Sara Cabral é natural de São Mamede do Coronado e, com apenas 21 anos, deixou a sua terra para ir fazer uma das coisas que mais lhe dá prazer – ajudar os outros.

Em 2018, recém-licenciada em Fisioterapia pela antiga ESTSP (Escola Superior de Saúde do Politécnico do Porto), atual Escola Superior de Saúde do Porto (ESS), a jovem aventureira, apaixonada pela sua profissão, quis abrir horizontes e, “muito influenciada pela experiência da irmã mais velha, que também é da mesma área da saúde da mesma faculdade”, quis também ela “tirar uma gap year” e ir de Erasmus, sendo os países nórdicos a sua ambição.
“Acabei por escolher a Finlândia. E fui. Mandei-me de cabeça”, disse em tom de brincadeira, sobre aquela que foi “uma das melhores experiências” da sua vida. Durante três meses, fez a sua “mobilidade como estudante na Finlândia”, país pelo qual garante ter-se apaixonado.
“Viajei e fiz imensos colegas espetaculares e queria muito voltar ao país, portanto, voltei para Portugal, fiz a minha tese, acabei o meu curso com boas notas e percebi que tinha duas opções, ou fazia o que toda a gente faz que é procurar emprego ou continuar a estudar, ou podia seguir uma paixão e voltar para o país pelo qual eu sentia uma grande conexão, que era a Finlândia”, revelou.
Sara, que se caracteriza como uma jovem que “não gosta de seguir paradigmas” e prefere “sair” da sua “zona de conforto”, percebeu de imediato que a segunda opção era aquela com a qual se identificava.
Aliando a sua personalidade vincada à sua vontade e gosto pelo voluntariado, que já pratica desde 2014, percebeu que queria “fazer uma pausa nos estudos”, para “pensar efetivamente” sobre o que queria fazer e o que queria seguir.
“Tentei juntar tudo e fiz um serviço de voluntariado europeu de volta para a Finlândia”, explicou, acrescentando que contactou a página de associações que trabalham com serviços de voluntariado europeus naquele país. “Mandei 72 emails”, diz, para revelar que a persistência garantiu-lhe três respostas, “duas delas muito indecisas”. No entanto, “a outra foi muito rápida” e sugeria-lhe seis meses na Finlândia. Assim, em outubro de 2018, rumou ao Norte da Europa, naquela que diz ter sido “a segunda melhor decisão” da sua vida.

Esta experiência juntava-se à mobilidade de estudantes durante o seu 1.º ciclo de estudos académico (licenciatura) e ao serviço de voluntariado europeu designado European Solidarity Corps (Corpo Europeu de Solidariedade) que a jovem já tinha no currículo. No novo desafio, a missão era “trabalhar com crianças e jovens em centros de juventude”, que se organizavam em diferentes tipos de ações, disponibilizando instalações e equipamentos de forma gratuita.
“Os centros de juventude da associação onde fui acolhida são nove espalhados pelo país e, basicamente, oferecem atividades esporádicas intensivas por localidade, por exemplo uma semana sobre línguas estrangeiras, outra sobre culinária ou sobre alimentação internacional”, revelou Sara Cabral, que percebeu que, na Finlândia, os principais problemas na população jovem são “o isolamento e os conflitos interiores”. “Estes centros ajudam a evitar que tenham comportamentos desviantes, como o consumo do tabaco, drogas ou automedicação”.
Com um papel idêntico ao de uma educadora, Sara “auxiliava” e promovia “diferentes atividades com os jovens” no dia a dia. “O meu papel tanto podia ser estar num sofá e os miúdos vinham ter comigo e falavam sobre os relacionamentos com os namorados e com os amigos, porque estavam stressados e queriam fumar até fazer um bolo, como podia ‘saltar’ para a cozinha e ensinar receitas originais de Portugal e partilhar um bocadinho da minha cultura, como podia originar uma competição de Xbox ou Playstation”, recordou.
Esta diversidade de atividades, que “pode parecer muito simples”, naquela sociedade “essencial”. “Eles já sabem que aquele é o espaço para eles estarem e os pais sabem que eles estão bem entregues. O nosso papel era, simplesmente, suportar e guiar os jovens”, explicou.

Sara Cabral teve também oportunidade de lidar com jovens migrantes, oriundos da África e Ásia e a quem se prestou “a parar e ouvir o que eles tinham para dizer”. “Simplesmente, eles partiram sem nada, viram a casa deles ser destruída e fugiram com a própria roupa do corpo. Muitos deles tiveram a porta de entrada na Finlândia através da Rússia. De forma a estarem exilados, conseguiram de forma ilegal trazer a família para a Finlândia e a família suportou-se no sistema social espetacular que o país tem e através da ajuda e do apoio social conseguiram reerguer-se e estão, claramente, integrados na sociedade, falam a língua, o país em si vocaciona muito para os nossos cursos profissionais, que nós aqui, em Portugal, de certa forma desvalorizamos”, contou.
E outra das missões de Sara Cabral foi colaborar para que esses jovens fossem, devidamente, encaminhados do ponto de vista profissional.

As saunas e a festa do maior dia do ano

A Finlândia cativou a jovem de tal forma que confessa ter “gostado de tudo”. Acredita que, para ir para aquele país e conseguir entrar na cultura “é essencial ir de cabeça vazia e mente aberta”. O facto de já ter como base a experiência da sua irmã ajudou muito.
Uma particularidade que fez com que se adaptasse facilmente foi não ter sido invasiva: “O simples facto de eu não forçar entrar na cultura deles foi um grande avanço, porque fui para lá inicialmente sobre um programa de estágio, que era a minha área, ou seja estagiar como fisioterapeuta, mas tive de aprender como me relacionar com os locais. E percebi que elas são muito fechadas. Portanto, eu quando entrei lá, não impus, por exemplo, obrigatoriamente ter de tocar nas pessoas. Lá a fisioterapia funciona muito hands off, ou seja privilegia a educação e promoção da saúde. Muito ouvir e depois avaliar para uns exercícios em casa”, explicou. Uma realidade muito oposta a Portugal, em que um paciente, senta-se na marquesa e espera, automaticamente, ser tocado”.
Quando convidada para visitar a casa das pessoas, revelou que, sabendo da educação e reserva desta população, quando entrava, “tirava os sapatos à entrada e andava de meias”. “Eu fui muito na postura de olhos abertos e boca fechada e adaptei-me muito bem. Por isso, do que eu gostei mais foi, definitivamente, as pessoas. Acho que me receberam de braços abertos. Tive experiências muito boas”, revelou.
Fez muitas coisas diferentes, entre as quais viajar com couchsurfing, um serviço de hospedagem pela internet de forma totalmente gratuita.
Curiosa, perspicaz e ativa no dia a dia, Sara “mantinha contacto com todas as pessoas que ia conhecendo” e foi memorizando cada canto da Finlândia através das dicas constantes que ia pedindo. Conseguiu visitar “todas as grandes cidades”, sendo que a maioria conseguiu logo da primeira vez, quando esteve em Erasmus. “Foram cerca de 10 a 12 fins de semana que estive lá e apenas 3 deles é que estive em casa porque a minha colega de casa estava doente e outro porque a minha irmã me veio visitar”. Dezenas de horas em viagem e uma grande vontade e curiosidade de visitar o país que a apaixonou, permitiram-lhe o quase impossível. Só para visitar Rovaniemi, “a terra do pai natal”, demorou 19 horas. E logo que chegou ao aeroporto demorou cerca de “cinco horas e meia apenas para chegar ao local onde ia morar”. Este, revela, foi o seu primeiro choque, uma vez que antigamente “reclamava de a viagem Porto-Lisboa demorar três horas”. O outro foi perceber que os finlandeses são “extremamente pontuais”. “Se um autocarro sai às 05h25, está a sair às 05h25. Se chegarmos às 05h26 já o perdemos”.

O clima é um fator muito significativo para quem decide ir para um país nórdico. “O mês de novembro é muito escuro, é cinzento, chove, é dias às 10h00 e noite às 15h00. É muito escuro durante o dia. No verão, é exatamente o oposto, o sol não se põe”.
Os meses que passou na Finlândia permitiram-lhe levar histórias para a vida. Muitas delas bastante caricatas: “A Finlândia é o país das saunas. É quase um modo de viver. E para eles é, quase, critério de inclusão. Todas as casas têm de ter uma sauna. Uma das grandes tradições, é passar da sauna e irmos nadar num lago gelado, que é das melhores experiências de sempre”, testemunhou a jovem, acrescentando que “fazem-se grandes negócios na sauna, com as pessoas todas nuas”.
Outra experiência que considerou “muito gira”, foi o meet summer, que se realiza no verão para assinalar “o maior dia do ano”. No Juhannus, como é designado, “o sol não se põe durante 24 horas”. Este foi um momento que considerou “espetacular” que, no fundo, consiste em estar “numa casa de verão, à beira de um lago, como é tão tradicional e fazer o bomb fire, que é uma mega fogueira”.

O gosto por ajudar

E porque o que a move é, não só a paixão pela profissão, mas também o voluntariado, Sara começou “muito cedo” a dar do seu tempo para ajudar os outros. Rapidamente percebeu que “gostava de se relacionar com pessoas e gostava de estar envolvida em diferentes projetos, constantemente”.
Tudo começou em 2014, no clube de voleibol da Escola Secundária da Trofa, onde estudou e foi atleta. “A nossa professora tinha uma atividade todos os anos, no verão, que era fazer voluntariado nos campeonatos de voleibol de praia”, contou, sobre aquele que foi o seu primeiro contacto com a iniciativa.
Após a primeira experiência, ingressou na universidade e passou a realizar este tipo de ações, desde recolha de alimentos à campanha Nariz Vermelho.
Um dos principais projetos de voluntariado de que se recorda foi quando participou, enquanto cuidadora, “pela Associação Portuguesa de Doentes Neuromusculares”, numa ação em que “durante uma semana era a pessoa responsável por prestar todos os cuidados de saúde e higiene a pessoas com mobilidade reduzida”.
Este foi um momento de grande aprendizagem e onde percebeu que “amava” a sua profissão: “No caso, o meu paciente tinha Esclerose Lateral Amiotrófica e estava num estado bastante avançado. O meu papel era dar-lhe banho, as refeições, passear com ele e estar, constantemente, atenta durante a noite, porque se ele carregasse na campainha eu tinha de lhe prestar auxílio, porque podia haver algum problema com a máscara ou com os equipamentos auxiliares de respiração”.
Sara Cabral também se aventurou pelos festivais de música de verão. E porque quem corre por gosto não cansa, a jovem não parou e foi crescendo neste mundo: “Comecei como voluntária, passei para o festival seguinte como coordenadora de equipa e depois convidaram-me para fazer produção de voluntariado”, recordou.
Sara regressou a terras lusitanas “um bocado contrariada, porque gostava imenso de ter ficado na Finlândia”. No entanto, apesar de ter “investido muito naquele país”, percebeu que não era o mais adequado para si “por todas as questões e limitações sociais, burocráticas e económicas que o país tem”. “É muito difícil na minha área entrar naquele país, infelizmente”, revelou.
Uma das suas maiores tristezas da mamedense foi perceber que, após tanta dedicação e investimento pessoal, este tipo de experiências não é tido em conta no momento de entrar no mercado de trabalho “pelo único e simples motivo que não esteve focado na área” de estudo.
Por isso, um dos grandes objetivos para o futuro é “trabalhar para mudar mentalidades”.
“Se investisse num projeto destes seria efetivamente para reunir, capacitar, educar, ir para as escolas e associações locais, para dar a conhecer os vários projetos que há no país e lá fora e mostrar que todas estas oportunidades a que tive acesso estão abertas a todos”.

Atualmente, Sara Cabral já exerce a profissão para a qual se formou e, devido à “responsabilidade” que assume no local de trabalho e “à possibilidade de potenciar infeções cruzadas entre os utentes”, a jovem decidiu fazer uma pausa nas ações de voluntariado.

No entanto, durante a primeira vaga, ajudou a Junta de Freguesia do Coronado “a dar apoio domiciliário a casos de dificuldade social e económica, inclusive a pessoas infetadas que não podiam sair da residência e era necessário ir à farmácia dispensar medicação e ao supermercado reabastecer a despensa”.

“Neste contexto, foi-nos também entregue uma lista de contactos de adultos mais velhos residentes na União de Freguesias, em que o objetivo era sermos responsáveis por manter o contacto com as pessoas da lista, dar a conhecer este mesmo apoio domiciliário gratuito da Junta e dar ‘dois dedos de conversa’, mesmo que só através do telefone”, explicou.