Sou um dos que se recusa a aceitar que os portugueses são menos capazes que os nossos congéneres europeus. Mas a realidade estatística confirma o atraso na maioria daqueles que são os critérios de avaliação do índice de desenvolvimento. Mesmo alguns dos mais recentes membros da União Europeia já apresentam resultados significativamente mais positivos que os de Portugal.

   Não me conformo com a habitual desculpa de que a nossa posição geo-estratégica, dita de periférica, é a causa maior para todo este atraso estrutural. Considero mesmo falacioso este argumento, uma vez que, ao invés, a nossa sobranceria atlântica poderá ser mesmo uma vantagem a potenciar. A prová-lo está a memória guardada pelos manuais da historia daquele que foi o período de ouro deste povo, que ousou, pela mão da ínclita geração, olhar o mar não como barreira, mas como um canal privilegiado de aproximação entre povos, culturas e economias.

Também não considero razoável a desculpa dos longos anos de opressão provocados pela ditadura. Não porque não considere os efeitos maléficos desse período na sociedade, mas sim pelo facto de, passados mais de 33 anos sobre o 25 de Abril, não podermos continuar a culpar a "velha senhora" por tudo aquilo que nos possa correr menos bem hoje em dia. Aliás, o nosso vizinho espanhol viu a luz da democracia despontar depois de nós e todos somos unânimes em considerar que a Espanha é hoje um dos gigantes da economia europeia e mundial.

Como inconformado que sou, também não posso aceitar as desculpas deterministas de que nós somos assim, sempre fomos assim, e, como latinos que somos, sempre seremos assim. Não são os espanhóis, os franceses e os italianos igualmente latinos? E não fomos nós que dissemos à velha Europa que havia mais mundo para além da Taprobana?

Muitas e variadas são as desculpas que rapidamente encontramos para formar um rol de lamúrias que nos desresponsabilizem pela situação que vivemos. Mas, como diz o ditado, "as desculpas não pagam dívidas"…

Considero que é precisamente esta mentalidade que imana da figura do "Velho do Restelo" que urge alterar. Esta mentalidade do "coitadinho", da desculpabilização, da vitimização permanente, da permissividade, do "choradinho".Uma mentalidade que, essa sim, nos distingue de muitos dos povos europeus e que considero causa fundamental de uma atraso estrutural que vivemos.

É, por isso, que acredito que ainda falta promover a mais importante das revoluções: a revolução das mentalidades.

Promover a revolução de mentalidades dos quadros políticos; dos agentes sociais e da sociedade em geral, segundo uma matriz de valores, princípios e objectivos, numa lógica presidida pela ética, e numa acção encabeçada pelos múltiplas formas de educação formal e informal, afigura-se como o derradeiro desafio capaz de transfigurar a nossa sociedade e de a catapultar para os patamares de desenvolvimento ambicionados pela sociedade do século XXI.

Sendo este um assunto que requer uma explanação mais detalhada, espero, em futuras crónicas, partilhá-lo consigo.

Helder Santos