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Edição 738

Sissi do Alva lança romance para cumprir “sonho”

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É conhecida pela dança e pelo projeto que construiu – a Academia Alva -, mas quer singrar agora numa nova área: a literatura. A trofense Sílvia Cruz, conhecida no meio artístico por Sissi, lançou o livro que marca a estreia como escritora e que já está disponível para aquisição no site da editora Cordel d’Prata e respetivos distribuidores.

Aquando da entrada do livro para venda, Sílvia revelou ver “um sonho desde sempre” tornar-se “uma realidade”.

“O Sabor dos Teus Lábios” é o epíteto do romance, que conta a história de Beatriz, uma mulher rica, poderosa e independente, que acaba divorciada, solitária e mãe. “Não somos nem podemos ser todos iguais, mas podemos e temos o direito de mudar” é a mensagem que a escritora pretende transmitir com a obra.

Nascida na Bretanha, em França, Sílvia Cruz começou desde cedo o seu percurso no mundo das artes de palco, passando pela música, teatro e dança. Veio para Portugal com 15 anos, onde continuou a sua formação artística, dando corpo ao projeto da Academia Alva, sediada na freguesia do Muro.

Licenciada em Filosofia, pela Universidade do Porto, através da qual pôde alimentar o fascínio pela leitura e escrita e debruçar sobre temas que a inspiram, como a metodologia da Saudade. A trofense pretende que a sua escrita envolva o leitor na reflexão sobre o sentido da vida, na avaliação da importância das relações e, sobretudo, nas mudanças que se podem fazer no presente para não perder o futuro.

O Notícias da Trofa (NT): Quando nasceu o gosto pela escrita? Porque decidiu lançar-se nesta área nesta altura? A pandemia influenciou de alguma maneira?
Sílvia Cruz (SC):
Eu nunca fui uma aluna brilhante mas, enquanto estive emigrada em França eu lembro-me de ser a melhor nas composições. Sempre gostei de escrever, porque sempre gostei do mundo da imaginação e sempre tive gosto para criar. Parece que não, mas esse gosto sempre me acompanhou mesmo na minha vida artística, uma vez que escrevi as peças do ALVA, as letras de músicas, etc… Quem me conhece sabe que adoro escrever e que sempre previ um dia começar uma carreira na literatura. Eu já tentei várias vezes escrever… mas nunca levava a cabo a tarefa: o trabalho, os filhos, os projetos pessoais, os horários loucos, nunca conseguia dedicar-me até ao final e acabava por eliminar os ficheiros. Quando veio o primeiro confinamento, no início passei por uma fase muito difícil… tal como todos. Estávamos todos numa fase muito estranha e traumatizante e a escrita foi uma fuga e mais uma oportunidade para continuar a fazer o que gosto, mesmo que não seja a dançar: criar algo. 

NT: Esta é a primeira experiência literária ou já teve outras? 
SC:
Sou licenciada em Filosofia e, na altura, escolhi a vertente ética e política – só apenas com isto posso dizer que tive de escrever muito. Nunca tive blogues, mas já concorri num concurso com um conto infantil e, tal como disse anteriormente, sou eu quem escrevo as peças que o ALVA apresenta.

NT: Como caracteriza a sua identidade literária, que ajuda a dar corpo a esta história?
SC:
Eu gosto muito do género romance e acho que vou ficar por aqui. Nesse contexto sinto-me mais livre para desenvolver as minhas ideias e reflexões. 

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NT: Quer transmitir alguma mensagem com esta história?
SC
: O livro ‘O Sabor dos teus Lábios’ é a história de uma mulher que sempre lutou para ser bem sucedida profissionalmente e, de repente, com 42 anos, realiza que nunca teve tempo para se dedicar a si própria, ao amor, ao seu filho… Vários acontecimentos a farão realizar das suas fraquezas e mudar sem ela própria se aperceber. 

NT: Tem outras obras literárias em construção ou idealizadas? Pretende concretizá-las?
SC:
Conto fazer isso até ao final deste ano!

NT: Vai promover alguma atividade de lançamento da obra? Se sim, já há data definida?
SC:
Adiei a notícia desta minha novidade durante algum tempo, porque queria ter a oportunidade de fazer um lançamento físico, uma festa rodeada de gente! Infelizmente, a situação da pandemia impossibilita tal e não estamos numa altura de fazer planos, por isso, ainda não tenho data definida. Todavia, vamos trabalhar online na promoção do livro num primeiro momento. Também já surgiram algumas propostas para a divulgação que vou aproveitar… ainda sem datas por enquanto.

NT: Como é que o público pode ter acesso à obra?
SC
: Para já, o livro está na loja on-line da minha editora Cordel de Prata! cordeldeprata.pt

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Edição 738

Memórias e Histórias da Trofa: Mudanças na Feira Semanal da Trofa

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A realização de feiras é uma tradição secular no nosso país, a concretização daquele tipo de eventos numa localidade era sinal de progresso e dinamismo económico e também social num patamar mais secundário.

Não existindo os meios atuais para as trocas comerciais esta era a solução mais fácil de as realizar, como também na referida fase inicial era comum a vinda de mercadores de zonas longínquas para aquelas atividades.

As feiras no território da Trofa são intemporais, sobretudo aquelas que eram realizadas em S. Mamede do Coronado que são em idade superior às de S. Martinho de Bougado, demonstrando a vitalidade daquela localidade em tempos idos, enquanto a da Trofa deve-se sobretudo enaltecer a postura de D. João VI que percebeu que este burgo já necessitava da realização deste tipo de equipamentos.

Os anos foram passando e a feira atingiu um importante ponto de crescimento, demonstrando a importância destes eventos para com a localidade e em 1900 eis que a feira que se costumava realizar quinzenalmente e apenas aos sábados no local do terreiro da Capela da Senhora das Dores e no espaço envolvente iria passar se a realizar todas as semanas e também ao domingo, uma medida incentivada pelo poder local da Câmara Municipal de Santo Tirso.

Uma feira que segundo as crónicas tinha a visita de vários clientes e vendedores de outros pontos geográficos além da cidade da Trofa, continuando a demonstrar a importância económica que tem vindo a ser descrita nestes parágrafos.

Por último, uma pequena curiosidade para si estimado leitor que esta é a crónica 100 desta rúbrica que já o acompanha desde 2015…

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Edição 738

Escrita com Norte: “Acontece”

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O meio era pequeno, com o tempo cresceu, e as famílias eram grandes, com o tempo “encolheram”, e todos se conheciam (agora também, sem saberem quem são). E conheciam-se tão bem, nesse tempo, que na rua todos pareciam irmãos e mesmo daqueles de quem não se gostava, gostava-se de uma forma peculiar, dando bênção à sua existência por tornar a vida mais emotiva!

Lá, como em todos os outros sítios, as brincadeiras na rua e a fome eram normais, como agora a “fome” pela exposição, e os jovens desta altura, na maioridade, recebiam uma carta de embarque em vez da de condução.

Claro que quando chegava a altura do, “Adeus até um dia, porque eu vou para África”, os Maneis, os Antónios, os Chicos, os Josés, os Gustos, os…, já tinham descoberto há muitos anos que eram diferentes das “Marias”, apesar de estas lhes parecerem iguais no tempo das brincadeiras de rua, e todas estas diferenças que excitavam os rapazes eram discutidas com entusiasmo, mas sem o mesmo ardor que o futebol, nos únicos cafés que havia, o “São Martinho”, o “Dom Pedro V” e o café “Himalaia”.

A despedida era longa, por norma dois anos, e a viagem de barco demorava semanas. Um jovem criado em “Democracia” compreende o conceito de que, “Já que a viagem é longa, convém prolongar a estadia.”, e no regresso, isto para quem regressava, vir inteiro era a maior das sortes (cicatrizes de estilhaços e de balas não contavam). Ter os dois braços, as duas pernas, apesar de manco, e os dois olhos, mesmo com a vista diminuída, era um ser perfeitinho que a mãe recebia, trazido por uma cegonha de África em vez de Paris, era o renascimento do filho, com direito a noites mal dormidas pelos pesadelos do adulto petiz!

Estes dois anos de ausência atiçavam e confundiam os sentimentos das pessoas da terra. A Inês que não suportava o Manel, com a ausência deste na Guiné, pensava que o amava; a Manuela que gostava do Mendes, apaixonou-se pelo Carlinhos, fugido para França, porque o primo deste esteve em Angola; o Vasco, que não gostava da sua madrinha de guerra, sentiu um peso desumano no coração pelo Toni, regressado sem glória de Goa; e a Tininha, que ainda não sabia que gostava do Gusto!

Gusto retomava os hábitos deixados dois anos antes, quando partiu para o Ultramar.

Depois do trabalho, numa Companhia de Seguros, frequentava o café “São Martinho”, onde encontrava os amigos e conhecidos, que lhe gabavam o jeito para o bilhar livre (cheguei a vê-lo jogar, quando começava ele a partida, o adversário era tão assistente como eu, chegando a não dar uso ao taco). No final, o percurso costumeiro, de postura altiva “desfilava” até casa, falando com quem aparecia às janelas.

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  • Olá Tininha! És tão bonita! Se não fosses tão novinha casava contigo!
  • Oh! – respondia a Tininha com uma interjeição e fugia para dentro de casa, refugiando-se na mãe. – Ó mãezinha, o Gusto da Dona Quinhas é que é um chato! (imagino o sorriso terno da mãe).
    Gusto seguia caminho e mais frases como esta iria dizer em cada janela onde estivesse poisada uma rapariga.
    Devido ao aprumo exigido pela sua actividade profissional, mandava fazer, por ano, quatro fatos à medida. Sempre impecável subia a rua do café até casa, onde Tininha o esperava para ouvir um piropo, para gostar cada vez menos dele – Oh mãezinha, o Gusto da Dona Quinhas é que é um chato! – até que um dia, Gusto sobe a rua com um fato novo, azul marinho:
  • Olá Tininha, estás muito…
    Sem deixar acabar, da janela, Tininha vira costas e vai ter com a mãe.
  • Ó mãezinha, o Gusto da Dona Quinhas é que é bonito! (imagino o sorriso terno da mãe).
    Desde então, Tininha, com a sua sobrinha ao colo, esperava que Gusto passase, pedindo à criança para deixar cair um fio, não fosse Gusto passar distraído, garantindo assim momentos de conversa.
    Certo dia, sem a sobrinha, Tininha desce ao pátio e na passagem de Gusto pergunta-lhe se viu o Pluto, o cão da família.
  • Ele está atrás de ti! – responde, deixando-a corada.
    Achando a cena engraçada, em concordância, envergando o seu fato azul marinho, diz uma piada – Um dia havemos de casar!
    Dias depois, no café, todos lhe deram os parabéns e ao passar debaixo da janela da Tininha, esta diz-lhe – Gusto, vamos casar em Março!

Com um simples fato azul marinho, Gusto comprometeu a sua vida, a 24 de Março de 1973!

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