Ano 2009
Obras Municipais sem Concurso Público
O Governo aprovou um diploma de excepção ao Código dos Concursos Públicos, que permite que as obras públicas possam ser efectuadas por ajuste directo. Esta aprovação deu-se em Julho do ano passado, mas só agora é que o Conselho de Ministros, a poucos meses de “todas as eleições”, fixou o valor em cinco milhões de euros. É um valor extremamente excessivo, para as obras que podem ser adjudicadas sem concurso público. Até agora o limite era de 150 mil!.
Positivo, é o facto de este decreto, prever a redução dos prazos dos procedimentos relativos a concursos limitados de 103 dias para 41 e, no caso de anúncios enviados através da Internet, o prazo é reduzido de 96 para 36 dias. Este documento, abrange as medidas que constam do diploma “Iniciativa para o Investimento e o Emprego”, adoptado a 13 de Dezembro pelo Conselho de Ministros, que engloba a modernização das escolas, energia sustentável, modernização da infra-estrutura tecnológica, pequenas e médias empresas e apoio ao emprego.

Para além da possibilidade de existir falta de transparência nestes actos, estas alterações podem vir a prejudicar, ainda mais, um sector vital para a economia, como é a Industria de Construção e Obras Públicas, que apresenta uma quebra de 26%, na senda do que vem a acontecer pelo sétimo ano consecutivo, bem ao contrário do que pensa o Governo, que entende que só porque as Câmaras vão deixar de ser obrigadas a lançar concursos públicos para obras inferiores a cinco milhões de euros, que este regime de excepção vai revitalizar o investimento e assim fazer locomover a economia.
Em nome do combate à crise abre-se uma porta escancarada à corrupção, ao tráfico de influências, ao tratamento desigualitário, e por essa via, a um mau serviço público. É uma medida que a coberto do pretexto de desburocratização e relançamento do investimento público e da economia, vai dar muito dinheiro a ganhar aos “habilidosos” do sistema e aos que detêm o poder.
As ilegalidades em “trabalhos a mais” por ajuste directo, em obras municipais têm sido, ao longo dos tempos, detectadas variadíssimas vezes pelo Tribunal de Contas. Com esta medida, quer o Governo legalizar estas “habilidades”? Adjudicar obras sem concurso público, fomenta a corrupção! É, para todos, estranha esta decisão do Governo socialista. É verdade que a corrupção pode acontecer mesmo em concursos públicos. O problema está na transparência. Por uma questão de transparência e tratamento igualitário de todos os agentes económicos, bastaria recorrer ao concurso público, mais simplificado e célere do que acontecia até aqui.
A inexistência de um concurso para adjudicação de obras públicas não é só uma questão política. É uma questão de transparência no funcionamento das instituições públicas em Portugal. É um perigo, e por isso não é admissível, em ano eleitoral, ano de “todas as eleições”, quebrar as regras da transparência em obras públicas.
José Maria Moreira da Silva
moreira.da.silva@sapo.pt



