sustento, pois para além de produzir para consumo próprio, também vende um pouco de tudo na Feira/Mercado da Trofa onde é presença assídua aos sábados.

A meio da manhã, faz-se uma pausa para a merenda. A dona da casa estende a toalha de linho no chão, parte a broa e deixa as azeitonas e o vinho guardado na cabaça para quem se quiser servir. E depois de comer e beber… cantam-se as modas antigas. Mas sempre de braços no ar a colher as uvas. O trabalho não pode estar parado por muito tempo.

Este ano, Manuel Pereira tem 14 pipas e meia para encher. É vinho para ele e para os seus e ainda chega para vender.

No fim das vindimas… “iam homens e mulheres para dentro das baças pisar o vinho”. “Depois levava-se o bagaço ao alambiqueiro e estava a vindima acabada”.