“É Carnaval, ninguém leva a mal”. Passos deu um tiro mas apenas acertou num coelho. Tiro desnecessário. O carnaval fez-se na mesma, com mais sucesso e, inclusive, com agradecimentos pela mentalidade do governo que, metamorfoseado de Troika, ultrapassando-a, não conseguiu escapar às “matrafonas” de Torres Vedras, que levantando o carnaval como uma bandeira o usaram como arma de luta contra esta política, constituindo a vanguarda daquele que foi o lema comum deste carnaval. O Governo, a Troika, os Mercados, os seus seguidores e propaladores mascaram-se de bonzinhos, espalham aos sete ventos a tese da inevitabilidade, enquanto se entulham de poder e se anafam em dinheiro. Entretanto o povo, os trabalhadores, os reformados, os jovens, os pequenos e médios empresários vão empobrecendo, empobrecendo…aqui não há máscaras, é empobrecimento mesmo. O número de desempregados registados já vai a caminho dos 15%. Só em Janeiro, foram mais trinta mil para o desemprego. Estamos a falar de pessoas…não de coisas. Como pode o dinheiro ser mais importante?! Não escasseando os bens fundamentais, existindo esses bens até em abundancia: alimentos, medicamentos, vestuário, educação, comunicações…, como se pode aceitar esta crise? A crise, entre muitas, tem uma explicação, um motivo. Quando sabemos que pelos 78 mil milhões de euros da “ajuda” do FMI/EU teremos de pagar mais de 35 mil milhões de euros de juros, facilmente entendemos para onde vai o dinheiro e porque é que as políticas que vêm sendo seguidas pelos governos europeus, pela UE, pelos mercados e pelas troikas têm apenas como único objetivo o empobrecimento do povo. É que o dinheiro não é um elástico, não dá para os dois lados. Para engordar alguns, adelgaça a grande maioria.

Há uma saída. Ela passará necessariamente pela subordinação do sector económico-financeiro ao poder político. Um poder politico sério, de esquerda e a favor dos trabalhadores, que beneficie o pequeno e médio empreendorismo privado, sem descurar o sector estratégico do estado e o sector cooperativo. Essa política assegurará obrigatoriamente uma melhor e mais equilibrada distribuição da riqueza. Só assim se desenvolverá a economia, incentivará a produção e o consumo, fomentará o emprego e haverá melhor qualidade de vida para todos.

Com o Carnaval destituímos o inverno e louvamos a primavera. O Carnaval é um ritual entre o pagão e o religioso, tão natural como a passagem do tempo e a renovação das estações. Destacamos a quentura e os dias grandes que regressam. A frase popular “é Carnaval, ninguém leva a mal” descobre a sua razão nos ritos libertinos próprios destes festejos, uma devassidão permitida que, a par de outros rituais expurgatórios, constitui ainda hoje a sua principal característica. A destruição pelo fogo de figuras alusivas ao passado (tudo o que é velho), o julgamento e queima, em cerimónia pública, do Entrudo, do Velho e de outras figuras míticas, a serra da velha e a crítica social são rituais expurgatórios deste período de passagem que é o fim do inverno e a entrada na primavera, ainda atuais, um pouco por todo o lado.

Como o Carnaval, contribuiria para o bem de todos dizermos adeus a esta política e a estes políticos das troikas e louvarmos uma nova politica, um outro rumo. Acabar com este “Entrudo”, já velho e gasto que, sempre à custa dos sacrifícios dos mesmos, apenas quer enriquecer ainda mais e até já quer acabar com o Carnaval, seria uma coisa bela de se fazer. Julgando-o e queimando-o, chegaríamos a uma primavera autêntica para todos e para o ano o Carnaval regressaria por completo ao seu dono: o povo, que não mais poderia ser alvo de assalto por um qualquer “ mascarado”.

“É Carnaval, ninguém leva a mal”.

Guidões, 21 de fevereiro de 2012.

Atanagildo Lobo

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