Há muito tempo que me venho questionando sobre os pilares da governação, pelo menos, dos Estados ditos democráticos. Na verdade, estou cada vez mais convencido que será necessário negociar um modelo de Código de Conduta para governar países, no seio da mais abrangente e representada associação de Estados: as Nações Unidas.

  Pese embora as suas crescentes dificuldades no acatamento e respeito pelas decisões da Assembleia-Geral por parte dos Estados-membros, e a urgente necessidade de reformas estruturais (mormente ao nível do seu Conselho de Segurança), será esta a única arena apresentando um mínimo de legitimidade política para mediar o diálogo entre as diferentes concepções de Estado que vigoram pelo Mundo fora. E digo arena com certa dose de convicção. De há muito que aprendi que existe o "nós" e os "outros". Pelo menos quanto à Europa Ocidental, Estados Unidos e Canadá, e, Austrália, relativamente aos restantes países mundiais (uma visão negativista, bem sei). A dialéctica do poder e dos valores e princípios constitui uma autêntica guerra, com várias batalhas ao longo do curso da História, mas que nos obriga a uma tomada de posição e à escolha de um dos lados da barricada.

Vem a esta questão a propósito, não tanto da Cimeira Europa-África, realizada em Lisboa, mas sim de um dos actos subsequentes: a visita oficial de cinco dias do Coronel Kadhafi a França, com duas reuniões, pelo meio, com o chefe de governo francês. Qual a razão desta visita? Bem, para além do comummente proclamado "estreitar de relações", o cerne da mesma é constituído pela assinatura de vários contratos entre os dois Estados. Negócios, pois. Principalmente, à volta da energia e armamento. Contas feitas, no total, significarão 4,5 biliões de dólares, a acrescentar aos 10 biliões de dólares, já acordados no Verão. E a arrecadar, no grosso, por empresas francesas, de capitais públicos e privados.

Ora, o que se assume, de facto, como extraordinário nesta visita, são as vozes dissonantes no próprio governo de Sarkozi. Por exemplo, e a propósito, dizia recentemente Rama Yade, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Direitos Humanos da França, ao diário "Le Parisien", que "o Coronel Kadhafi deve compreender que o nosso país não é um capacho no qual um líder, quer seja terrorista ou não, possa vir para limpar o sangue dos seus crimes" (tradução livre). Nem todos em França são da opinião que "money talks louder" (o dinheiro fala mais alto).

O procurar reatar relações (essencialmente económicas) com países outrora definidos como muito próximos do terrorismo, não pode ser visto como um reconhecimento de que esses países moderaram as suas posições quanto a questões internacionais tão básicas como a segurança internacional e o terrorismo. E não se pense, por outro lado, que a aproximação de países como a Líbia à Europa está relacionada unicamente com o anti-americanismo militante. Não. Apesar de ser moda, também entre os europeus, todos se declararem contra os Estados Unidos da América, a razão é mais profunda, e tem que ver com as fraquezas humanas dos governantes do lado de cá do Atlântico, ou então, e de forma diametralmente oposta, com o seu incomensurável sentido de Estado – e, necessariamente, com os negócios ocultos, que os beneficiam através de poderosos "lobbies" (ou vice-versa). Sobretudo da Europa continental, e com especial ênfase na Alemanha, Rússia e, mais recentemente, Espanha. E com a França à cabeça. É, pois, uma questão mais densa, relacionada com os insondáveis desejos e ambições dos representantes (governantes) e representados (Estados).

 

Na verdade, são estes relacionamentos dúbios entre Estados, que nos levam a colocar em questão o verdadeiro sentido da política externa, essencialmente das Nações Europeias e Ocidentais. Tenho ideia que ficou razoavelmente demonstrado terem sido questões políticas internas dos Estados Unidos da América a ditar a invasão do Afeganistão e do Iraque. Sobretudo no caso do Iraque, o que se colocava em cima da mesa era a exploração do petróleo no país e a reconstrução do mesmo, terminada a guerra, sobretudo ao nível das obras públicas. Assim como penso estar razoavelmente provado que o que levou França e Alemanha a oporem-se à invasão do Iraque foi o receio da perda de negócios milionários, como efectivamente veio a acontecer (na área da construção de centrais de energia, algumas nucleares, na área de fornecimento de todo o tipo de armas e veículos terrestres e aéreos e na área de exploração de petróleo, por parte de franceses e italianos). As preocupações, afinal, nada tinham que ver com uma guerra injusta ou a violação de direitos humanos (ou de prisioneiros de guerra). O que estava e está, sempre, em questão são negócios. Dinheiro.

A história repete-se. Aliás, vem-se repetindo. E com os mesmos actores. Europeus e americanos de um lado, e africanos ou árabes do outro. E quem fica a perder de forma mais directa são os cidadãos do continente africano ou do médio-Oriente. Invariavelmente.

É ténue a linha que separa os princípios e valores fundamentais da governação (de matriz europeia ou, pelo menos, democrática-cristã), atrevo-me a dizer, da instrumentalização das políticas do Estado em prol de benefícios patrimoniais próprios dos governantes (como acontece avassaladoramente em África) ou de poderosos "lobbies" que gravitam em torno do mundo ocidental. Haja esperança na adopção universal de um Código de Conduta e de Boas-Práticas na governação dos Estados, principalmente os menos desenvolvidos…

P.S.: Aproveito para endereçar à Direcção e a todos quantos colaboram com o O Notícias da Trofa os Desejos de um Feliz Natal e um Próspero Ano de 2008, extensivo às respectivas famílias, e, de uma forma mais geral, a todos os Trofenses!

Helder Reis