Em entrevista ao NT, Nuno Lima, gerente da Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas do Trofense, reconheceu que a época “foi completamente falhada” e anunciou a realização de uma assembleia-geral para que os sócios debatam a atual situação do clube.

Esperavam esta descida de divisão?
Nuno Lima (NL): Obviamente que não. Dentro de um contexto de redução orçamental e de elevadas dificuldades financeiras, planeamos e projetamos esta época com todo o rigor, onde os objetivos eram assegurar a manutenção, fazer um campeonato mais tranquilo e potencializar jogadores para o mercado de negócios. Contudo, os resultados e estatísticas revelam uma época completamente falhada a todos os níveis: a nossa equipa ficou em último lugar da tabela classificativa, somou apenas 36 pontos e ficou a 13 pontos da manutenção. Temos de assumir todas as responsabilidades, eu especialmente enquanto responsável pelo futebol profissional, que são extensas de forma direta e indireta a todos aqueles que fizeram parte deste projeto. É legítimo os sócios do clube fazerem avaliações, críticas e considerações com base nos resultados e classificações, mas era importante conhecerem as nossas limitações e condições no momento e contexto em que tivemos de tomar decisões. Para esse efeito, e dentro das minhas responsabilidades, estou e estarei disponível para prestar esclarecimentos aos sócios, quer seja em assembleias, em reuniões solicitadas ou em abordagens informais.

NT: O que falhou esta época para que o Trofense não se conseguisse manter nos campeonatos profissionais?
NL: Olhando para o resultado final da nossa desastrosa campanha é muito fácil encontrar falhas e apontar dedos, mas fizemos tudo o que estava ao nosso alcance fora do campo para que dentro do campo os resultados e rendimentos fossem outros. Dando seguimento ao excelente final de campeonato da época 2013/2014, asseguramos a continuação da equipa técnica liderada pelo Porfírio Amorim e construímos em conjunto um bom plantel, mantivemos quase todos os jogadores importantes da época anterior, as referências Tiago e Hélder Sousa, mais o Diogo Freire, Ricardo, Tiago Portuga, Nani, Rateira, André Viana, Jorge Inocêncio e Brayan Riascos. Promovemos quatro jogadores da formação com enorme potencial e depois contratamos nove jogadores dentro de um perfil de qualidade e de capacidade para gerar negócios. Os resultados do início de época confirmaram as nossas expectativas, estávamos a construir uma boa equipa. Depois, vieram as contrariedades, castigos e lesões, e a equipa foi perdendo qualidade até afundar-se na última posição no final da primeira volta. Alguns dos reforços não tiveram a adaptação e o rendimento esperado e a equipa revelou a face mais negativa. Precipitamos a mudança da liderança técnica na 19.ª jornada, porque sentíamos que mesmo assim a equipa podia dar e produzir mais. No mercado de janeiro contratamos a equipa técnica liderada por Vítor Campelos e 11 novos jogadores. Fizemos um esforço brutal para acrescentar mais experiência e qualidade à nossa equipa. Reequilibramos o plantel e aumentamos as opções para uma segunda volta exigente, onde tínhamos de recuperar de uma desvantagem de sete pontos. Tivemos um efeito positivo com a chegada dos reforços e chegamos a diminuir a desvantagem para quatro pontos, na 29.ª jornada, quando ainda havia 51 pontos em disputa. A equipa, nessa fase, revelou enormes capacidades e argumentos para dar a volta à situação. Olhando para o que faltava jogar, o calendário dos jogos fora era muito difícil (deslocações a Feirense, Covilhã, União da Madeira, Porto B, Guimarães B, Portimonense, Chaves e Aves), pelo que era essencial conseguir um excelente registo de vitórias nos jogos em casa (Leixões, Sporting B, Oriental, Beira Mar, Farense, Olhanense, Santa Clara e Freamunde). Efetivamente, o nosso grande problema esteve nos jogos em casa onde somamos poucos pontos. Nessa fase, a equipa era organizada e batia-se bem, mas não tinha eficácia e dinâmicas ofensivas que conseguem traduzir o jogo da equipa em golos, faltou poder de fogo. Para além dos esforços na parte desportiva, conseguimos dar estabilidade e todas as condições aos nossos profissionais até ao início de abril. Acreditávamos que isso podia fazer a diferença com as equipas que tinham vários meses de salários em atraso e que viviam muitas dificuldades e instabilidade. Para nossa total frustração, isso não se verificou. O rendimento individual dos jogadores e o rendimento coletivo da equipa deixaram muito a desejar. Sobretudo, revelamos uma enorme falta de capacidade para justificarmos resultados positivos. Continuamos a achar que a nossa equipa tinha qualidades e recursos suficientes para conseguir a manutenção, mas faltou-nos competência.

NT: A aposta no treinador Vítor Campelos foi uma má aposta?
NL: A resposta a esta pergunta tem de estar diretamente relacionada com resultados conseguidos entre 24.ª e 40.ª jornada. Quando pegou na equipa, estávamos a sete pontos da linha de água e no final do jogo com o Vitória de Guimarães ficamos a 13 pontos. Acreditamos que fez de tudo o que estava ao seu alcance para ajudar, mas os resultados não foram os esperados e desejados.

NT: Com a descida como vão preparar a próxima época do clube?
NL: É um tema sensível e que à data de hoje ainda não tem muitos desenvolvimentos. A descida de divisão encerra um ciclo de nove épocas de futebol profissional, pelo que teremos necessariamente de abrir um novo ciclo, com uma nova realidade, com novas ideias e com novas soluções. Estamos a trabalhar para encontrar soluções para os vários problemas que temos no Clube. Logo que seja possível, convocaremos os sócios para uma assembleia onde debateremos a atual situação do clube.

NT: Quais as possibilidades que o clube tem para fazer face aos compromissos mensais assumidos estando agora num escalão onde não há receitas televisivas?
NL: É um facto que perdemos as receitas televisivas, mas numa proporção ainda maior também não teremos os custos de uma época de futebol profissional. O esforço financeiro para participar num Campeonato Nacional de Seniores é bem inferior ao esforço que temos vindo a fazer para assegurar a participação do Trofense na 2.ª Liga. Mas como já referi anteriormente, estamos a trabalhar para encontrar soluções para uma nova realidade. O principal problema do clube nas últimas nove épocas foi sempre o mesmo, custos e despesas superiores a receitas. Esta despromoção desportiva não agrava a delicada e preocupante situação financeira do clube. Será mais um assunto para a próxima assembleia.

NT: Qual o passivo do clube neste fim de época?
NL: É certo que teremos um passivo a acrescentar no final desta época, sobretudo em virtude do não pagamento das receitas vindas da Liga, prémios da Taça da Liga e patrocínio da 2.ª Liga, mas ainda estamos apurar as contas e finalizar processos de recebimento.

NT: Teme que a descida de divisão afaste os patrocinadores que habitualmente apoiam o clube?
NL: É uma realidade dura, mas nenhuma empresa ou marca gosta de estar associada a um projeto não vencedor. O apoio dos patrocinadores é fundamental para a sustentabilidade do clube, pelo que teremos que encontrar formas de motivar as pessoas e empresas a continuar a colaborar. É nos momentos mais difíceis que se tem a perceção da grandeza dos clubes e das instituições. Temos um exemplo bem aqui ao lado, onde foi possível reerguer das cinzas um clube condenado. O concelho de Famalicão e as suas forças vivas uniram-se em torno de um objetivo e juntos conseguiram alcançar o sucesso.

NT: Como é que os investidores reagiram à descida de divisão?
NL: Esta direção vive sentimentos de completa frustração, pois para além de ter falhado os objetivos desportivos, também não conseguiu dar o retorno ao investimento feito pelo grupo de investidores liderado pelo Dr. Rui Silva. Conseguimos motivar e desafiar o Dr. Rui Silva a olhar para esta época como uma oportunidade de negócio a curto/médio prazo e o investimento que conseguiu fazer no clube, juntamente com o grupo de investidores, foi fundamental para numa primeira fase assegurar a participação do Trofense nesta época e numa segunda fase para dar estabilidade ao grupo para conseguir os melhores resultados. Empenhou-se de forma pessoal, moveu esforços para conseguir apoios e não merecia de forma alguma este desfecho de época. Cumpriu na íntegra o acordo estabelecido com esta direção e só temos que agradecer o seu apoio. Aliás, todos os trofenses devem ter a consciência que estas nove épocas de futebol profissional, com uma histórica e memorável participação na 1.ª Liga, só foram possíveis com a preciosa, fundamental e desinteressada ajuda do Dr. Rui Silva e da sua família. Neste encerrar de ciclo, é de inteira justiça demonstrarmos sentimentos de enorme gratidão para a família Silva. Naturalmente, esta época foi uma grande desilusão para o grupo de investidores, mas acreditamos convictamente que o Dr. Rui Silva e a sua família farão sempre parte da solução.

NT: Falhados os objetivos da época, esta direção tem condições para continuar à frente dos destinos do clube?
NL: De facto, falhamos os objetivos desportivos da época, temos de assumir as nossas responsabilidades, mas consideramos ter condições para continuar. O clube foi a eleições em junho de 2014 e os sócios votaram favoravelmente com larga maioria o nosso projeto. As pessoas que lideram o clube e o futebol profissional são as mesmas que conseguiram resultados positivos nas épocas 2012/2013 e 2013/2014. Conseguimos dar viabilidade ao clube através da aprovação do plano de recuperação, mas lutamos constantemente por encontrar soluções que garantam a sustentabilidade financeira. Teremos condições para continuar até ao dia em que não tivermos soluções para os problemas.