“Claro que as mulheres ganham menos que os homens. Elas são mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes”. As palavras do eurodeputado polaco Janusz Korwin-Mikke, em pleno século XXI, mostram que a luta pela igualdade de género é mais atual do que aquilo que possamos pensar e mais universal do que o que parece.
Podemos viajar até 1857 para encontrar o início de uma luta, que se prolongou ao século XX, por melhores condições de trabalho, salários baixos, excessivas horas de trabalho ou o direito ao voto. Em 1975, a Organização das Nações Unidas decretou oficialmente o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher.
Algumas das mulheres contemporâneas vestem a pele de várias mulheres e usam uma capa quase que de super-heroínas que lhes permite realizar várias tarefas diárias e quase em simultâneo. De forma a homenagear as mulheres em geral, fomos à procura de alguns exemplos que marcam a diferença a nível pessoal e profissional e que nos mostram que esta é uma luta que valeu e continua a valer a pena, todos os dias do ano.

“Valorizam a minha sensibilidade feminina no exercício das minhas funções”

“Dar” fá-la “mais feliz” do que “ter”. Talvez por isso, Daniela Esteves seja, aos 35 anos, uma das mulheres que inspira os outros a “fazerem o bem sem ver a quem”.
Em 2013, abraçou o desafio de presidir a delegação da Trofa da Cruz Vermelha, um cargo que juntou ao de diretora de recursos humanos da Clínica Parque da Cidade. No meio de uma agenda tão preenchida, Daniela José Costa Esteves Malheiro ainda tem como missão ser esposa e mãe dedicada.
Licenciada em Psicologia Clínica, Daniela assume, como quase todas as mulheres, dois lados de uma personalidade muito vincada. Diz-se “muito ambiciosa, determinada, trabalhadora e muito justa”, mas também “muito sensível e dona de uma grande generosidade”. Enquanto presidente de uma instituição considera dar um contributo “fundamental” à sociedade e julga “estar à altura de servir” e “cumprir os desígnios” a que se propôs. “Adoro dar… dar faz-me mais feliz do que ter! Vivo com um lema simples ‘quanto mais dou mais tenho’ e ‘ser feliz todos os dias’. E sou”, afirmou.
Toma decisões “de forma racional e pouco emocional” e considera ser “exemplar e implacável no trabalho”. “As pessoas esperam muito de mim. É isso que me move e orienta”, frisou.
Os desafios a que sempre se propôs, e que foi conseguindo atingir, mostram uma mulher persistente e segura de si. Talvez por isso, Daniela nunca tenha sentido na pele nenhum tipo de descriminação profissional. “Valorizam a minha sensibilidade feminina no exercício das minhas funções e nunca senti qualquer tipo de discriminação de género em toda a minha vida”, assegurou.
A presidente da Cruz Vermelha defende, no entanto, que “podem existir qualidades ou capacidades masculinas/femininas que se possam ajustar a determinados cargos/funções sem que isso determine melhor ou pior desempenho”.
Considera o papel da mulher “indispensável e determinante”, mas ser várias mulheres no corpo de uma nem sempre é fácil. “Conciliar a vida profissional e familiar é um desafio”, que “reque escolhas, cedências, compreensão, dedicação, organização e muito muito trabalho”, apontou.
Vive e dedica o Dia Internacional da Mulher à mãe, de quem sempre teve “bons conselhos e um apoio incondicional” e que sempre defendeu a sua “independência e prosperidade”. “Acho que é um dia em que deveríamos homenagear mulheres que no passado alcançaram determinadas conquistas, para que mulheres do presente e futuro possam ter condições melhores e mais justas”, asseverou.
Daniela Esteves acha que as mulheres portuguesas não se devem “render nem refugiarem na estigmatização e devem entender que o seu percurso deve estar focado não em competir com o universo masculino, mas na manutenção do papel da mulher como profissional capacitada e habilitada a desempenhar funções independentemente do domínio dos homens”. L.O.

 

Entrevista Completa

NT: Nota biográfica (dados pessoais e percurso profissional)
DE: Daniela José Costa Esteves Malheiro, 35 anos, licenciada em Psicologia Clínica, Diretora de Recursos Humanos na Clínica Parque da Cidade, casada, 1 filho.

NT: Alguma vez se sentiu prejudicada no exercício das suas funções por ser mulher?
DE: Felizmente não, pelo contrário, valorizam a minha sensibilidade feminina no exercício das minhas funções e nunca senti qualquer tipo de discriminação de género em toda a minha vida

NT: Foi difícil chegar onde conseguiu chegar a nível profissional?
DE: A dificuldade que senti foi própria da regulação do mercado de trabalho e não por questões de género. Considero-me felizarda pois desde cedo planeei o meu percurso e decidi arriscar num negócio próprio, que com muito trabalho e dedicação tem sucesso.

NT: Considera que há cargos/profissões que são mais bem executados por mulheres/homens?
DE: Considero que podem existir qualidades ou capacidades masculinas/femininas que se possam ajustar a determinados cargos/funções sem que isso determine melhor ou pior desempenho. Não acredito que o género vai determinar essa condição.

NT: Alguma vez sentiu pressão para conseguir dar a mesma atenção à vida profissional e à vida familiar?
DE: Conciliar a vida profissional e familiar é um desafio. Sobretudo para quem é extremamente exigente no desempenho dos diferentes papéis (mãe, esposa, profissional). Requer escolhas, cedências, compreensão, dedicação, organização e muito muito trabalho. Felizmente, graças ao meu marido e família tenho um excelente suporte e retaguarda que me permitem aspirar a grandes desafios

NT: Como se descreve enquanto mulher?
DE: Sou muito ambiciosa, muito determinada e muito trabalhadora, considero-me muito justa (pelo menos vivo com essa consciência). As minhas decisões são tomadas de forma racional e pouco emocional, sou exemplar e implacável no meu trabalho. Por outro lado, sou muito sensível e dona de uma grande generosidade. Adoro dar… dar faz-me mais feliz do que ter! Vivo com um lema simples “quanto mais dou mais tenho e “ser feliz todos os dias”. E sou!

NT: O que sente por ser uma mulher de relevo no seu concelho?
DE: Uma enorme responsabilidade! Abraçar uma causa desta dimensão no seio de uma organização como a Cruz Vermelha, é uma enorme missão que é diretamente proporcional à satisfação que retiro no nosso desempenho.
Sinto que tenho nas minhas mãos o dever de cumprir os desígnios a que me propus e que as pessoas esperam muito de mim. Entendo estar à altura de servir este propósito.

NT: Como vê o contributo que dá à sociedade?
DE: Fundamental. São imensos os agregados que dependem do apoio, a vários níveis, da instituição a que presido. É isso que me move e orienta! Olhar para quem carece e saber que prestamos auxílio. É essa a nossa missão!

NT: O que acha do Dia Internacional da Mulher? Como vive esta data?
DE: Acho que é um dia em que deveríamos homenagear mulheres que no passado alcançaram determinadas conquistas, para que mulheres do presente e futuro possam ter condições melhores e mais justas. Eu dedico o Dia Internacional da Mulher à minha mãe, que sempre me deu bons conselhos e sempre defendeu a minha independência e prosperidade. Incentiva-me constantemente a aspirar mais alto e é um apoio incondicional na minha vida. Esse dia passamos juntas a fazer “coisas de mulheres”.

NT: Como vê o papel da mulher na sociedade atual?
DE: Indispensável e determinante. Cada vez mais exerce um papel preponderante aumentando o seu espaço nas estruturas sociais e profissionais.

NT: O que falta às mulheres portuguesas?
DE: Não se renderem nem refugiarem na estigmatização e entenderem que o seu percurso deve estar focado não em competir com o universo masculino, mas na manutenção do papel da mulher como profissional capacitada e habilitada a desempenhar funções independentemente do domínio dos homens.