O primeiro-ministro, José Sócrates, depois de em 1998 ter defendido a Regionalização, condicionou recentemente uma eventual proposta da sua implementação na próxima legislatura. Afirmou o também secretário-geral do Partido Socialista, que talvez na próxima, «se todos chegarmos à conclusão de que esse é o momento e se houver uma proposta que reúna um nível de consenso que permita ter uma expectativa de vitória». Só existirá referendo sobre a regionalização, se todos chegarmos à mesma conclusão? Que democracia é esta?

Moreira da SilvaA Região Norte tem vindo a perder a capacidade de protagonismo, que teve num passado ainda recente, porque se dispersaram as vozes dos mais variados sectores, a começar pelas vozes políticas e empresariais. Assim, o Norte perdeu a dimensão critica que lhe permitiu reivindicar junto do poder central, aquilo a que tinha direito e que nos últimos anos tem perdido, transformando-se, a Região Norte, na Região mais pobre do País, e uma das mais pobres da Europa, inclusivamente já foi ultrapassada pela região do Alentejo. Ao que chegou esta Região que corre o sério risco de se definhar, e apagar politicamente do mapa de interesses do País!

     Aos partidos políticos tem faltado, sabe-se lá porquê, uma percepção da dimensão da grandeza, e da pujança, da Região Norte. Tem faltado, aos partidos políticos, uma visão estratégica de uma grande Região que tem todo o potencial de poder vir a ser o motor de desenvolvimento de todo o Nordeste Peninsular.

     Esta Região que se mobilizava, quase em uníssono, em tempos de crise, deixou-se adormecer e entrou numa lógica de choradinho, agora já nem reivindicativa sabe ser. As verbas do PIDDAC têm sido mais que insuficientes e por isso, os Governos não podem, nem devem, ser desresponsabilizados pelo estado, da quase calamidade, a que chegou a Região Norte, em muito pela fraca canalização de dinheiros públicos, ou o adiar, anular, e protelar os projectos determinantes ao desenvolvimento da Região.

     Na última década, a riqueza produzida por habitante, na Região Norte, teve uma queda assustadora, e violenta, passando dos 67% da média comunitária para os 59%. Esta quebra de 18% da riqueza produzida é o dobro da verificada a nível nacional e a deixa abaixo do patamar, dos 75% da riqueza comunitária, o que a torna por si só a única Região de Portuguesa, como Região de apoio prioritário.

      Só por curiosidade, dois terços dos trabalhadores por conta de outrem vivem no Norte, mas o seu nível salarial não acompanha esta proporção, pois mais de metade das pessoas cujo salário ultrapassa os 2.500 euros por mês, vive em Lisboa, enquanto que só um quarto está no Norte. Um trabalhador do Norte leva para casa no final do mês menos 78 euros do que a média nacional e menos 252 euros do que um lisboeta. Em contrapartida, o Norte continua a ser, de longe, a Região que mais exporta, e sozinha, vende ao estrangeiro mais do dobro de que a segunda maior, Lisboa. É a Região que mais ajuda ao equilíbrio das contas públicas e a que mais pobre está!

     Não foi há muito tempo que a Região Norte se encontrava entre as dez regiões mais industrializadas da Europa e agora é preciso fazer com que o Norte venha, de novo, a ser uma região desenvolvida e próspera para assim ajudar o País a sair da crise em que se encontra. Para isso precisa de líderes não só científicos, não só empresariais, mas políticos que mobilizem as universidades, associações, empresas e pessoas, para legitimar e reivindicar o desenvolvimento a que tem direito.

     A criação das Regiões, além de constitucional, é um factor de coesão económica e social do País. 

          •      José Maria Moreira da Silva

           moreira.da.silva@sapo.pt