Infelizmente, em Portugal, somos obrigados a estabelecer uma ligação entre calor e incêndios.

O que, em tempos não muito longínquos, era sinónimo de férias e lazer, começa a significar calor excessivo e incêndios.

  Nos últimos anos, talvez aí uns 20 anos ou um pouco mais, a praga dos incêndios não nos tem largado, a ponto de quase todos sermos já indiferentes a esta praga.

 Por um lado, têm aparecido cada vez mais pirómanos que, a troco de favores ou valores ridículos, se prestam a incendiar uma das nossas maiores riquezas naturais e, por outro lado, motivos fúteis e perfeitamente ultrapassáveis, têm lavado a que vinganças e outras atitudes mesquinhas conduzam as pessoas ás florestas para as incendiar.

Há também os pirómanos de cultura: aqueles que gostam do fogo e de todo o aparato que envolve o combate aos incêndios.

A quantidade de condenados em tribunal não pára de aumentar.

Mas há outros factores culturais muito enraizados nas pessoas que aumenta consideravelmente o risco de incêndios. As pessoas aprenderam que queimar limpa e não lhes ocorre que queimar suja o ar e que não podem escolher o ar que respiram.

Assim, tudo se queima.

Queimamos para nos libertarmos dum monte de coisas que ocupam muito espaço; queimamos o lixo; queimamos para desinfectar, etc., a passamos o tempo a sujar o ar. Pior do que isso, ao queimarmos, estamos a libertar os fumos para a atmosfera que, para além de sujar o ar, aquece-o.

O efeito estufa mais não é do que o conjunto desses gases que prendem o calor impedindo que este escape para as camadas superiores da atmosfera e aí arrefeça.

Dizem especialistas que, se deixássemos de libertar dióxido de carbono para a atmosfera, a temperatura continuaria a subir até ao fim do século XXI em média 2 a 5 graus por causa das reacções químicas que já não é possível evitar dos gases que foram largados para a atmosfera nos últimos anos.

O mais grave é que a produção de dióxido de carbono não tem parado de aumentar no presente.

Os hábitos de consumo actuais provocam cada vez maior produção de gases com efeito estufa e não parece que, tão cedo, haja alteração.

Em consequência, as temperaturas são cada vez mais elevadas, aumentando a secura nas florestas e, consequentemente, os riscos de incêndios.

Estes riscos aliados aos hábitos de queimar tudo, que se verifica na sociedade, terão efeitos devastadores nas condições de habitabilidade do Planeta.

Serão necessários muitos anos de formação e de sensibilização das pessoas para as convencer que os erros se pagam muito caros e que os graves problemas climáticos que têm assolado várias regiões do globo chegarão cá.

Além da possibilidade de tempestades violentas, o nosso país corre sérios riscos de desertificação, que já se iniciou e alastra de sul para norte.

Este ano, com o prolongamento das temperaturas amenas até há poucos dias, é de prever que o número de incêndios possa descer acentuadamente mas, pela amostra destes dias, com temperaturas muito próximas dos 40 graus centígrados, e tendo ultrapassado os 40 graus nalgumas zonas do centro e sul, não há motivos para respirarmos de alívio: ainda falta muito tempo para acabar o Verão e é de recear o Outono, quando está tudo seco e as temperaturas podem manter-se elevadas.

O nosso comportamento será decisivo para o futuro. Sem o nosso empenho em mudar hábitos errados, o esforça dos bombeiros poderá ser inglório para salvar o nosso património económico e ambiental.

Somos nós que teremos que decidir o que queremos do nosso futuro.

 

 

 

Afonso Paixão