Com muita frequência surgem notícias alarmantes do avanço do mar sobre a linha da costa, nomeadamente em zonas mais sensíveis da costa Algarvia e da Costa da Caparica.

  Este são alguns dos sítios mais falados, mas a verdade é que toda a costa litoral está em perigo e todos nós o podemos constatar.

Durante o passado fim-de-semana, aproveitando um pouco de sol primaveril, optei por ir dar uma volta de bicicleta ao longo da calçada de Vila do Conde e fiquei preocupada ao constatar o avanço nitido do mar e a redução drástica da extensão de praia e que me levou a pensar seriamente no assunto.

Segundo um estudo da União Europeia, Portugal é dos países que mais sofre e sofrerá com a erosão costeira, e a prova é que um terço da nossa costa está de facto, a ser destruída pelo mar.

De acordo com a Comissão Europeia, o mar avança em cada ano, de 0,5 a 2 metros e em casos mais graves este avanço chega aos 15 metros!

A erosão da costa tem efeitos dramáticos.

Destruição de ecossistemas e habitats naturais, destruição de casas, infra estruturas básicas de praia, actividades económicas e turísticas e em casos extremos coloca em perigo vidas humanas.

Este avanço do mar sobre a orla costeira, obriga a intervenções diversas, umas planeadas e estruturadas, outras de carácter de urgência no sentido de remediar situações que vão surgindo pontualmente e que põe em causa pessoas e bens.

E de facto a palavra é remediar, porque estas situações são irreversíveis.

Responsáveis?

Em primeira estância a responsabilidade é de todos nós, porque este avanço do mar é resultado da actividade humana, sem respeito pela Natureza e pela sua capacidade de regeneração.

Em segunda estância, quem constrói e quem licencia actividades e habitações praticamente em cima do mar.

A conciliação dos valores ecológicos naturais e patrimoniais com as oportunidades de aproveitamento económico dos recursos exigiu uma análise integrada dos problemas e potencialidades da orla costeira, e a criação de uma regulamentação consciente e rigorosa que define princípios de uso e ocupação.

Os Planos de Ordenamento da Orla Costeira, abrangem toda a faixa litoral e definem as condicionantes, vocações e usos dominantes e a localização de infra estruturas de apoio e orientam o desenvolvimento das actividades existentes, abrangendo não só o domínio público marítimo como uma faixa terrestre com uma largura máxima de 500 metros.

Estes 9 Planos, pretendem encontrar o equilíbrio entre recursos naturais e actividades humanas, valorizando, diversificando e preservando usos, costumes, bens e proporcionar condições de vida, acesso e utilização boas, mas sobretudo criando um quadro normativo que proteja a orla costeira, com regras claras, sustentadas, conscientes e sobretudo firmes.

Este é no entanto um processo longo e que para algumas situações já veio tarde demais, pois algumas consequências tornaram-se irreversíveis e nunca mais o mar nos devolverá os metros de praias e dunas que já nos levou.

Muitas vezes, a escolha entre construção que traz benefícios monetários e preservação do património natural é difícil e por isso requer muita persistência, vontade política e confiança.

O facto de sobre a orla costeira caírem inúmeros interesses, torna-a vulnerável.

Torna-se urgente a opção por um crescimento sustentado, que passa também pela formação do cidadão, pela sua sensibilização para os problemas ambientais, para a conservação da Natureza e pela certeza que o mundo que construímos hoje é o que deixamos para as gerações futuras.

Não esqueçamos a nossa responsabilidade, agora que se aproxima mais um Verão, nem estas palavras de Al Gore, tão simples e tão verdadeiras.

 

"De costas voltadas para o local de onde viemos, sentimos uma maré desconhecida a subir e a rodear nos os calcanhares, fazendo fugir a areia debaixo dos pés. De cada vez que esta estranha maré vaza, deixa para trás destroços e refugo de algum naufrágio gigante no mar alto, que representam um novo aviso dos perigos escondidos que nos esperam se continuarmos no rumo actual"

Al Gore, A Terra à Procura de Equilíbrio

 

Teresa Fernandes