Em entrevista ao NT, o presidente da Savinor, João Pedro Azevedo, falou sobre a empreitada para resolver a questão dos odores, através da eliminação das lagoas.

O Notícias da Trofa (NT): A Savinor é apenas uma das unidades industriais do Grupo Soja Portugal. Pode fazer-nos uma pequena caraterização das atividades empresariais a que se dedica ao grupo (faturação anual e outros elementos económicos que considere relevantes) e enquadrar a aquisição e tipologia da unidade industrial Savinor, instalada no concelho da Trofa?

João Pedro Azevedo (JPA): A Soja de Portugal é um grupo económico que desenvolve negócios na área agro-industrial, privilegiando áreas de negócio geradoras de sinergias que sejam fonte de vantagem competitiva. Hoje em dia o grupo tem cinco áreas de negócio com forte presença na indústria. Temos as rações para avicultura e pecuária, que é negócio com maior antiguidade dentro do grupo. Estamos presentes nos alimentos compostos para aquacultura, sobretudo nas espécies como o robalo, dourada, salmão, truta, esturjão, camarão e pregado. Na área de alimentação animal estamos também no pet food ou seja, na produção de alimentos completos secos para cães e gatos. Depois temos a área de alimentação humana, onde predomina a produção, abate e distribuição de carne de aves, sobretudo de frango e peru. E por último temos o negócio do tratamento e valorização de subprodutos de origem animal, tanto de carne como de pescado. Para lhe dar alguns números, a área de alimentação animal representa um volume anual de vendas de cerca de 95 milhões de euros, a carne de aves anda nos 70 milhões de euros e o tratamento e valorização de subprodutos uns 10 milhões de euros. O mercado internacional tem sido o grande motor de crescimento nos últimos anos. Na área de rações para pescado o mercado externo representa cerca de 85% das nossas vendas e na valorização de subprodutos as exportações caminham para 50% da nossa actividade, quando há 3 anos atrás eram absolutamente residuais. No pet food, construímos uma nova fábrica que arrancou em Novembro do ano passado e cujo objectivo é servir o mercado externo, sobretudo Espanha.

A aquisição da Savinor no final de 2006 foi um passo natural na nossa estratégia. Permitiu-nos consolidar a nossa posição no mercado de carne de aves, comprando o único matadouro de aves a norte do rio douro, e uma marca fortissimamente implantada no retalho tradicional na zona noroeste de Portugal, sobretudo no canal de talhos e restaurantes. Por outro lado permitiu-os entrar no negócio de tratamento de subprodutos, o que para nós cumpriu um duplo objectivo. Por um lado, por via da nossa presença no mercado de carne de aves, em que abatemos cerca de 23 milhões de frangos e 520.000 perus anualmente, temos uma significativa produção de subprodutos que precisam de ser tratados e valorizados. Por outro lado, através das nossas unidades de negócio de alimentação animal, sobretudo nas áreas de pet food e fish feed, somos grandes consumidores de produtos e matérias-primas que resultam dessa valorização, como é o caso das gorduras e farinhas animais, farinas de peixe e óleos de peixe. Fechamos completamente o ciclo, apropriamo-nos do valor criado nas várias fases do processo e garantimos uma rastreabilidade total, o que no mercado da alimentação é fundamental.

NT: A Savinor quantos funcionários tem à data desta entrevista?

JPA: Na Trofa temos colaboradores de pelo menos 4 empresas do grupo, da Savinor, Avicasal, SPA e da própria Soja de Portugal. Na Trofa, temos hoje mais de 230 colaboradores. No grupo, somos mais de 665.

NT: Muita tinta correu sobre a empresa Savinor e nem sempre por bons motivos e ainda antes de a empresa fazer parte do Grupo Soja Portugal. Neste momento e com a assinatura do protocolo, quais as mais-valias para a empresa e para a população do concelho da Trofa e de outros limítrofes?

JPA: É verdade, mas desde que assumimos a gestão da Savinor foram feitos fortíssimos investimentos a todos os níveis, sobretudo nas matérias que assumiam um impacto mais negativo em termos de visibilidade pública. Em boa-fé e assumindo como pressuposto que a memória não se desvaneceu, é impossível não reconhecer uma fortíssima melhoria. Quanto ao protocolo, é mais um passo importantíssimo para a Savinor nesse caminho. Com a assinatura do protocolo poderemos eliminar as lagoas da ETAR, que estão identificadas por todas as entidades publicas competentes na matéria, ARH, CCDRN, APA e pela própria Câmara Municipal da Trofa, como a principal fonte de odores existente. Essa é uma mais-valia inquestionável. Por outro lado, com a construção de sete quilómetros de intercetor, também iremos permitir o acesso a saneamento básico a determinadas populações que até aos dias de hoje não têm acesso.

NT: Qual o prazo de execução da empreitada? Têm certeza de que será suficiente para resolver a questão dos odores a eliminação das lagoas?

JPA: Teremos três meses para fazer a imediata ligação ao interceptor, remoção de lamas e aterro das lagoas. Depois, teremos 15 meses para terminar a empreitada. Não é muito tempo dada a complexidade do projecto, mas é perfeitamente exequível.

Se temos a certeza que vai resolver o problema dos odores? Temos a certeza absoluta que iremos eliminar a principal fonte de odores, que são as lagoas e que ainda hoje representam uma exposição de 4.000 m2 de água proveniente do tratamento dos subprodutos e que está totalmente exposta ao meio ambiente. Com a conclusão do processo a exposição será insignificante, serão umas dezenas de metros quadrados. Depois, todos os nossos sistemas de produção têm captação dos gases, das emissões fixas e difusas, para uma unidade de tratamento de ar, em que através dum sistema caro e complexo fazemos a desodorização dos gases. Temos as melhores tecnologias disponíveis e trabalhamos todos os dias para aplicar as melhores práticas e metodologias de trabalho. E todos na Savinor sabem o enorme grau de exigência que aplicamos no cumprimento. Não cumprir as regras pode implicar um processo disciplinar e eventual despedimento. Agora temos que perceber que a Savinor vai continuar a tratar 4000 ou 4500 toneladas mensais de subprodutos que são gerados por dezenas de indústrias e montante e em que nós não controlamos o estado de degradação em que os subprodutos chegam à Savinor. Tratamos o que nos entregam para tratar, fazemos um trabalho que é reconhecido como serviço público, que todos reconhecem, que é fundamental para a saúde pública e salubridade do ambiente, mas que naturalmente ninguém quer ter à porta de casa. Nestes casos, cumpre-nos minimizar o impacte. E não temos nenhum sistema tecnologicamente infalível, podem surgir avarias com impacto na eficiência do sistema de lavagem de gases.

NT- Quais os motivos pelos quais passaram tantos anos até que fosse possível a assinatura deste contrato?

JPA: Era preciso equilibrar diversos interesses, nomeadamente o cumprimento da legislação ambiental atual e futura, a sustentabilidade económica da solução e a responsabilidade social, que neste caso se consubstancia na eliminação das lagoas para eliminar a principal fonte de odores. Naturalmente que as diferentes partes envolvidas no acordo não valorizam estes diferentes aspectos da mesma forma e isso não facilita termos uma visão comum, o que é essencial para chegarmos a uma conclusão, que pode não ser excelente para ninguém, mas que é aceitável para todos. E claro, nem sempre o sentido de urgência esteve presente nem o ritmo de trabalho foi o que devia ter sido.

NT: Quando começaram as negociações com a Câmara da Trofa para se resolver o problema?

JPA: Assim que assumimos a administração da Savinor fizemos de imediato uma aproximação à Câmara, penso que em final de 2006 ou em 2007. Havia um Protocolo de 2005, que no entender da anterior administração da Savinor, desobrigava completamente a empresa de qualquer tipo de investimento na ligação à ETAR de Agra. Havia portanto uma paralisação total do processo e um impasse e nós resolvemos dar um primeiro passo para desbloquear o processo. E fomos na altura bem acolhidos pelo Sr. Eng António Pontes, que deu início ao processo.

NT: A Savinor apesar de criticada por alguns tem desenvolvido um trabalho de grande proximidade quer com as escolas e associações locais, quer no apoio a causas sociais? Este lado da responsabilidade social da empresa que importância tem para a administração e colaboradores?

JPA: Sim, tem efetivamente muita importância e é algo que fazemos em todas as comunidades escolares próximas das unidades industriais onde desenvolvemos actividade, sobretudo na Trofa, em Ovar e em São Pedro do Sul. Não o fazemos simplesmente por altruísmo. Fazemo-lo porque acreditamos que nenhuma organização consegue sustentadamente desenvolver uma actividade, crescer, continuar a criar valor, sem estar plenamente integrada na comunidade onde está inserida. Para atrair e reter talento, para conquistarmos bons parceiros de negócio, para estabelecermos pontes na rede de inovação, é fundamental tornarmos a nossa organização atractiva. E esse trabalho nas escolas permite-nos não só preenchermos algumas lacunas que o sistema de ensino actual apresenta, mas também darmo-nos a conhecer à sociedade, mostrar a cara e falar com as pessoas, criando uma percepção mais aproximada do que realmente somos.

NT: As campanhas de sensibilização ambiental junto da comunidade têm sido desenvolvidas pela Savinor e têm sido bem acolhidas nomeadamente pelas escolas do Coronado. Acredita que esta vossa atitude esteja a ajudar a formar os cidadãos de amanhã, que serão responsáveis pelo futuro do concelho da Trofa, do país e do mundo?

JPA: Acho que sim. Basta seguir o trabalho fantástico que tem sido feito nas escolas da Trofa, pelos alunos e pelos professores, e atentamente seguido pelos pais, para percebermos que não estamos a dar tiros de pólvora seca. Há entusiasmo nos miúdos e uma sensibilização que é inegável e que me surpreende sempre. E isso dá-nos uma força enorme para continuar e reforçar o nosso programa de educação ambiental.