Depois de um ano de trabalho, os níveis de ansiedade ficam sempre elevados, pela chegada das merecidas férias, que mais não são do que um período de descanso periódico, de uma atividade constante. Neste período não é desejável qualquer tipo de apoquentação, seja trabalho, estudos ou até da política. Os portugueses bem precisam e merecem, muito mais a viver em crise.

No período de férias dos políticos, tribunais e até de jornalistas é usado o conceito anglo-saxónico Silly Season, que se caracteriza pela falta de notícias importantes e sérias, sendo os órgãos de comunicação social assaltados pela “falta de assunto”, por temas frívolos ou por assuntos requentados.

Em termos políticos, as nossas férias vão ser atacadas por diversos “obuses” de pólvora seca, que também poderão ser designados por “swaps”, “ações”, SLN ou BPN, para não falar da poluição provocada pelos pedidos de demissão de ministros e do governo. A somar a tudo isto, ainda vamos ter a campanha eleitoral para as autárquicas, que já se começa a sentir. Os partidos políticos vão ter de desdobrar-se entre “Universidades de Verão”, Convenções, apresentações de programas eleitorais e “rentrées”. Nenhum partido político vai fazer férias, para dar arranque à campanha eleitoral. Que chatice! Não vamos ter Silly Season.

As eleições autárquicas deste ano vão custar 14 milhões de euros, mais 3 milhões do que custaram as últimas legislativas. Este aumento é entendível e não deve ser comparável, pois são eleições muito diferentes e o processo de preparação das autárquicas é dos mais exigentes dos últimos anos devido às alterações que decorrem da reforma administrativa.

No passado mês de junho o Ministério da Administração Interna notificou mais de um milhão de eleitores de freguesias dos distritos de Aveiro, Beja, Castelo Branco, Faro, Setúbal e Viana do Castelo e os concelhos de Amares e Barcelos, no distrito de Braga. No mês de julho foram notificados outros 3,5 milhões de eleitores. Está prevista, no decorrer do mês de agosto e em setembro, uma campanha informativa em órgãos de comunicação social e em autocarros, com cartazes e folhetos informativos.

As eleições autárquicas vão-se realizar em 29 de setembro e os trabalhos técnicos estão dentro da normalidade e a decorrer no tempo previsto. A reforma administrativa alterou 2.008 freguesias, que diminuíram das atuais 4.259 para 3.091. A agregação de freguesias ocorreu em mais de 200 concelhos e alterou os limites de 50 freguesias de 13 concelhos. Em consequência, foi também modificada a situação eleitoral de perto de cinco milhões de eleitores. Apenas 46 concelhos não tiveram qualquer alteração de freguesias ou limites territoriais.

Como era previsível, tudo isto tem originado elevados custos e só demonstra que a (pseudo) reforma administrativa tem todos os ingredientes para ser um flop, quer em termos políticos, quer em termos financeiros. A oposição vai ter aqui um manancial para explorar. De “mão beijada”.

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt

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