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Ano 2010

A Maria coveira

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Tem 56 anos e há 14 é a responsável pelo cemitério da freguesia de Guidões. Começou a trabalhar a 15 de Outubro de 1996 e, cerca de um mês e meio depois, cavou a sepultura onde enterrou uma irmã mais nova. Esta é a história de Maria, a coveira.

“Até à data de hoje tudo tem corrido bem”, garante Maria Maia, enquanto retira as flores e as velas de um jazigo, que vai preparar para receber um defunto. Maria é a coveira de Guidões há 14 anos e ao NT contou como conseguiu este trabalho “duro”. “Eu vi o anúncio na Junta de Freguesia, onde explicava que estavam à procura de alguém para coveiro”, explicou. Quando se propôs ao lugar, o executivo confessou-lhe que “estava à espera que fosse um homem”. “O presidente da Junta disse-me que era um trabalho forçado”, recorda. No entanto, Maria “precisava de trabalhar e apareceu esta oportunidade”, que não podia ser desperdiçada. Afinal, “era um trabalho como outro qualquer”. Maria Maia tem todas as tarefas de casa para fazer, como qualquer outra mulher, e vê a profissão como sendo “normal”.

Para a família, sobretudo para o pai, a escolha que Maria Maia fez, suscitou alguma confusão: “O meu falecido pai perguntava-me se eu não arranjava nada melhor para fazer”. Os três filhos desta mulher, que não teve medo de enfrentar o trabalho, já encaram a profissão da mãe “com naturalidade”.

No primeiro dia, 15 de Outubro de 1996, Maria Maia trabalhou nas valetas, porque o seu trabalho não é apenas no cemitério. “Para além de cuidar do cemitério, também faço a limpeza dos fontanários e de algumas ruas centrais da freguesia”, explicou. No entanto, o momento mais difícil ao longo de 14 anos de trabalho aconteceu a 2 de Dezembro de 1996, quando Maria Maia enterrou uma irmã mais nova. “Foi custoso, mas estava a trabalhar há pouco tempo e não quis dar parte fraca”, confessou. No entanto, foi “muito duro” e Maria Maia assegura que “nunca mais” volta a passar por uma situação destas. “Quando o meu pai faleceu já não fui eu que tratei das coisas. Era muito doloroso”, afirmou.

Bernardino Maia é o presidente da Junta e o responsável pela contratação de Maria Maia. Quando esta guidoense lhe mostrou vontade de ocupar o lugar, o autarca quis certificar-se de que Maria “tinha conhecimento do tipo de funções que iria desempenhar”. “Era um trabalho pesado e fiquei surpreendido quando ela quis o lugar”, confidenciou ao NT. Bernardino Maia, “para que não restassem dúvidas”, aconselhou a actual coveira a “pensar durante algum tempo e a voltar passada uma semana”. Volvido esse tempo, Maria “voltou com a mesma vontade”, pelo que foi contratada pela Junta de Freguesia, até porque mais ninguém se candidatou ao lugar. Ao recordar esses momentos, Bernardino Maia confessa que pensou “em não lhe dar o trabalho por talvez ser demasiado para uma mulher”. No entanto, “também quis dar-lhe uma oportunidade, pois tinha conhecimento de que a Maria precisava”. “A nossa coveira deu-nos uma lição ao mostrar que não tinha qualquer problema em fazer este trabalho”, referiu.

Bernardino Maia está “contente com o serviço”: “Sabe a sua responsabilidade e tem cumprido com o seu trabalho. É uma mulher de muita coragem”.

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Os guidoenses também parecem estar satisfeitos com a contratação feita pela Junta de Freguesia. À saída do cemitério, o NT encontrou Aires Maia, que se mostrou descontente com o antecessor de Maria Maia e “satisfeito” com o trabalho da coveira. “É uma boa pessoa”, assegurou.

Já Maria Odete do Real, como é conhecida em Guidões, garante que “quando ela (Maria Maia) começou a trabalhar foi uma coisa como outra qualquer”. Diva Maia, enquanto enfeitava a campa de familiares, afirmou que “estamos num tempo em que as mulheres são como os homens”. Antes de Maria Maia ocupar o lugar, o trabalho era feito por um homem e “era uma miséria”, lembra Diva Maia. Para esta guidoense, o importante é que “haja quem faça, porque este trabalho não é para qualquer um”.

“Gosto daquilo que faço e não estou a pensar deixar de o fazer”, afiançou, já preparada para mais um dia a cuidar das ruas, dos fontanários e, naturalmente, do cemitério de Guidões.

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