moreira-da-silvaPela primeira vez, na história da democracia portuguesa, um Governo saído de eleições não vai poder usufruir do «estado de graça», que normalmente é concedido para se instalar, ambientar e começar a trabalhar. A urgência exigida para a implementação das medidas, que o Memorando assinado com o FMI, o BCE e a UE, que – recorde-se – foi, ainda que de um modo indireto, aceite por 78% dos eleitores (PSD, PS e CDS/PP), não se compadece com a lentidão tradicional da governação, semelhante à lassidão do paquiderme.

A atual crise com que o País se depara, exige dos nossos governantes uma capacidade de trabalho inaudita e uma nova forma de estar e de gerir os dinheiros públicos, que consiga criar um pacto novo entre o poder e a sociedade, assente na confiança e na transparência. Dizer a verdade, não criar ilusões, mas sim uma visão conjunta. A mentira é como uma bola de neve – quanto mais longe a leva maior ela se torna. Foi assim no passado recente.

A gestão das finanças e a política económica, que tem sido uma fábrica de desemprego, vão estar sob os holofotes nacionais e internacionais e aos responsáveis não será dado tempo para estudar a fundo os dossiês, tão-pouco o tal “estado de graça”, que lhes permitia respirar. Espera-se, e deseja-se, um acerto com o tempo, o rigor e a modernidade. Não vai haver complacência, poderão estar felizes mas nunca satisfeitos, até ao ajuste das contas públicas e do controlo do descalabro do desemprego.

A exaltação do nome de Portugal no estrangeiro, através da nossa diplomacia, é uma exigência patriótica. Que bom seria, que os nossos diplomatas se empenhassem na “venda” dos nossos produtos, em vez de se preocuparem tanto com o “chá das cinco”, e com essa nova postura ajudassem a dinamizar a nossa economia, aumentando significativamente as exportações dos nossos produtos do mar e da terra. A agricultura e o mar podem ser fontes de alavancagem da economia portuguesa.

Portugal, que tem a mais elevada taxa de habilitações nos desempregados e nas operadoras de caixa de supermercado, precisa de adequar o ensino às reais necessidades das empresas. O problema do nosso País vai sempre desembocar na Educação, Ensino Superior e na Cultura, áreas muito sensíveis e a enfrentar vários desafios consideráveis. 

Também a Justiça está, há muito tempo, a necessitar de grandes transformações. Para levar a cabo uma verdadeira reforma na Justiça vai ser preciso uma forte determinação e muita inteligência, assim como na Defesa e na Administração Interna, que estão a exigir ao poder político, um maior respeito, autoridade e operacionalidade.

Uma dose de imaginação é precisa nos Assuntos Sociais, onde terá de haver uma gestão equilibrada entre os cortes, que deverão ser feitos nos gastos com a sustentabilidade da Segurança Social e a manutenção das principais prestações sociais. Quem vai ter a responsabilidade nesta área, deverá ter as atenções viradas para os mais desfavorecidos, para quem mais sofre, para quem mais precisa de ajuda. 

Para a implementação de políticas ajustadas às necessidades é preciso um equilíbrio na Assembleia da República, que permita uma base parlamentar alargada necessária às reformas mais profundas, como a desejada revisão constitucional. Sem prédicas passadistas. Ninguém está à espera de discussões estéreis e confrontos desnecessários.

O novo Governo terá que ter a força da Verdade para que tenha sucesso junto das populações e faça nascer, junto destas, a força da Esperança. Há que acabar com a bipolaridade no País, de sermos um sucesso ou falhados, e motivar para o bem comum. O que se espera dos novos governantes é a coragem dos fortes. Para irem ao fundamental. 

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt

www.moreiradasilva.pt

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