Um de Fevereiro de 1908 é a data que, nos dias que correm, se evoca. Porquê? Pois, bem, passam precisamente 100 anos sobre o regicídio que vitimou tanto D. Carlos (à data Rei de Portugal), como também o Príncipe D. Luís Filipe. Pode-se dizer que foi, passe-se a expressão, "o princípio do fim" da Monarquia Constitucional.

  Bem mais que apurar simpatias pela Monarquia ou República, confesso que me interessou a cartografia dos medos, ódios e revolucionárias mesquinhices afins: todas decorrentes do assinalar da data. Refiro-me em boa medida, como se entende, ao voto de pesar formulado e proposto pelo deputado Pignatelli Queiroz (eleito pelo PSD) sobre os 100 anos do regicídio, recordando a "trágica morte do Rei D. Carlos e do Príncipe herdeiro", e ao que daí decorreu. Partido Socialista, Partido Comunista Português, Partido Ecologista os Verdes e Bloco de Esquerda votaram contra. Os votos favoráveis centraram-se apenas nos partidos onde houve liberdade de voto, PSD e CDS/PP.

Não constituem sinal de maturidade democrática estas birras e animosidades republicanas. A República está constitucionalmente consagrada entre nós, e não necessita de nouvel-carbonários, que a agitem panfletariamente. Consequentemente, votar ao ostracismo a memória de um acontecimento histórico, de um Rei (afinal, soberano da Nação!) e de quase 800 anos de História de Monarquia em Portugal não é, não pode ser saudável. Isso, é fazer um juízo moral sobre a História do País, a qual não pode ser reescrita.

Que argumentem certas personagens políticas que o regicídio não foi um acto de terrorismo, é algo que, concordando-se ou não, se respeita. Aliás, não causa estupefacção, uma vez que são as mesmas pessoas (sublinhe-se, portugueses, em pleno século XXI) que se desdobram na apologia da virtuosidade de movimentos com ideologias e latitudes tão díspares como as FARC (convidadas, estas, de honra em certos eventos político-partidários portugueses), a ETA, o IRA, o HAMAS, ou a própria al-Qaeda… Movimentos que usam da força e do terror contra o poder legalmente instituído e sufragado pelas populações locais. Movimentos a que o resto do planeta se habituou a apelidar de terroristas. Situação bem distinta é a negação do momento como tendo relevância histórica, até porque foi o prelúdio da República, instaurada em 5 de Outubro de 1910, data que ainda hoje é comemorada, sendo inclusive um feriado nacional.

Ora, a data – 1 de Fevereiro – foi assinalada não só pelo Senhor Presidente da República (que descerrou uma estátua de D. Carlos, em sinal de apreciação pelo seu fervor científico e ligação às actividades marítimas), como igualmente por cerca de meio milhar de pessoas que, na Praça do Comércio, em Lisboa, no preciso local onde foram assassinados o Rei D. Carlos e o Príncipe D. Luís Filipe há 100 anos.

Os militantes do Bloco de Esquerda (ou serão antes milicianos? – a lista de militantes nunca chegou ao Tribunal Constitucional, para se aferir da regularidade do Partido: leia-se, mais de 5.000 militantes) não quiseram faltar à cerimónia e estiveram também presentes na evocação do centenário do regicídio. E imbuídos do espírito carnavalesco desta época, agregaram-se em trincheiras, exibindo faixas de louvor aos regicidas e máscaras que iam de Saddam Hussein a Bin-Laden, e proclamando-se «anarquistas». Ainda assim, não perderam os seus desígnios ecológicos, pois, como foi possível verificar, optaram por reutilizar antigas faixas de utilização política onde, na parte de trás, se podia ler "Bloco de Esquerda".

A lição que daqui retiramos não é positiva: a intolerância e a ignorância, volvidos muitos anos sobre a primeira República, continuam a imperar e a grassar com cada vez maior intensidade. Não se respeita a nossa História, enquanto Nação com mais de 900 anos, nem se apegam os valores das democracias modernas. Tudo é revolucionário, reaccionário e violento… Que futuro tem Portugal na Europa democrática e no mundo que se não detém perante as nossas incertezas?…

Helder Reis