Recados dos eleitores

 

 

É ainda muito cedo para uma análise séria e desapaixonada aos resultados das eleições autárquicas ocorridas neste último domingo.

 

Nestas ocasiões há muitas leituras de conveniência e é muito possível que apareçam leituras desencontradas do resultado daquilo que foi o exercício da soberania do povo.

Sem cuidar agora do rigor dos números, interessa avaliar alguns aspectos qualitativos da vontade soberana dos nossos conterrâneos.

E, desde logo, a primeira conclusão a retirar é que o PSD perdeu votos para todas as outras forças políticas. Todos os Partidos, à excepção do PPM, aumentaram o n.º de mandatos: O PS ganhou uma Junta de Freguesia, um vereador e dois membros da Assembleia Municipal; O CDS ganhou uma Junta de Freguesia e um membro da Assembleia Municipal e a CDU ganhou um membro da Assembleia Municipal.

De registar que todos estes ganhos se verificaram em prejuízo do PSD que perdeu duas Juntas de Freguesia (uma para o PS e outra para o CDS), um vereador (para o PS) e quatro membros da Assembleia Municipal (dois para o PS, um para o CDS e um para a CDU).

Significativamente, o PSD teve uma baixa considerável de votos na principal freguesia do concelho.

Sem desconsideração pelas outras freguesias, que merecem todo o reconhecimento e respeito, S. Martinho de Bougado é a freguesia central da cidade (não confundir com centro geométrico), onde vivem cerca de 30% dos nossos conterrâneos e é a sede natural do concelho, sem prejuízo de concordar que se deve desenvolver uma política de coesão concelhia que só nos beneficiará a prazo.

E aqui a Câmara errou. Tratou mal a principal freguesia. Sou insuspeito porque manifestei, em devido tempo, nas páginas deste jornal, a discriminação com que esta freguesia estava a ser tratada. Estava a ser castigada por se ter desenvolvido um pouco mais.

A Câmara andou desorientada sem saber que havia uma sede natural do concelho e que merece ser respeitada. Se não corrigir essa trajectória, pode acreditar que os eleitores acentuarão o seu voto de protesto e provocarão a alternância do poder.

Houve outros erros que os eleitores se lembraram na hora de votar, como a política de taxas, tarifas e impostos no nosso concelho e a contestação à Trofáguas.

O desgaste sofrido pelo partido do poder tornou-se visível.

Todos estes factores, além de muitos outros, que não é possível analisar nesta coluna, motivaram uma queda significativa da votação da maioria no poder.

Não quero, com estes comentários escamotear a vitória, aliás clara, que o PSD teve nestas eleições. Venceu com maioria absoluta para a Câmara, a maioria das Juntas de Freguesia e teve uma maioria relativa para a Assembleia Municipal que se transforma em maioria absoluta com as presenças dos presidentes das Juntas de Freguesia.

O Partido Socialista foi, naturalmente, o partido mais beneficiado com a queda do PSD. Ganhou a principal Junta de Freguesia do concelho, um vereador e dois membros da Assembleia Municipal.

Ficou a sensação de que poderia ter ganho as eleições e, se não aconteceu agora, poderá acontecer nas próximas. O PSD não é imbatível e o efeito da queda considerável na principal freguesia, poderá alastrar a todo o concelho ou à maioria das freguesias.

A esse efeito, há acrescentar o desgaste que continuará a sofrer, sobretudo se continuar com certas indefinições e hesitações, como a dos Paços do Concelho e a aprovação do PDM.

A nível nacional, não encontro razões para euforia do PSD: tem menos una Câmara do que em 2001, embora o PS tenha perdido quatro.

O PS conquistou 13 Câmaras ao PSD, tantas quantas o PSD conquistou ao PS.

O PS conquistou uma capital de distrito ao PSD (Faro) enquanto o PSD conquistou outra ao PS (Aveiro).

No distrito do Porto, o PSD perdeu uma Câmara e o PS manteve o mesmo n.º de 2001.

Nesta contabilidade de perdas e ganhos, quem ficou a ganhar foi a CDU que aumentou em quatro as presidências de Câmara, tanto quanto os Independentes que também conquistaram quatro Câmara Municipais.

Uma análise mais objectiva, talvez mais tarde.

 

Afonso Paixão