Equipa de veteranos do Trofense continua a pisar os relvados de Portugal. Antigas glórias do clube alimentam a amizade e a paixão pelo futebol.

Os centímetros a mais na cintura de alguns não escondem o passar do tempo. O mesmo que, depois de os celebrizar, também os colocou na penumbra. Apesar de fazer vigorar os ecos do passado, poucos sabem da existência da equipa de veteranos do Clube Desportivo Trofense. No entanto, basta apenas invocar o nome de alguns para que um flash na memória surja. Quem não se lembra de Renato Pontes, Mateus e até de Rui Borges, que há dois anos contribuiu para a subida de divisão do clube da Trofa à Primeira Liga? Esta, foi a última aquisição do grupo, que estreou a camisola no sábado em mais um jogo amigável. Desta vez foi com o Boavista, também carregado de velhas glórias e seguido de perto pelo adepto mais conhecido do mundo do futebol: o Manel do Laço.

Hoje, a equipa não faz mais do que participar em jogos amigáveis, mas até há bem pouco tempo levava o nome do clube a torneios internacionais, inclusive o de Santarém, um dos mais aclamados eventos mundiais do escalão de veteranos.

António Cabral é o comandante da equipa e também a personagem mais antiga do clube. É graças à sua persistência que o grupo sobrevive até aos dias de hoje. “Eu resolvi abraçar este projecto, porque o futebol faz parte da minha vida e o Trofense foi o clube que me formou. Acho que faz todo o sentido não deixarmos morrer uma coisa tão saudável que é a prática do desporto. Por outro lado, é necessário o desenvolvimento da amizade”, explicou o treinador ao NT/TrofaTv.

Actualmente, devido aos “custos demasiadamente elevados”, a equipa não participa em torneios, tudo porque “não há uma base de sustentação que permita angariar fundos para a participação nessas iniciativas”. No entanto, António Cabral não vai desistir de, no futuro, tentar levar de novo a equipa a torneios que “prestigiam o futebol veterano”, mas está dependente do “apoio da direcção, se for viável”.

E mais do que representar uns “chutos na bola”, a equipa de veteranos pretende ser uma “ferramenta de valores” para os mais novos. Para além disso, o conjunto também gostava de ter mais público nos jogos em casa, que se realizam no Complexo Desportivo de Paradela. “Se estivéssemos mais próximos das camadas jovens de certeza absoluta que a empatia entre os pais traria muito mais gente aos estádios de futebol. Queremos dar um outro sentido aos veteranos, porque não é só jogar futebol que nos atrai, hoje há valores que estão comprometidos pelo actual desenvolvimento da sociedade e gostaríamos que estes miúdos que começam aqui no Trofense tivessem formação”, referiu.

Os veteranos existem há várias décadas e a aquisição da sede do CD Trofense, garante António Cabral, “foi possível graças ao trabalho e esforço dos veteranos”. O técnico espera que o projecto “não morra” e promete “fazer tudo para que a equipa fique com maior qualidade e visibilidade para servir os interesses do Trofense”.

Renato Pontes é o capitão de equipa. Já esteve dos dois lados da barricada, como jogador e como treinador adjunto. O que o faz continuar a envergar a camisola do Trofense é “o prazer de jogar”. “É aqui que encontro grande parte dos meus amigos, com eles vivi glórias e alguns momentos de tristeza. É uma espécie de recordação e de 15 em 15 dias dá para nos divertirmos”, explicou.

O grupo é como uma “família”, na qual existem discussões, mas no final “está sempre tudo bem”. Pontes confirma o “bom espírito de velha guarda” e apesar da dificuldade de se conseguir angariar jogadores com passado ligado ao Trofense, o grupo tem sobrevivido.

Para além do convívio com antigos colegas, os trofenses podem ainda jogar contra velhas glórias do futebol português. “No caso do Boavista temos aqui o Nel e uma série de jogadores que já jogaram no Porto, no Leiria. Existe este convívio que é salutar, é refrescante e recorda-nos a nossa juventude”.

Não nos devemos esquecer das grandes vedetas”

Sempre atento à realidade do clube do coração, Manel do Laço, o emblemático adepto do Boavista, também acompanhou os veteranos até à Trofa. Não se coibiu de dar uma espreitadela ao jogo de uma das camadas jovens do Trofense e de dar uma entrevista ao NT/TrofaTv envergando um cachecol do clube adversário. Para Manel do Laço, o escalão de veteranos devia ser uma realidade em todos os clubes de Portugal. “É com tristeza que vejo que há certos clubes que não apoiam. Não nos devemos esquecer das grandes vedetas, que já passaram pelos estádios portugueses. Enquanto puderem jogar, devem fazê-lo, porque dá saúde e alimenta a amizade”, referiu.

O homem que ajuda pessoas a atravessar passadeiras, a entrar no autocarro e a carregar os sacos das compras considera que o “fair-play” devia vigorar no desporto, “porque o futebol foi feito para perder, ganhar e empatar”. “Quando isso for uma verdade no futebol, de certeza que teremos estádios mais cheios”, garantiu.