"Casa roubada, trancas à porta" é o ditado popular que melhor se aplica ao que temos assistido, ao longo das últimas semanas, no mediático caso do telemóvel, ocorrido na escola secundária Carolina Michaëlis. Por ironia do destino, graças à filmagem feita com recurso a um telemóvel, o país assistiu, incrédulo, à inqualificável disputa de um outro telemóvel entre uma aluna e a respectiva professora. O país mediático acordou para a realidade da indisciplina dos alunos e para a realidade da falta de autoridade dos professores.

 O país político apressou-se em tentar encontrar desculpas e a propor projectos de leis de última hora para remendar a situação. Mas, como "só se lembram de Santa Barbara quando troveja", assim que o apetite mediático do caso se esgotar, o tema será novamente esquecido. Situações como a ocorrida na Carolina Michaëlis, ou ainda mais graves como agressões físicas, insultos, destruição e vandalização de património, são uma realidade diária nas escolas do nosso país. O que aqui está em causa não é a indisciplina dos alunos. O que aqui está em causa não é a falta de autoridade dos professores. É, isso sim, uma questão bem mais profunda e estrutural. O que verdadeiramente está em causa é o modelo de sociedade que estamos a (des)construir.

O sistema de educação é a pedra de toque de qualquer sociedade que deseje ser desenvolvida, moderna, avançada e que deseje triunfar num mundo globalizado. O quadro de valores sociais é o nosso bilhete de identidade colectivo que nos distingue dos outros que globalmente competem connosco. A escola é um dos locais privilegiados onde as crianças e os jovens constroem o seu quadro de valores morais e intelectuais e que marcará para sempre as suas vidas e o seu comportamento social. Mas este não é o único local. O primeiro de todos tem de ser a família. É aí que reside o primeiro problema.

A crescente desresponsabilização e a desvalorização do papel da família no processo de educação surgem, nos dias de hoje, como a primeira ameaça ao desenvolvimento integral das crianças e dos jovens. O processo de socialização e aprendizagem começa com o primeiro choro vital no momento do parto. Há até quem defenda que começa ainda antes, quando o feto ainda está no ventre da mãe. É, pois, impossível dissociar a família do processo de educação. Os primeiros valores morais e sociais são construídos no meio da família e serão sempre a principal referência para as crianças e para os jovens. Quando a família entra em crise, são os filhos os primeiros a sofrerem um processo de desconstrução.

Só depois da família é que surge a escola no processo de formação das crianças e jovens. A escola surge na sequência e em intima relação com o processo familiar. Os problemas e as carências familiares do educando são transportadas para a escola e vice-versa. E aqui coloca-se a questão do papel da escola. A escola é um espaço que desempenha três papéis centrais: um espaço de socialização, um espaço de construção de valores e um espaço de ensino/aprendizagem. Estes três espaços funcionam de uma forma sistémica. Se um deles falhar, todos os restantes sentirão repercussões. De igual forma, se o substrato familiar falhar o sistema escolar será afectado.

Importa, pois, saber quais os valores que queremos cultivar no ambiente escolar. Importa, pois, clarificar quais as funções sociais da escola. Importa, pois, estabilizar a política educativa que tem sido construída ao sabor das mudanças de governo e de ministro.

A escola pública corre o risco de deixar de ser um espaço de valorização para se transformar num espaço de contaminação. A escola pública tem de voltar a premiar o mérito e a penalizar o incumprimento; a valorizar a ética e a penalizar o desrespeito; a elogiar o cumprimento das regras e a sancionar as infracções. Rigor é provavelmente o verbo que mais vezes deveria ser conjugado, não só nas contas públicas, mas também no sistema educativo e de valores éticos a promover. Infelizmente parece que a ética foi excluída do discurso e, sobretudo, da praxis política.

Assim, ao contrário da imagem que a imprensa transmite, não coloco o acento tónico do problema nos alunos mas sim nos encarregados de educação e no conjunto de valores e objectivos que estruturam a escola pública hoje em dia.

Não considero o aluno uma vítima ou um "coitadinho". É aquilo que a família e o sistema educativo permitem que ele seja. O que mais me preocupa é que os alunos de hoje serão os pais de amanhã; os alunos de hoje serão os profissionais de amanhã; os alunos de hoje serão os professores de amanhã; os alunos de hoje serão os políticos de amanhã; e todos sabemos que só se podem defender e transmitir os valores e os princípios que fazem parte do nosso código moral individual. Se eles não existirem…

Assusta-me esta espiral de falta de rigor, de falta de exigência, de falta de mérito que conduz a uma generalização do facilitismo, da irresponsabilidade, da falta de valores éticos, ao triunfo do "chico-esperto" e que nos encaminha para a degradação dos valores sociais. Urge romper com esta espiral. Haja coragem política, pois estamos já saturados deste jogo do "faz-de-conta".

Helder Santos