No dia 19 de Novembro, cerca de 12 mil trofenses em 132 camionetas e centenas de carros particulares, rumavam a Lisboa para ir buscar o concelho. “Foi o nascimento de um filho, uma coisa fortíssima, eu recordo-me de chorar agarrado às minhas filhas”, afirmou José Maria que esteve desde cedo associado à Comissão Promotora do concelho da Trofa e recordou os momentos mais difíceis e as lutas que foram travadas.

 Natural do Porto, veio para a Trofa cedo e aqui começou por ser presidente de um movimento associativo, até ter sido eleito presidente da Junta de Freguesia do Muro, onde ainda reside.

“A Junta de Freguesia tinha um autarca tradicional, um dos autarcas mais antigos do concelho de Santo Tirso, e o povo estava um pouco insatisfeito. Decidi criar um movimento em conjunto com muitos trofenses do Muro, foi o movimento MIM, colocamos cartazes e panos na estrada a dizer, “Eu sou do Muro votem em Mim”, “Eu sou mulher votem em Mim”, “Eu sou jovem votem em Mim”, e o povo quis que ganhássemos as eleições. A Câmara Municipal de Santo Tirso decidiu fazer retaliação por nós termos ganho as eleições e disse-nos que enquanto estivéssemos à frente da freguesia que não fariam nenhuma obra na nossa freguesia. Isto motivou-nos”, recordou.

Foi a partir daí que José Maria e os seus companheiros do Muro decidiram juntar-se à Comissão Promotora do concelho da Trofa. “Aderimos depois de uma assembleia de freguesia, e estivemos de alma e coração no projecto”, afirmou.

As reuniões nos cafés traziam pouca dignidade ao movimento e José Maria, em conjunto com o executivo da Junta decidiu ceder as instalações da Junta de Freguesia do Muro e todo o apoio administrativo para a Comissão Promotora do concelho da Trofa.

“Um dia decidimos chamar toda a comunicação social nacional e deputados para a inauguração dessa sede e viemos mostrar que pretendíamos ser concelho da Trofa, levamos os deputados ao Monte de S. Gens, para ver a panorâmica da Trofa, porque era isso que de mais lindo tínhamos. Esta foi a grande primeira iniciativa, sair das quatro paredes, isto foi há 14 anos”, contou.

Depois de várias reuniões entre os membros, começaram a surgir “as operações de charme na Assembleia da República”. “Entregamos a primeira petição à Assembleia da República, depois passados uns anos entregamos a segunda já perto de sermos concelho e nessa já tínhamos alguns sinais do PS e algumas incertezas se votariam a favor, mas a nível nacional”, afirmou.

Mas a Comissão promotora estava determinada em obter a posição favorável de todos os partidos a nível nacional, porque segundo o trofense esta “não era só uma vontade de 20 amigos, nem de 50, mas era a vontade de toda a população e decidimos fazer em Março, antes de sermos concelho a primeira grande iniciativa. Fizemos a grande concentração no Parque Nossa Senhora das Dores, às 17 horas, num dia de semana”.

A concretização desta grande concentração não era fácil. O objectivo dos membros da Comissão era juntar todos os trofenses, por isso, desdobraram-se em reuniões com empresários, para que pudessem encerrar as fábricas mais cedo e com as escolas, para que dispensassem os alunos das aulas.

O objectivo foi alcançado e às 17 horas uma verdadeira massa humana cobria o Parque Nossa Senhora das Dores. A frustração veio mais tarde, “passados dois meses Vizela vai sozinha a concelho. Mas nós não baixamos os braços”, frisou.

Como prometido por Marques Mendes, o então líder do PSD, na Trofa, a inclusão no agendamento na Assembleia da República da criação do concelho surgiu, mas apenas em Novembro.

No dia 19 de Novembro, cerca de 12 mil trofenses, 132 camionetas, ambulâncias, equipas médicas e comunicação social, rumavam a Lisboa para ir buscar o concelho. “Foi o nascimento de um filho, uma coisa fortíssima, eu recordo-me de chorar agarrado às minhas filhas”. Foi desta forma que José Maria Moreira da Silva descreveu o famoso momento que resultou na independência da Trofa.

Passados 10 anos e em jeito de balanço José Maria garante “obviamente que um pai quer sempre o melhor para o filho, eu pessoalmente gostava de um concelho completamente diferente”, referiu.

“Rejuvenescer” é a palavra de ordem para José Maria que como murense, diz não “sentir” a cidade da Trofa. “A cidade da Trofa são duas freguesias S. Martinho de Bougado e Santiago de Bougado, esta realidade sociológica chamada cidade, vão-me desculpar mas eu não a sinto”, lamentou.

Quanto à criação dos Paços do concelho “é uma questão menor”, mas “na minha óptica deverá ser na cidade da Trofa, há uma necessidade de crescer a cidade para sul. E o primeiro erro foi a desactivação da estação dos comboios. Mas o centro cívico da Trofa, com zonas ajardinadas, zonas verdes, com o metro e onde as pessoas pudessem beneficiar de todos os serviços, deveria ser na Feruni”, reiterou.