Após ter colocado o futuro do concelho da Trofa em xeque, com este estranho caso do aterro sanitário, o executivo Sérgio Humberto virou o bico ao prego, quando se apercebeu que o seu segredo, afinal mal guardado, poderia ter um impacto eleitoral negativo, construindo e disseminando a narrativa anti-aterro. Em entrevista recente ao Porto Canal, Sérgio Humberto afirmou mesmo estar preparado para usar uma “bomba atómica”, referindo-se ao corte de estradas do concelho.

Tem sido interessante verificar, ao longo dos últimos cinco anos do percurso do autarca trofense, a prevalência de elementos e imagens associadas aos períodos que antecedem e sucedem à Segunda Guerra Mundial. Desde a censura, muito comum nas ditaduras fascistas e comunistas, aquando, por exemplo, do boicote ao trabalho deste jornal numa sessão pública de esclarecimento no Muro, em Outubro de 2015, à perseguição política do Clube Slotcar da Trofa, passando por uma série de artifícios de propaganda, muito à imagem das ditaduras daqueles e de outros tempos, sem esquecer, claro, o episódio do “gosto” facebookiano em duas publicações de um funcionário da câmara, conhecido nas redes sociais por recorrer ao discurso de ódio e à ocasional ameaça – eu já fui alvo de duas ou três – que sugeriu a transformação da Assembleia da República numa câmara de gás, ideia que terá agradado ao edil, pese embora a pertença dos seus companheiros Alberto Fonseca e Sofia Matos no hemiciclo.

Agora, em plena crise do aterro sanitário, provocada pelo executivo que dirige, o autarca trofense ameaça usar uma “bomba atómica”. Não obstante, parece ter-se refugiado num bunker nuclear, a julgar pelas sucessivas ausências nos protestos contra a vinda do aterro, ao lado dos quais afirma estar. No primeiro, o executivo foi representado por Sérgio Araújo. No segundo, por Lina Ramos. Domingo passado foi a vez de António Azevedo. E o presidente, que afirma estar ao lado dos trofenses, apesar da defesa do projecto, da desvalorização dos impactos sanitários e ambientais evidentes e da negociação secreta com a Resinorte, continua escondido, sem dar a cara, a fazer-se representar pelos seus generais, que começam a escassear.

Estranho muito esta atitude do presidente, até porque os protestos têm acontecido durante o fim-de-semana. E, mesmo que fossem durante a semana, estamos a falar do presidente omnipresente, que marca presença em praticamente todos os eventos e acontecimentos de relevo na Trofa, sempre rodeado pelas objectivas dos fotógrafos da câmara municipal, que dão origem a gloriosos álbuns de fotografias no Facebook da autarquia. E agora nem vê-lo! Nem ele nem a sua estratega, Zita Formoso, também presença habitual nas acções onde o presidente se apresenta, desde os tempos da campanha eleitoral de 2013, ainda Sérgio Humberto era apenas um candidato.

Que se passará com o nosso presidente, que justifique estas sucessivas ausências? Estará Sérgio Humberto com medo de enfrentar a população, olhos nos olhos, refugiando-se atrás de comunicados e vereadores que são enviados, à vez, para dar o peito às balas? Receará o presidente ser recebido com a mesma hostilidade com que Sérgio Araújo foi recebido no primeiro protesto? Desconheço os motivos que justificam esta ausência, mas, sejam eles quais forem, a ausência é notória e tem uma leitura política óbvia.

Porque ser autarca não pode ser uma missão apenas para os dias bons. Tem que ser, igualmente, uma missão para os dias maus. Aparecer em festas, ou transformar inaugurações e eventos públicos em comícios, é muito fácil. Encarar o povo quando as coisas correm mal é que já não é para todos. Só para aqueles que não devem, não temem e que colocam a sua terra e os seus munícipes acima de tudo. Outros escondem-se, em bunkers ou atrás dos seus oficiais, quando as coisas correm mal.