Confesso não ser grande a vontade de redigir algumas palavras sobre a situação. Durante os últimos anos expus, da melhor forma que me foi possível, uma série de posições, preocupações e conjecturas, em termos políticos, sobre os nossos tempos, e penso não me ter enganado em muita coisa. Infelizmente, a concretização da política de direita na Europa e em Portugal, com a ditadura do «défice» e a constante enxurrada da riqueza produzida do suor de quem trabalha na direção da ganância e da malvadez dos impérios financeiros e especuladores, a quem os respectivos servidores apelidam gentilmente de «mercados», conduziram a um empobrecimento rápido das classes laboriosas, dos pensionistas e dos jovens, ao definhamento da propalada «classe média» e à liquidação de centenas e centenas de pequenas e médias empresas.

O desemprego galopante, a falta de financiamento das empresas, a diminuição de salários e pensões e a subida dos impostos, levaram a forte recessão e a uma drástica diminuição da procura de bens e serviços, conduziram ao definhamento do mercado interno, estrangularam a economia e depauperam o nosso povo. De mês para mês, de ano para ano, a continuarmos esta rota, teremos cada vez menos, até batermos no fundo. Em pouco tempo, deixaremos de ter um serviço nacional de saúde, uma escola pública, tribunais e voltaremos aos velhos tempos da pobreza e da miséria.

Sei que o amigo leitor estará a pensar: «este tipo é o profeta da desgraça…» e seria bom ter alguma razão nisso. Mas acontece que a história tem vindo a dar-me razão em relação ao que escrevi há um ano atrás.

As coisas, no entanto, poderiam ser bem diferentes, caso definíssemos outro trilho. É certo que nos repetem à saciedade ser este o único percurso. Mas aldrabam…mentem com todos os dentes que têm na boca, mais os que lhes faltam…Senão, pensem…os que agora exaustivamente afirmam isso, qual cassete mais repetida e repetitiva, não são aqueles que durante anos a fio, sempre nos transmitiram maravilhas da construção europeia, do progresso de Portugal e dos portugueses, que nos asseveraram uma vida melhor? São. Exatamente os mesmos. As coisas aconteceram como garantiram uma vez, duas, três vezes…? Não.

De facto, existem recursos suficientes para que ninguém passe necessidades. A distribuição da riqueza produzida, é que é absolutamente desigual, injusta e cruel. E é por aqui que as coisas podem ser alteradas.

A primeira coisa a fazer-se é suster esta política. É dizer: «Basta». O PCP tem feito o que lhe é possível…e ainda agora apresentou uma moção de censura. Uma moção de censura ao pacto de agressão, ao aumento da exploração, ao empobrecimento, às injustiças sociais, à política do governo e «ao governo, que executa e afunda o país e o conduz ao desastre». Mas só isso não chega. É imprescindível o levantamento da voz e da vontade de todos, dos trabalhadores, dos reformados, dos desempregados, dos jovens, dos homens e mulheres deste país em uníssono contra a «situação».

A seguir, necessitávamos de gente séria à frente dos nossos destinos. Gente que fizesse da política a mais nobre arte humana: servir o bem comum e lutar pela felicidade do ser humano, não de alguns, mas de todos. Tal empreendimento só é possível à esquerda, com a filosofia, os valores e princípios da esquerda, nomeadamente através de um reforço significativo da CDU. Os que têm governado apenas se servem da política para concretizarem os seus interesses, os dos seus apaniguados e do grande capital. Não é por acaso o rodopio, ao longo de anos, dos mesmos pelas diversas cadeiras dos altos cargos políticos e dos altos cargos da gestão e administração das grandes empresas privadas, públicas e das Parcerias Público Privadas, em total promiscuidade.

Depois, seria imperioso que os bens estratégicos e a sua produção estivessem nas mãos do povo e sob o seu controlo e fiscalização.

Por fim, caminhar para políticas igualitárias de distribuição da riqueza, de forma a dinamizar o mercado interno, aumentar a produção, desenvolver as pequenas e médias empresas e criar emprego.

É fácil este caminho? Não. Mas ele existe. É mais um. Necessita de muita coragem, determinação, audácia, resistência, vigilância e fiscalização permanentes.

Mas o escolhido, aquele que ora vai sendo posto em prática, apenas soma empobrecimento sobre empobrecimento e como dizia José Saramago «obscenidade não é a prostituição. Obscenidade é a pobreza.»

 

Guidões, 16 de Junho de 2012.

Atanagildo Lobo