Estávamos nós ainda mal refeitos do atentado que vitimou Benazir Bhutto no Paquistão (reivindicado pela Al-Qaeda),entrámos em 2008 ameaçados de novos atentados.

  O elemento diferenciador consiste no local em que a organização terrorista afirma ter atacado e onde ameaçou atacar novamente: o Magrebe, ou, para ser mais exacto, a Mauritânia. Com efeito, no dia 24 de Dezembro do ano que agora terminou, quatro turistas franceses foram assassinados na Mauritânia e a Al-Qaeda, para além de assumir a responsabilidade pelo acto, ainda ameaçou todos os interesses franceses na região do Magrebe. Por essa razão, o governo francês, na pessoa do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, tomou a palavra para desaconselhar fortemente os cidadãos franceses a permanecerem ou viajarem pela Mauritânia – incluindo aqueles que participavam no rally. Desta feita, a entidade organizadora do Rally Dakar, a Amaury Sport Organization (ASO), seguindo a directiva do governo francês, cancelou o mais importante evento anual do desporto automóvel.

Consumado o cancelamento, foi confrangedor assistir à reacção do governo português – ou melhor, à falta dela. Afinal, a organização do rally cabia, em prima ratio, a Portugal. A sensação que nos ficou foi a de que a ASO apresentou o cancelamento como um facto consumado ao governo português, sendo certo que tantos milhões de euros foram investidos este ano na realização do rally que tinha início em Lisboa, nomeadamente através de inúmeras Câmaras de Municípios por onde a caravana deveria passar. Mas não é o facto de o governo português ter sido absolutamente desconsiderado em todo este processo que me leva a trazer este assunto à colação.

Na realidade, o que é verdadeiramente preocupante para todos nós, bem mais do que consciencializarmo-nos de que as organizações terroristas estão à nossa porta, quando já não dentro de nossa casa (como, infelizmente, tem acontecido), é a percepção de que as ameaças e as acções terroristas podem alterar a nossa forma de viver. Pior ainda: alteram a nossa forma de raciocinar e de reagir ao medo. O primeiro sinal preocupante para nós, europeus, veio com o 11 de Março: os atentados em Madrid e a ameaça de novos atentados terroristas por parte da Al-Qaeda, lograram subverter todo o panorama da campanha eleitoral para as legislativas espanholas e, no momento do voto, colocou o PSOE na governação de Espanha. Tornou-se então óbvio que a capacidade de discernir e a liberdade de pensamento e expressão sucumbiram ao medo.

Agora, ainda que de outra forma, o cenário repetiu-se. O mais importante rally do mundo – e um dos mais antigos – foi cancelado pela primeira vez na sua história. De nada valeram as garantias de segurança dadas pelo governo da Mauritânia, que mobilizou três mil homens para vigiarem 9.275 quilómetros de pista do rally. A ameaça de perpetração de actos terroristas contra cidadãos franceses na Mauritânia, proferida pela Al-Qaeda, foi suficiente. Perante a ameaça, a desistência. Alteraram-nos a forma de pensar, de agir e de reagir. O modo de vida europeu está em risco, perante as crescentes e cada vez mais próximas ameaças do terrorismo islâmico. Desistir ou persistir?

Em Março próximo, realizar-se-á um outro rally, com 157 participantes já inscritos, organizado pelo primeiro piloto vencedor do Rally Dakar, Hubert Auriol. A partida dar-se-á no dia 8, em Paris, e a chegada ao Lago Rosa está prevista para o dia 22. O trajecto da caravana do Rally "Lenda dos Heróis" (tradução livre) será, em grande parte do percurso, muito próximo do trajecto que estava previsto este ano para o Rally Dakar. Quando questionado sobre a segurança no seu rally, atento o facto de o Dakar ter sido cancelado, Auriol respondeu: "a segurança não é um problema de dimensão, mas sim um estado de espírito".

Helder Reis