Com dezenas de metros de altura, a imponência dos andores da procissão de Nossa Senhora das Dores traz à Trofa milhares de pessoas. João Silva decora os andores há 35 anos.

“É de martelo na mão e alfinetes na cinta” que se decoram os andores para a procissão em honra de Nossa Senhora das Dores. No salão paroquial em frente à Igreja Matriz de S.Martinho de Bougado, os colaboradores da Agência Funerária Trofense atarefam-se para concluir os quatro andores a tempo da procissão, marcada para o dia 22 de Agosto. João Silva é o proprietário da Agência e recordou os primeiros anos de trabalho: “Comecei precisamente neste lugar há 35 anos. O primeiro andor que fiz na minha vida foi o de S. Sebastião, de Paradela, que era coberto com duas cores – vermelho e branco”, lembra.

João Silva faz os mesmos quatro andores há cerca de 25 anos: Senhora das Dores (Paranho), S. José (Finzes), Santa Margarida (Valdeirigo) e Senhora da Assunção (Esprela). “Houve um ano em que fiz sete andores, porque precisava de reorganizar a minha vida profissional, mas é uma loucura”.

Para que tudo esteja pronto a tempo, três pessoas trabalham desde o dia 6 de Julho, seis dias por semana, entre as 8.30 e as 18.30 horas, apenas com uma pausa para almoço. João Silva relembra que “também é preciso dar assistência aos outros serviços da Agência Funerária”.

Para enfeitar os andores “é preciso haver muito bom gosto, pois as cores devem estar sempre em harmonia e de acordo com o santo”, evidenciou o responsável da Agência Funerária Trofense. Para este armador, “os dez andores são muito bem preparados e ornamentados, mas há um andor em especial, cuja estrutura é fantástica: o andor de Nossa Senhora das Dores”. “O desenho da carcaça deste andor supera tudo”, defendeu.

“Há uns oito anos” a tradição foi ajustada às necessidades que foram surgindo e o andor de Nossa Senhora das Dores foi o primeiro a ser transportado com recurso a uma estrutura com rodas. Antigamente, os andores eram levados pelos militares que voltavam do Ultramar, como agradecimento por terem regressado ao seu país. “Não faltava gente para levar o andor. Os militares iam fardados e até descalços”, recordou João Silva. Para este veterano na decoração dos andores, “tinha muito mais significado nessa altura, quando o andor ia sem carrinho, porque a fé dos devotos e de quem levava os andores era importante”. Agora, o transporte dos andores “é muito mais suave”. João Silva acredita que “não é mais perigoso levarem os carrinhos, uma vez que os andores são espiados com quatro cordas e os homens que levam as cordas é que tratam da segurança”.

A imponência dos andores pode ser um problema durante o percurso que liga a Igreja Matriz à Capela de Nossa Senhora das Dores: “Se cai um andor, acho que caem todos”, alertou João Silva.

“Nunca aconteceu em plena procissão e oxalá que nunca aconteça. É isso que eu peço todos os anos à Nossa Senhora das Dores”, confidenciou.

Há mais de três décadas a preparar os andores para a procissão, João Silva guarda muitas histórias. Por duas vezes, “chorou”. Num ano, o andor de Mosteirô (Santa Bárbara) caiu à linha de caminho-de-ferro. A força do vento fez cair um dos andores e esse fez os outros tombar. “O meu era o último, eu ainda me meti debaixo dele, mas não foi possível segurá-lo. Foi um desgosto grande”, relembrou. Noutra ocasião, ao levantar o andor, o pilar central que segura o resto da carcaça cedeu. “Para remediar a situação, virámos uma parte da estrutura ao contrário. O andor foi mais pequeno, mas saiu na procissão”, garantiu João Silva.

De facto, o momento de levantar os andores é o mais complicado. As várias partes que compõem a estrutura do andor são “deitadas e saem do salão paroquial na horizontal”. Já na rua, “os andores são também montados na horizontal e depois espiados com cordas”. Os últimos enfeites e os pormenores da decoração são aplicados quando a estrutura do andor já está pronta. No final da procissão, quando chega a hora de desmontar os andores, “é quase como um jogo entre o Porto e o Benfica, quanto mais rápido melhor”, brincou João Silva.

Ao todo vão ser dez os andores que saem em procissão: Senhora das Dores (Paranho), Santa Margarida (Valdeirigo), Senhora da Assunção (Esprela), S. José (Finzes), S. Martinho (Corôa Real, S. Martinho e Carqueijoso), Nossa Senhora do Rosário (Abelheira), S. Sebastião (Paradela), S. Bárbara (Mosteirô), S. António (Gandra) e S. Roque (Ervosa).

Caixa

10 é o número de andores que vão sair em procissão em honra de Nossa Senhora das Dores

11 quilos de alfinetes são usados para prender os tecidos em cada andor

300 metros de cetim são necessários para decorar a estrutura dos andores

500 são os acessórios em cartão, com espelhos que reflectem o sol no dia da procissão. Este é também o número de metros das franjas que adornam os andores. Estes materiais têm já décadas de existência

Mais de 2000 euros é quanto custa decorar o andor da Senhora das Dores

650 quilos é o peso do andor da Senhora das Dores depois de pronto